A BRASILEIRA DE PRAZINS
CAMILO CASTELO BRANCO

Camilo Castelo Branco

A BRASILEIRA DE PRAZINS

Cenas do Minho

Vigsimo terceiro volume

Seleco e notas de Alexandre Cabral

Crculo de Leitores


NOTA INTRODUTRIA

Dos dezassete volumes que Camilo Castelo Branco anunciara com alguma jocosidade na "Advertncia" do Eusbio Macrio (18 79), publicou em seguida A Co@a (1880) e ficou por a a interminvel srie dos "romances facetos". No entanto, o xito editorial do Eusbio fora extraordinrio, sendo reimpresso ainda em 1879. No esqueamos, porm, que recebera em contrapartida graves excomunhes.

Como quer que seja, nesse ano, e antes da publicao de A Co@a, a imprensa anunciara o breve aparecimento de um

novo romance realista (faceto?) do festejado autor de novelas passionais, Intitulava-se O Gonalinho de Carude, umas vezes, e, outras, O ltimo Morgado do Pao de Carude -romance

que nunca foi editado.

Diferindo embora nos ttulos, a polpa do noticirio era idntica:

"Este morgado, que a opulenta imaginao do nosso grande literato acaba de procriar, vai entrar no prelo. Esperamos com as

melhores disposies a visita deste morganstico realista da novssima espcie, que est compondo a toilette na imprensa do Sr. Teixeira,  Cancela Velha, para fazer a sua entrada triunfal na repblica das leiras" (ver O Primeiro de Janeiro, n.o 195, de 261VIIII1879, dando-lhe o ttulo de O ltimo Morgado do Pao de Carude; e Bibliografia Portuguesa e Estrangeira, n.o 1, de 1880, p. 11, que o baptiza de O Gonalinho de Carude).

 fora de dvida que o autor projectara uma srie de romances de ndole faceta, gmeos na "profunda compreenso da sociedade decadente " -qualquer coisa que se assemelhasse

a "uma sinfonia offenbacbiana, a gaita e berimbau, da abertura de um grande cbarivari de trompes fortes bramindo pelas suas goelas cncavas, metlicas", como escrevera, em junho de 1879, na "Advertncia" ao 1.o tomo da srie (Eusbio Macrio).

Em vez da biografia do morgado de Carude,  editada A Corja, em 1880, como "continuao de Eusbio" e, s trs anos depois, aparece um outro romance de Camilo, precisamente A Brasileira de Prazins, dado  publicidade em 1883, e no em 1882 (data em que foi escrito), como alguns estudiosos inculcam.

 evidente que neste lapso de tempo o exemplar trabalhador das letras portuguesas no estivera inactivo, desenvolvendo exuberante actividade no campo da polmica. Diga-se desde j que as pugnas dessa poca (18 79-1883) se relacionam directa ou indirectamente com a questo da "suposta incurso no domnio da literatura realista " do nosso autor,

Esto neste caso: A polmica  volta do Cancioneiro Alegre (18 79), a polmica com a princesa Rattazzi (1880) e, sobretudo, a polmica com o republicano Alexandre da Conceio (1881), que o prprio Camilo apelidaria depois de "Modelo de Polmica Portuguesa".

Estes textos polmicos tm uma importncia primacial para a

compreenso do que se convencionou chamar, impropriamente a nosso ver, o surto realista da novelstica camiliana. Alm de outras, h uma pea notvel, da autoria de Silva jardim -A Crtica de "Escada Abaixo " -, includa na Polmica  volta do Cancioneiro Alegre (ver Polmicas de Camilo, vols. VI e VII da edio dos Livros Horizonte).

Ainda no decurso desse perodo, Camilo publicou outras obras: as Notas Biogrficas sobre Lus de Cames, prefcio 
7.a edio do Cames, de Almeida Garrett (1880), Ecos Humorsticos do Minho, onde vm includas as suas rplicas s crticas de Carlos de Laet (1880), sempre a propsito do Cancioneiro e

dos "romances realistas", e a miscelnea em dois volumes Narcticos (1882), que por sinal incorpora uma novela "realista", O Sr. Ministro.

Mas que acontecera ao fabuloso morgado de Carude, que, j aperaltado, no chegara a entrar triunfante na repblica das letras? E que razes levaram Camilo a suspender a srie interminvel dos "romances facetos " ? (Esta questo ficar para o final desta "Nota",)

Quanto ao "morganstico realista da novssima espcie", quer-nos parecer que o seu enredo foi de algum modo aproveitado no entrecho de A Brasileira de Prazins.

De facto, aparecem neste romance vrias referncias  tia Rosa de Carude, que bem podem significar uma sequela do original primitivo. Alm disso, se considerarmos um dos ttulos

que teve a novela -0 Gonalinho de Carude - e nos lembrarmos de que um dos protagonistas do Eusbio e de A Corja, o devasso padre justino, se chamava tambm Gonalves (padre justino Gonalves, como  apelidado uma nica vez no Eusbio Macrio), bem podia acontecer que o " Gonalinho de Carude "
fosse rebento danado desse insacivel padreador do femeao de Barroso e Cabeceiras de Basto.

Recordemos o pargrafo com que o autor encerrou a crnica do boticrio:

"Estava, pois, constituda e bifurcada a famlia Macrio, no
tempo dos Cabrais, cujo reinado expirou no ano seguinte. Horizontes novos vo rasgar-se. Adubos to crassos devem rebentar em vegetaes feracssimas" (Eusbio Macrio, sublinhado nosso).

Porque no admitir que o Gonalinho fosse um rebento dessa estirpe?

-Acontece ainda que, no final de A Brasileira de Prazins, aparece um outro figuro dos "romances facetos":  o brasileiro Bento Jos Pereira Montalegre, que veio a ser baro do Rabaal, e n'A Brasileira  padrinho de casamento de Feliciano com sua sobrinha, a Marta de Prazins. E fala-se nestes termos do baro do Rabaal.- " Um gordo, casado com as brancas carnes veludosas da filha do Eusbio Macrio. " A verdade, porm,  que o Bento Montalegre regressara ao Brasil ao descobrir a infidelidade da Custdia. Ocorre isto em Maio de 1853.

Recorde-se, que Maria de Nazar aconselhara a adltera a recolher a convento. O bardo autorizara o marido "a fazer o que quisesse, de modo que a sua dignidade ficasse salva ". Acrescentando: "Parece-me que entrando a senhora num convento ... [ .. Ela est ainda em Lisboa, e s parte para o Brasil no paquete de Maio. Escreve-se-lhe... " (ver A Corja, pp. 170-171, ed. de Lello & Irmo-Editores, s. data).

Previa-se uma reconciliao, como era frequente em casos to delicados.

Por outro lado,  certo que os primeiros captulos de A Brasileira de Prazins foram publicados em A Arte, revista de Lisboa, de que era redactor A. de Sousa e Vasconcelos. Trazia o subttulo "Estilo Velho" e ocupou vrios nmeros. Comeou no n.o de Agosto de 1879 (pp, 116 a 119) e prosseguiu no n, o de Outubro (pp. 14 7-148) e n. o de Dezembro (pp. 178-179). No se publicou mais nada, apesar de trazer continua.

Registam-se nos dois textos diferenas substanciais, no que respeita a nomes e  caracterizao dos personagens. Todavia, a alterao mais notvel  que de "Estilo Velho ", subttulo de A Arte, passou na edio em volume para "Cenas do Minho ", tendo sido anunciado como "novo romance realista". j no se fala em "romances facetos" -curiosamente!

Como o leitor ver, o enredo romanesco de A Brasileira de Prazins divide-se em duas histrias distintas: a comdia burlesca do aparecimento em S5@o Gens de Calvos de um falso D. Miguel -farsa que comea na "segunda-feira de Entrudo de 1845, s trs horas da tarde " (a parte faceta e grotesca do romance) e o funesto amor de Jos Dias de Vilalva com a Marta de Prazins (a parte propriamente romanesca e dramtica).

A acidentada biografia do aventureiro Verssimo Borges Camelo da Mesquita -o falso D. Miguel - preenche  vontade dois teros do romance, entrelaando-se no relato variados episdios das lutas entre liberais e realistas, com preponderncia para os motins populares da Maria da Fonte (incidentes de 1846). O tom narrativo  faceto e, de maneira geral, os seus intervenientes so figuras caricaturadas, desenhadas com aleijes salientes,

mesmo as personalidades histricas que nelas se referem. Dignidade, pouca ou nenhuma, qualquer que seja a classe; trapaceiros e trnsfugas quase todos, sendo frequentes as apostasias de ideal poltico, consoante o momento e as convenincias.

Os amores de Jos Dias e Marta de Prazins duram pouco e

terminam em tragdia.'0 amante de Marta morre sem se desobrigar do compromisso de honra que abrira com a sua enamorada, ao conhecer-lhe o leito. O matrimnio, remdio eficaz para as faltas desta natureza, no se concretizou porque os

pais de Jos Dias -mormente a me - se opem com teimosia ("a moa de Prazins no era forma de seu p ").

Complica-se o enredo ao regressar do Brasil um tio de Marta, Feliciano Rodrigues Prazins, o feliciano da Retorta, rico

como um porco, que, virgem de corao e de corpo, se enamora

aos 4 7 anos da sobrinha, que teria ento 16.

Embora saudosa do amante, Marta aceita casar com o tio, porque seu pai lho rogara na hora em que julgava estar a

despedir-se da vida. Com intermitncias de loucura, lembrando-se sempre e obsessivamente do primeiro amor, acaba por levar uma vida apagada, vegetativa e reprodutora (d cinco filhos ao mando), com lances de misticismo.

A intriga chega  actualidade (1882), data em que o romance  escrito, como acontece invariavelmente na novelstica camiliana, com excepo dos "romancesfacetos".

O elo de ligao entre as duas histrias est no Zeferino Ferreira ou Zeferino das Lamelas, mestre pedreiro, que, contando
32 anos, amava loucamente Marta, na altura a rondar os 14. E, como se mete na poltica, acompanha a rbula do monarca de &o Gens de Calvos, apesar de o pai, tambm miguelista, nos

momentos de grande lucidez, entre duas bebedeiras, lhe chamar "cavalgadura" e dar-lhe por conselho "que se deixasse de poltica e fosse fazer paredes, que  o que ele sabia ".

Acontece que Zeferino fizera com Simedo, o pai de Marta, um extravagante contrato: pagava-lhe as dvidas (para riba de
1500$000 ris) e casava-se com a filha, sem qualquer dote. Dizia o pedreiro: "Pode dar os bens ao outro filho que eu no lhe quero uma de X "

Acrescenta o autor: "Negociara afilha com o Zeferino como

tinha negociado com o Tarraxa a vaca amarela na Feira dos Treze. "

Finalmente, Simedo no cumpre o contrato: primeiro, d-se o

namoro de Maria com Jos Dias; depois, falecido este e regressado o mano Feliciano do Brasil (acontecimentos mais ou menos

coincidentes), modifica os planos, conjecturando cas-lo com a filha.

H um comentrio do autor que merece reflexo, quando fala da estrambtica transaco do pai de Marta com o pedreiro:

"Eis um caso esquisito de aldeia que pela torpeza parece acontecido numa cidade culta, "

Quer dizer que a aldeia fora irremediavelmente contaminada pela gangrena citadina. Ora, esta desagregao, esta decadncia, no diz apenas respeito  sociedade e s instituies. Tem que ver, essencialmente, com o prprio universo romanesco camiliano, que, depois dos dois "romancesfacetos", entrara em inevitvel decomposio.

A edio dos "romances facetos" significa a ruptura desse universo, enquanto nos dois romances subsequentes se procura uma conciliao, que se malograr, (Depois de A Brasileira de Prazins, de 1883, Camilo s publicar mais um romance, em
1886, Vulces de Lama.)

O desmoronamento do universo romanesco camiliano constata-se neste pormenor singular: a intriga de A Brasileira

localiza-se numa zona e situa-se numa poca que serviram de palco e moldura a muitas das suas novelas anteriores, incluindo

os "romances facelos" -o Norte de Portugal e meados da centria oitocentista.

Historicamente, os eventos no se alteram -como  bvio! -, o que se altera profundamente  a perspectiva do observador. Com efeito, a viso do autor  que se modifica, tanto quanto  interpretao dos factos, como  dos costumes: uns e outros encontram-se subvertidos, no em relao  poca propriamente dita, mas  viso que dela linha o autor na data em que escrevia os seus ltimos romances.

A transformao no se deu no passado revoluto; transplanta-se o presente, a conceptualidade do presente, para o

perodo que serve de cenrio s fbulas narradas "agora ". Este fenmeno  que explica a derrocada das estruturas e cdigos do autor.

No vamos alm de um exemplo: no final de A Brasileira de Prazins, aparece um grupo de missionrios a evangelizar as aldeias, de que  maioral Frei Joo de Borba da Montanha, o confessor de Marta. Acredita no Inferno e em toda a casta de diabos. Presumindo que a esposa de feliciano est possessa, submete-a a exorcismos vingadores, que a libertariam do demnio incubo que nela entrara, Marta acabar por ganhar repugnncia e
medo ao frade.

O autor  implacvel para com a aco destes homens que

desprestigio a santa religio de Jesus. Ora, o caso passa-se na viragem da dcada de 40 para a de 50 de oitocentos. Recordemos que, nesse perodo, Camilo Castelo Branco fez a apologia dos missionrios, creditando-lhes os maiores benefcios para a

humanidade e apontando-os como blsamo exclusivo para os

males das aldeias.

Numa discusso com o padre Osrio (apresentava "a sua batina sem ndoas[..] tambm as no tem na vida "), este chega a

dizer ao missionrio:

"Ab.11 meu Frei Joo, receio muito que as supersties venham a desabar o catolicismo, que deve a sua existncia  vitria que alcanou sobre as mentira-f da idolatria com as armas da verdade. "

Ora, o cimento sobre o qual se edificara o universo novelstico camiliano  de natureza religiosa (catlico). At esses fundamentos deram de si.

Na "Introduo" de A Brasileira de Prazins, Camilo explica o fenmeno de maneira lapidar."Como a exposio do reitor saiu muito enfeitada de jias sentimentais -detestvel espcie arqueolgica que ningum tolera -farei quanto em mim couber por, uma a uma, ir montando e refugando as flores de modo que as cenas dramticas se exponham ridas, bravias como cerro de montanha por onde lavrou incndio, sem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma lgrima. A aurora a chorar!, de

que tempo isto ! Como a gente, sem querer, mostra numa ideia a sua certido de idade e uma relquia testemunhal da Idade da Pedra! Oh! os bigodes tingem-se; mas as frases -madeixas do esprito - so refractrias ao rejuvenescimento dos vernizes" (sublinhados nossos),

Isto, dito to claramente, significa que o autor reconhece que apesar das tinturas e dos polimentos no  possvel alterar fingidamente a realidade. Quanto ao seu universo romanesco, no h rejuvenescimento possvel, nem sequer retorno possvel.- a "sua"

humanidade fora crestada por um incndio que a tornou bravia como serro de montanha, etc.

Ao tentar insuflar-lhe novos alentos, resultou uma coisa hbrida que no mais se identificar com o modelo original.  fora de dvida que o autor procurou acompanhar -ao arrepio da sua conscincia e das suas mais profundas convices - a evoluo das idias modernas, particularmente na cincia.

A histria clnica da demncia de Marta  sua me endoidecera e se suicidara no rio Ave, acto desesperado que afilha intenta tambm) enquadra-se em concepes de hereditariedade. A protagonista, desta feita, no enlouquece de amor (ainda que tenha naturalmente sofrido a influncia da perda do amante): primacialmente,  uma vtima da tara hereditria.

A este propsito, escreve o autor: "De m rvore ruim fruto-era toda a sua filosofia [de Maria de Vilalva, a me de Jos Dias/ que se encontra diluda

modernamente nas exploraes fisiopsicolgicas de janet, de Mausley e no determinismo. "

O padre Osrio defende uma opinio hertica quanto  teraputica dos milagres: "A respeito das sezes e dos leicenos acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. "

Deste jogo de contradies resultam algumas incoerncias psicolgicas - inabituais em Camilo.

Basta citar o caso de Marta de Prazins, que no  uma herona do velho mundo romanesco camiliano, mas uma incauta protagonista da agonia desse universo,

Comea por nos ser apresentada, em toada algo faceta, como leviana: aos 14 anos, sendo antes, conversara " diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte"; dir depois que era "uma

rapariga muito alva, magrinha, de cabelo atado, muito limpa, [...] muito sria com propsito de mulher e ares muito sonsos - diziam as outras, que lhe chamavam a Songuinha"; e, por fim, quando j apaixonada pelo Jos Dias: "Ela tinha uma formosura meiga, delicada e suplicante. Parecia pedir que a no imolassem a uma paixo sensual", etc. No entanto, ajudar o

amante afranquear-lhe a janela do quarto nas noites luarentas.

Estranha trajectria a desta herona camiliana se no fora a

existncia de uma profunda contradio entre a concepo romanesca de Camilo -de sempre! - e a decadncia final desse universo que ele prprio foi @ara.

Onde a decadncia se evidencia com visos de crueldade  nas

fguras femininas. Se passarmos em revista as mulheres que povoam esta zona sombria do universo romanesco camliano, a decompor-se, que encontramos? Mulheres pecadoras que no se configuram de nenhum jeito com as heronas -e tantas foram! - que continuam a constituir a parte mais sensvel da humanidade criada pelo gnio do romancista.

Aprecie-se o rol, excluindo a Marta de Prazins, de quem j dissemos o suficiente.

-Joaquina de Vilalva, viva do irmo do Jos Dias, "bastante estragada no moral e ainda mais no fsico, andara de amores ilcitos com um escrivo do juiz de paz ".

- Honorata Guio, casada com o morgado de Quadros, Vasco Cerveira, "gabava-se de ter sido amada pelo conde de Vila Flor". Abandona o marido e cinco filhos para ir viver com o Dr. Adolfo da Silveira, o doutor dos Pombais. Aos 28 anos, em

1834, quando vai para o Minho, "era formosa das finas graas aristocrticas. Uma elegncia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flor branca muito picada das abelhas".

- As filhas da Honorata conseguiram casar graas aos dotes, mas antes foram amantes dos engenheiros das estradas "e andavam pelas romarias de roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapus desabados de seda preta com borlas e plumas",

-A me do falso D. Miguel, Verssimo Borges Camelo da

Mesquita, fora anavalhada mortalmente pelo marido, "achando-a em ~ante adultrio com um primo Pizarro ".

- Libnia da Cova, tecedeira e amante do Verssimo, "tinha cordes e umas moedas ganhas com o pudor diludo no suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos vinhateiros@> (sublinhado nosso).

- Genoveva. de Prazins, casada com Simedo e me de Marta, "dera desgostos ao homem, pintava a manta nas romarias, andara muito falada com um frade de Santo Tirso ".

-Brgida Galinheira, me de Genoveva e av de Marta - "j tinha dado o exemplo filha" (do mau porte, claro!).

No so de melhor casta a esposa do tabelio de Alij, nem a

governanta do Campos, capito-mor de Mura, que o aventureiro Verssimo seduzira, como que antecipando-se aos privilgios da personagem que iria encarnar dentro de pouco tempo D. Miguel.

Das outras mulheres, D. Andresa ("muito linftica e um

grande horror aos vcios da carne"); D. gueda (que "morreu

de uma indigesto de castanhas, complicada com enterite crnica e saudades da realeza "); e D. Teresa, a irm do padre Osrio, so seres assexuados, sem histria, em termos de romance.

Apesar da luta tenacssima que nesta fase mantm contra os

petroleiros da Ideia Nova (de que resultaram o Cancioneiro Alegre e os "romances facetos", geradores das polmicas j referidas), Camilo, alinhando embora na ala dos defensores da Ordem

instituda, no esquece o velho azedume contra a realeza (note-se: no j contra a nobilitao da burguesa).

"D. gueda fazia concesses  fragilidade do clero; que seu

sexto av tambm fora bispo e pai de sua quinta av, por Camelos. O parente abade de Lobrigos, em confirmao das preclaras linhagens de coitos sacrlegos, afirmava que a serenssima Casa de Bragana descendia de padres pelo pai de D. Nuno lvares Pereira, que era Prior do Crato, e pelo av, o padre Gonalo, que fora arcebispo de Braga; e que os condes de Vimioso e Atalaia, e todos os Noronhas oriundos de certo arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras famlias da corte descendiam de prelados " (sublinhados nossos).

At  nobilitao, em 1885, Camilo no olvidar o contencioso com a dinastia brigantina, ainda que no campo da guerrilha ideolgica estivesse j virtualmente a seu lado,

 verdade que ressaltam ainda em certas personagens uns pruridos de privilgios nobilitantes, como acontece com D. Teresa Osrio, "um pouco aristocrata por bastardia", em relao ao matrimnio de Marta com o brasileiro Feliciano:

"Porm, condescender com a vontade do pai, casando com o tio, pareceu-lhe um acto de condio plebeia, a natureza reles da filha do Simeo que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestaes de uma ndole artificialmente dedicada" (sublinhados nossos).

Sem dvida que se detectam n'A Brasileira de Prazins, sobretudo a nvel da linguagem, reminiscncias dos " romances facetos". Mas A Brasileira de Prazins no  um "romance jaceto", no sendo to-pouco um "romance realista". As diferenas so grandes. Um caso apenas: o "brasileiro" aparece nos "romancesfacetos"   como classe, e volta n 'A Brasileira  sua individualizao costumeira -do passado, queremos dizer-, se bem que vincando o autor com ampla informao o seu carcter de "lubardo" dos haveres fundirios e imobilirios da fidalguia arruinada, razo por que era geralmente odiado, sem falar
-das facilidades amorosas que encontravam nas searas femininas.

O prprio Camilo Castelo Branco tem plena conscincia de que A Brasileira de Prazins no corresponde aos objectivos do realismo, quando coloca na fala de presumvel leitor as seguintes questes:

"Qual  o intuito cientfico, disciplinar, moderno, deste romance? Que prova e. conclui? Que h a proveitoso como elemento que reorganize o indivduo ou a espcie?"

Por si s, estas interrogaes indiciam a ambiguidade com

que o autor encara a natureza do realismo: porque A Brasileira de Prazins no  um romance cientfico, nem moderno (no est em causa o seu valor literrio).

A resposta do escritor  ainda mais concludente: "0 meu romance no pretende reorganizar coisa nenhuma. E o autor desta obra estril assevera, em nome do patriarca Voltaire, que deixaremos este mundo tolo e mau tal qual era quando c entrmos " (sublinhado por ns apenas " obra estril").


O facto de persistir em considerar -alis como sempre o fez -o romance uma "frioleira ", sem qualquer influncia regeneradora nos indivduos nem nas sociedades, revela iniludivelmente a existncia do equvoco.

Verdade, verdade, o universo novelstico camiliano no resistiu ao sismo violentssimo que foi a edio dos dois "romances facetos " (Eusbio Macrio, de 18 79, e A Corja, de 1880).

Os dois derradeiros romances que se lhes seguiram (A Brasileira de Prazins, de 1883, e Vulces de Lama, de 1886) -e insistimos: no discutindo a qualidade esttico-literria de ambos-no so romances de "estilo velho", no so "romances facetos" e no so tambm "romances realistas". &o uma mescla de tudo isso, atestando todavia o desmoronamento do tradicional universo novelstico camiliano,  desta perspectiva que apreciamos A Brasileira de Prazins.

Mas h em Camilo, porventura, ao pressentir a agonia do seu mundo imagtico, uma saudade pungente dos anos revolutos em que com alegria fecunda edificara e ordenara, pedra a pedra, ideia a ideia, conceito a conceito, o tablado das suas efabulaes - o universo harmonioso de uma certa vida romanesca, que era a sua perspectiva da sociedade portuguesa,

Adivinha-se esse sentimento na prolixidade com que n'A Brasileira de Prazins enumera a corda de povos onde se desenrolaram as acidentadas biografias de alguns dos seus heris. Pela listagem que se segue, acudir inevitavelmente  memria do leitor ttulos e personagens da bibliografia romanesca camiliana.

N'A Brasileira de Prazins so citados: Vilalva, Caldeias, Negrelos, Prazins, Lamelas, Landim, Barrimau, Cabeceiras de Basto, Santiago de Antas, Monte Crdova, Santa Marta de Bouro, Anelhe, So Gens de Calvos, Quadros, Vermoim, Pombais, Vilavere, Carude, Amarante, Rio Caldo, Alvaes de Corgo, Lobrigos, Gouvinhas, Mura, Covas, Torro, Requido, Varatojo, Santa Mano de Abade, Ruivdes, Retorta, Penso, Rechousa, Afije, Pena; sem esquecer Lisboa, Porto, Algarve, o ultramar e, finalmente, o Brasil.

Praticamente,  o priplo imenso, ecumnico, por onde se espalharam as vivncias romanescas das suas criaes.

E, deste jeito indirecto, respondemos ao que supomos com suficiente clareza  pergunta que colocmos no comeo desta "Nota Introdutria": que razes levaram Camilo Castelo Branco a suspendera srie interminvel dos "romancesfacetos"?

A Brasileira de Prazins comeou a ser escrita em 1879 e s foi concluda em Dezembro de 1882, sendo a sua J, a edio seguramente de 1883. Na ordem cronolgica, ocupa a 53. a poSio, tinha Camilo Castelo Branco 57 anos.

Chamamos a ateno do leitor para alguns lapsos (s os mais importantes):

- Vasco Cerveira Leite, morgado de Quadros, por vezes  chamado Vasco Cerveira Lobo.

-Francisco Melro da Pena, " um taverneiro de olhos estrbicos, de alcunha o Alina Negra",  tratado de incio e uma s vez por Metro (grifado, como se fosse alcunha); trata-se presumivelmente de um erro tipogrfico que escapou  argcia do revisor: Metro por Melro.

- Patarro de Monte Crdova, "um velho celerado que se batera em Braga com a cavalaria do Casal", passa a dada altura a ser crismado por Tagarro de Monte Crdova.

-Jos Dias de Vilalva, o amante de Marta de Prazins,  denominado por Jos Alves, nas cenas finais do romance.

-Feliciano Rodrigues Prazins, o Feliciano da Retorta, tio e marido de Marta de Prazins, uma vez diz-se ter emigrado aos 17 anos e outra aos 12..

Alexandre Cabral

INTRODUO

Entre as diversas molstias significativas da minha velhice, o

amor aos livros antigos -a mais dispendiosa -- leva-me o dinheiro que me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de plulas e tisanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me ilustro com os arcasmos, arruino o estmago e enferrujo o crebro em uma caturrice acadmica.

Constou-me aqui h dias que a Sr.- Joaquina de Vilalva tinha um gigo de livros velhos entre duas pipas na adega, e que as pipas, em vez de malhais de po, assentavam sobre missais. O meu informador denomina missais todos os livros grandes; aos

pequenos chama cartilhas. Mandei perguntar  Sr.a Joaquina se

dava licena que eu visse os livros. No s mos deixou ver; mas

at mos deu todos - que escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroo de biblimano. Eles, gordurosos, hmidos, empoeirados, pareciam-me sedutores como ao leitor delicadamente sensual se lhe figura a face da mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverizada de bismuto.

Havia sermonrios latinos, um Marco Marulo, trs retricas, muitas teologias morais, um Euclides, comentrios de verses literais de Tito Lvio e Virglio. Deixei tudo na benemrita podrido, tirante uma verso castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro Entendimento Literal e Construo Portuguesa de Todas as Obras de Horcio, por Indstria de Francisco da Costa, impresso em 1639.

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Disse-me a dadivosa viva de Vilalva que os livros estavam na adega havia mais de trinta anos, desde que seu cunhado, que estudava para padre, morrera hctico; que o seu homem -Deus lhe fale na alma - mandara calear o quarto onde o

estudante acabara, e atirou para as lojas tudo que era do defunto -trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto secamente do extinto cunhado, ao mesmo tempo que roava com a mo fagueira o ventre grvido de uma gata maltesa que lhe resbunava no regao, passando-lhe pela cara a cauda em atritos duma flacidez de arminho. E eu que dedico aos bichos um afecto nostlgico, uma sensibilidade retroactiva, um atavismo que me retrocede aos meus saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me piscava um olho com uma meiguice antiga -a das meninas da minha mocidade que piscavam. Onde isto vai!

A Sr.- Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento, ofereceu-me uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se chamava Velhaca -ajuntou com a satisfao de quem completa um esclarecimento interessante. Agradeci o porvindouro filho da Velhaca, fiz uma carcia no dorso crespo da me, que ma recebeu familiarmente, e sa com os livros velhos empacotados em duas bulas de 1816 e 1817 que a Sr.- Joaquina, com um riso cptico, indisciplinado, me disse serem do tempo dos Afonsinhos. Porque o seu sogro, acrescentou, era um asno s direitas que comprava a bula para poder comer carne

em dia de jejum; e, sem que eu a provocasse a vomitar heresias, disse que os padres vendiam a bula e compravam a carne; e, ajuntando  heresia um anexim de limpeza muito duvidosa, disse o que quer que fosse a respeito dos, pecados que entram pela boca.

Depois, informaram-me que esta viva, bastante estragada no moral e ainda mais no fsico, andara de amores ilcitos com

um escrivo do juiz de paz, o Barroso, um dos sete mil e quinhentos do Mindelo, que lera o Bom Senso do cura Joo Meslier, e a saturara de m filosofia e tambm a esbulhara de parte

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dos seus bens de raiz e do melhor da sua riqueza -a f, o bordo com que as velhas e os velhos caminham, resignados e contentes, para os mistrios da eternidade.

Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as pginas dos dois livros, preparado para o dissabor de encontr~los mutilados, defeituosos, com folhas de menos, comidas pelas ratazanas colaboradoras roazes do galicismo na runa da boa linguagem quinhentista. Folheei o Entendimento Literal e Construo at pginas cento e cinquenta e aqui achei um quarto de papel almao amarelecido, com umas linhas de letra esbranquiada, mas legvel e

regularmente escrita. O contedo do papel, onde se conheciam vincos de dobras, era o seguinte:

Jos, teu irmo, quando eu hoje saa da igreja, onde fui pedir a Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu

no tardaria a pedir a Deus pela tua alma, Eu j no posso chorar mais nem rezar. Agora o que peo a Deus  que me leve tambm. Se no morrer, endoideo. Perdoa-me, Jos, e pede a

Deus que me leve depressa para ao p de ti.

Marta

No  preciso ser a gente extraordinariamente romntica para interessar-se, averiguar, querer notcias das duas pessoas que tm nestas linhas uma histria qualquer, mais ou menos

vulgar. Ocorreu-me logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flor dos anos. Alm disso, na margem superior do frontispcio do volume, est escrito o nome do possuidor - Jos Dias de Vilalva, e a carta  dirigida a um Jos. Conclui ser o cunhado da viva quem recebera a carta.

Voltei a casa da Sr.- Joaquina, muito aodado, como um antropologista que procura um dente pr-histrico, e perguntei-lhe se o seu cunhado se chamava Jos Dias; e se tinha alguma con-

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versada, quando morreu. Que sim, que o cunhado era Jos Dias e que morrera pela Maria da Fonte.

-Pois ele amou a Maria da Fonte? -perguntei com ardente curiosidade histrica, para esclarecer a minha ptria com um episdio romanesco das suas guerras civis. Ela sorriu e respondeu:

- Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por a andavam os da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papelada dos escrives, sabe vossemec? Acho que foi ento ou por perto. - E ajuntou: - Ele gostava a muito duma moa, isso  verdade. Era a Marta..

-Marta? -disse eu com a satisfao de ver confirmada a assinatura do bilhete.

- Vossemec conhece-a? -No conheo. - a brasileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem quinze quintas entre grandes e pequenas.

-Bem sei; mas nunca vi essa mulher. -No que ela nunca sai do quarto; est assim a modos de atolambada h muito tempo. Credo!, h muitos anos que a no vejo. D--lhe a gota, salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa m no interior.  uma pena. No sabe o que tem de seu. O Feliciano  o homem mais rico destes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e po de milho. Ele quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do Brasil todos os anos, vai a p, e mete ao bolso umas cdeas de boroa e quatro ma s para no ir  estalagem.

Interrompi com interesse de artista: -Disse-me que ela endoidecera. Foi logo depois da morte do seu cunhado?

-Isso j me no escordo. Quando eu vim casar para aqui j meu cunhado tinha morrido. O que me lembra  dizer-me o meu defunto que Deus tem que o rapaz ganhou doena do peito pramor dela. Esses casos h muita gente que lhos conte. H por a muito homem do seu tempo. Pergunte isso ao senhor reitor de Caldelas que andou com ele nos estudos e sabe todas essas

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trapalhadas. -- E num tom de notcia festival: - Olhe que o gatinho nasceu esta noite; l lho mando assim que estiver criado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?

- Faa-me o favor de lhe no cortar nada. Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa crtica de uma dama inglesa  nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ela, Lady Jackson, escreve que lhe fazem compaixo os pobres bichanos que, sem cauda nem orelhas, esto como que envergonhados de si mesmos. Excelente senhora!

Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldelas na feira de Santo Tirso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a

entabular-se com ele uma indagao de curiosidades sentimentais.

Fazia respeitvel a sua batina sem ndoas o padre Osrio. Parece que tambm as no tem na vida. Passa por ser um velho triste, que no teve mocidade, nem as ambies que suprem os doces afectos do corao mutilados pelo clculo ou congelados pelo temperamento. H trinta e dois anos que pastoreia uma das mais pobres freguesias do arcebispado. Pregou alguns anos com

aplauso dos entendidos e inutilidade dos pecadores. A retrica  a arte de falar bem; mas os vcios so a arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora no se diga.

Como pregava gratuitamente, o vigrio de Caldelas era chamado por todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se

esgotavam os panegricos dos santos mais ou menos hipotticos, pediam-lhe que pregasse da cura milagrosa dumas maleitas ou

dum leiceno -casos que a pobre natureza e o peridico chamado Esculpio s de per si no poderiam explicar.

O vigrio subia ao plpito e improvisava cousas de grande engenho em linguagem muito singela. Afirmava que Deus era

to bom, to previdente, que dera  condio enfermia do homem foras vitais, sobresselentes, que resistiam  destruio; e

que a natureza, grande milagre do seu Criador, s de per si era bastante para a si mesma se restaurar. Ora, um abade rico, ba-

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charel em teologia, que lhe ouvira estas ideias assaz naturalistas, perguntou-lhe,  puridade, se ele negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezes e dos leicenos acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois, acrescentou:

- Deus fez o supremo milagre da cincia para centuplicar as

foras  natureza enfraquecida.

O telogo enrugou cientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou:

- O senhor reitor foi ferido da peste do sculo. Est iscado de Voltaire e de Alexandre Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e melhor.

O reitor de Caldelas afastou-se triste, e nunca mais frequentou o plpito.

Estas informaes e o aspecto lhano, harmnico do padre, animaram-me a dizer-lhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada em um livro que pertencera ao seu condiscpulo Jos Dias de Vilalva.

- Recorda-se? - perguntei.
- Se me recordo do meu pobre Jos Dias! Pois no recordo? Parece-me que ainda sinto neste brao o peso enorme da sua

face morta, e j l vo trinta e cinco anos. E' preciso ter na alma dolorosas reminiscncias para se recordar um amigo morto j h tantssimo tempo, no lhe parece? Como sabe voc que existiu esse obscuro filho de um lavrador?

Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assinatura, gesticulou afirmativamente, e, aps uma breve pausa de recolhimento com as suas recordaes, disse:

-Fui eu que pus esta carta entre as pginas de um livro do Dias. O meu pobre condiscpulo, quando este papel lhe foi mandado  cama, j no o podia ler. Tinha cado no torpor, na indiferena que, a meu ver,  a compaixo da Providncia pelos que morrem amando e no querendo morrer. j no via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como ele nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente. Era um comento

de Horcio que eu lia nos seus intervalos de modorra, a fim de

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dar ao meu nimo uma folga que me fortalecesse para resistir ao

golpe final. j sei pois o que voc deseja. Quer saber se esta Marta est no caso de merecer a consagrao romntica que Bernardin de Saint-Pierre usurpou s dores verdadeiras, para coroar duma eterna aurola a sua fantstica Virgnia.

-No vou to longe-respondi com a modstia genial dos escritores que imortalizam. -A brasileira de Prazins no pode contar com o seu imortalizador em mim, nem me parece bastante fecundo o assunto. Sei que temos um namoro de uma menina

com um estudante, o estudante morre e a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se no h mais do que isto...

O cura interrompeu:
- Vejo que sabe quem  Marta; mas no a conhece bem. Virgnia e Francesca e Julieta no so mais dignas de piedade nem de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permite que se abram intercadncias de luz no esprito para que a

saudade rebrilhe na escurido da demncia  incomparavelmente mais funesto que o amor fulminante. O que  vulgar  morrer logo ou esquecer quinze dias depois. Quando eu tinha uma irm que lia novelas,  custa de lhas ouvir analisar com um entusiasmo digno de melhor emprego, achei-me envolvido na literatura de Sue, de Souli e de Balzac, a ponto de fazer presente do meu

Santo Afonso Maria de Ligrio e da minha teologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me profetizou que minha irm havia de morrer doida, a cismar nas patacoadas das novelas. Ela no morreu doida; mas pensava em romancear a histria de Marta, porque dizia ela que, tendo lido trezentos volumens de novelas, no encontrara caso imitante. -E, dando-me o bilhete de Marta: -Este quarto de papel  o exrdio de uma agonia original.

Como a exposio do reitor saiu muito enfeitada de jias sentimentais - detestvel espcie arqueolgica que ningum tolera - farei quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e refugando as flores de modo que as cenas dramticas se

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exponham ridas, bravias como cerro de montanha por onde lavrou incndio, sem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em

que a aurora imperle uma lgrima. A aurora a chorar!, de que tempo isto ! Como a gente, sem querer, mostra numa ideia a

sua certido de idade e uma relquia testemunhal da Idade da Pedra! Ah!, os bigodes tingem-se; mas as frases -madeixas do esprito - so refractrias ao rejuvenescimento dos vernizes.

Marta era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um irmo rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladro porque, no espao de vinte anos, lhe mandara trs moedas,

com os seguintes encargos:  me seis mil ris fortes, s almas do purgatrio, de Negrelos, trs mil ris tambm fortes, que lhos prometera quando embarcou, e o resto para ele - "cinco mil e quatrocentos ris, dizia,  o que o maroto, podre de rico, me mandou em vinte anos! "

A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte, e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento

com um pedreiro, mestre-de-obras, muito endinheirado e j maduro, apareceu o Jos Dias, filho dum lavrador rico de Vilalva, a

namorisc-la. Este rapaz estudava latim para clrigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e amarelo, o cirurgio disse ao pai que o moo no lhe fazia bem puxar pelas memrias. Os padres do Minho, naquele tempo, no puxavam quase nada pelas memrias; ordenavam-se to alheios s faculdades da alma que, sem memria nem entendimento, e s vezes sem vontade, eram sofrveis sacerdotes, davam poucas silabadas no missal e fiam os salmos do brevirio com uma grande incerteza do que queria dizer o penitente David. Pois, assim mesmo, sendo to fcil a ordenao -uma cousa que se fazia com uma perna s costas, diziam certos vigrios -, sem preciso absoluta de puxar pelas memrias, o Joaquim Dias quis tirar o filho do latim que lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Fr. Roque. Este

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padre-mestre tinha uma irm paraltica: sabia ler, e prendas de costura, marcava, fizera um pavo de missanga, no desconhecia o croch e ensinava raparigas para se distrair.

No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o Jos de Vilalva se afez a reparar na Marta de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de cabelo atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarela com dois folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito sria com propsito de mulher e ares muito sonsos -diziam as outras, que lhe chamavam a Songuinha. Os outros estudantes, rapazolas vermelha os, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de boroa nas algibeiras das vstias de saragoa de varas, e os velhos Virglios ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graolas a Marta @ chamavam-lhe boa pequena, franga e peixo. O Jos Dias, arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa, indiferente aos gracejos, olhos no cho, e um grande resguardo na barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aqueles embries de abades, como a escada de pedra era ngreme e aberta do lado do quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alunas da paraltica, pela maior parte raparigas entre doze e dezasseis anos, muito musculosas, com ps grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo exerccio dos carretos nas sfras da lavoura.

Marta ia nos catorze quando o pai a quis tirar da mestra. Chegara-lhe aos ouvidos que os estudantes, m canalha, lhe impeticavam com a filha. Queixou~se a Fr. Roque.

O egresso, resfolegando honradas cleras e pulverizaes de esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou a Marta.

-Qual foi destes tratantes o que implicou contigo, cachopa? - perguntou o padre-mestre olhando-a por cima dos culos, orbiculares, com as hastes oxidadas dum cobre antigo. E, apontando para o primeiro da fileira, que era o Jos de Vilalva: - Foi este ?

-Esse nunca me disse nada -respondeu com a voz trmula, toda vermelha, a rapariga.

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E o frade pondo o dedo no segundo: -Foi este? Marta no ergueu os olhos nem respondeu. -Ento, moa? Qual foi dos nove? Dize l. Tu que te queixaste  que algum embarrou por ti.

-Eu no me queixei... -murmurou a interrogada. Verdadeiramente ela no se queixara. Foi o Zeferino, o filho do alferes da Lamela, o mestre pedreiro, que, andando a construir um canastro na eira do padre-mestre, observara que os estudantes rentavam  cachopa, e ajeitavam-se em atitudes abrejeiradas, como de quem espreita, quando ela subia a escada.

O denunciante ao pai de Marta foi ele, o pedreiro abastado, no porque o espicaassem nessa denncia o zelo dos bons costumes, e um justo dio s concupiscentes espionagens dos rapazes, mas porque gostava deveras da moa. Ele passava j dos trinta e dois e era a primeira vez que sentia no corao as alvoradas do amor. Fr. Roque, averiguado o caso, advertiu o pedreiro que no fosse m-lngua, que no andasse a difamar os seus discpulos, que se preparavam para o sacerdcio -uma coisa sria. O episdio acabaria assim menos mal, se dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdcio, mais fortes no fueiro que nas conjugaes, desistissem de o moer a pauladas, uma

noite, num pinhal. O mestre-de-obras iniciou-se pelo martrio obscuro num amor que principiava bastante mal. Ele nunca soube ao certo quem lhe batera, e atribuiu a sova a mulos na arte, covardes e misteriosos, por causa da construo de uma igreja que ele desdenhara, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o

desastre uma tunda por motivos de arquitectura -um martrio de artista. Invejas. Por causa da arte padecera o seu colega Afonso Domingues, o arquitecto da Batalha, e Joo de Castilho, o do Convento de Tomar, e j tinha padecido seu mestre, o Manuel Chasco, a quem inimigos quebraram a cabea na feira dos vinte e um porque ele, desfazendo na obra dum colega, dissera que o bataru dum cunhal estava torto.

Passado tempo, Marta saiu pronta da mestra. Lia a cartilha

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do Salamondi e o Grito das Almas, decifrava menos mal umas sentenas velhas que havia na casa de Prazins, monumentos das runas de antigas demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por pauta foi para o tio de Pernambuco, o

tio Feliciano. Pedia-lhe a sua bno e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe ditava a carta, cheia de lstimas mendigas, mentirosas, historietas velhacas de penhoras, as

grandes dcimas, a ferrugem das oliveiras, o bicho da batata, o

gorgulho que pegara no milho, muitas alicantinas.

- Que era a ver se o ladro mandava alguma coisa - dizia ele, pondo cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.

A segunda carta que ela escreveu, j sem pauta, foi a Jos Dias, ao estudante que j no estudava por causa das memrias nocivas  sua sade fraca, um pelm.

Neste tempo j o Zeferino da Lamela se tinha declarado com o Simeo de Prazins, de um modo quase original.

-Voc quanto deve,  tio Simeo? -perguntou. -Quanto devo? Voc quer pagar-me as dvidas? -Pode ser. Voc deve  Irmandade de Nossa Senhora de Negrelos um conto e cem mil ris; voc deve de tomas a seu irmo quatrocentos. H-de andar l para um conto e quinhentos pra riba que no pra baixo.

-  isso; voc sabe a minha vida melhor que eu a sua: um conto e quinhentos e pico.

-Quanto  o pico?
- Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao mercador e um restito da vaca amarela que comprei ao Tarracha na Feira dos Treze.

-Voc quer fazer um cambalacho? -tomou o pedreiro, recuando o chapu para a nuca e pondo-lhe as mos espalmadas com fora nos ombros.

- Se pintar... j sei o que voc quer... No me serve. Voc quer comprar-me o lameiro da azenha: no vendo.

-Eu ainda lhe no disse o que queria, tio Simeo. Olhe bem para mim. Voc est a falar cum home. Pago-lhe as dvi-

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das, voc no fica a dever nada, e eu caso com a sua Marta. Pode dar os bens ao outro filho que eu no lhe quero uma de X.

-Voc fala srio, 6 sor Zeierino? -Se falo srio?! Ento voc no sabe com quem trata.
- Ora bem, entendamo-nos,  a rapariga que voc quer, a

rapariga estreme, sem dote nem escritura?

-Eu no tenho seno uma palavra. j lhe disse que sim.
- A rapariga  sua.

Negociara a filha com o Zeferino como tinha negociado com

o Tarracha a vaca amarela na Feira dos Treze. Eis um caso esquisito de aldeia que pela torpeza parece acontecido numa cidade culta. Conversou-se este dilogo debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilho de folhagem gorjeado de pssaros, com uns tons de luz esverdeada, na doce placidez crepuscular de uma tarde de Agosto, entre dois homens de tamancos, arremangados, como os peitos cabeludos a negrejar dentre os peitilhos da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na frase. Anlogas passagens, com estilo pouco melhor, tm sido dramatizadas nas salas, entre homens da melhor polpa e casca social -uns que mandaram ensinar s filhas os verbos franceses e so assinantes do Journal des Dames que marca s meninas a baliza at onde pode chegar o arrojo da lngua francesa e os seus

mais avanados destinos. Da outra parte, homens ricos, de fgado engurgitado, fatigados, sedentos de senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne constelada de diamantes.  o eplogo de vinte anos de lavra dura, o substrato da compra de negras a milhares: comprar uma branca, das que o amor pobre e o talento estril no podem negociar. O contrato feito em Prazins - eis a diferena - por parte do pedreiro era um herosmo: dava o seu dinheiro por aquela mulher; daria mais depressa o seu sangue. Era uma paixo das que no pegam com os dentes anavalhados em coraes civilizados, quase desfeitos. Ora, os pedreiros que vm de alm-mar, e se vestiram no

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Pool ou no Keil, no amam nem compram assim. Fazem o dote econmico, comezinho  esposa. Compram uma mquina de propagao, condicionalmente. Se, extinto o comprador, a mquina, no deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a

compre. O defunto prefere que a sua viva, adelgaada e espiritualizada por jejuns, lhe converse com a alma.

H

Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira via, quarenta e oito mil ris, dez moedas de ouro. Feliciano mandava doze mil ris para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmo. Dizia-lhe que estava a liquidar para vir, enfim, descansar de vez-que j tinha     para os feijes. Recomendava-lhe que fosse deitando o olho a   uma ou duas quintas que se vendessem at trinta ou quarenta    mil cruzados; que se ainda houvesse conventos  venda, os      fosse apalavrando at ele chegar.

-Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos! - exclamou o Simeo, e foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trepa de Santo Tirso e ao ex-capito-mor de Landim; e, como encontrasse na feira o dono do mosteiro dos beneditinos, o Pinto Soares, um deputado gordo -a retrica viva do silncio mais facundo que a lngua, duma grande pacificao sonolenta -, perguntou-lhe se queria vender as quintas dos frades, que tinha comprador. O Pinto Soares, como um homem que acorda com esprito e um pouco de atesmo, respondeu-lhe que no vendia para no transmitir ao comprador a excomunho que arranjara comprando bens das ordens religiosas. Mas o Simeo, em matria e raios do Vaticano, tinha na sua estupidez a inveno de Franklin. Continuava a perguntar a toda a gente se sabiam de conventos  venda, ou quintas a para quarenta mil cruzados.

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O Zeferino das Lamelas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o negcio fechado em um conto, quinhentos e pico, procurou o lavrador para se cuidar dos banhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de abstraco palerma, disse~lhe a mastigar as palavras:

-Home, o caso mudou muito de figura. Ento voc pelos modos ainda no sabe que vem a o meu irmo de Pernambuco comprar quintas e conventos?

E comeou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de couro em que tinha recibos da dcima, um aviso da junta de parquia para pagar a cngrua, uma conta de azeviche, contra maus olhados, uma orao manuscrita contra as maleitas, um ofcio antigo que o nomeava regedor, de que fora demitido pelos Cabrais, uma velha ressalva de recrutamento, uns versos que ele recitara no Natal, em um auto do nascimento do Menino, onde ele "a de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa Brbara, muito sebceo, com um lustro azulado de graxa, e a carta do Feliciano, to suja que parecia ter estado em infuso de pingue.

-Voc ainda no ouviu falar desta carta!? -perguntou com sobranceria impertinente, dando saliva aos dedos para a desdobrar.-No se fala noutra cousa. Toda a gente sabe que vem a do Brasil o meu Feliciano para comprar quintas.

- j me constou - disse o pedreiro -, mas voc ri a corda  conta disso, acho eu... - E como o lavrador hesitasse: - O negcio da rapariga est feito ou no est feito? Os homens conhecem-se pela palavra e os bois pelos cornos. Ponha pra a o

que tem no interior.

O Simeo mascava, torcia-se, metia com dois dedos a carta estafada na carteira e resmungava:

-Voc, enfim, isto  um modo de falar, como o outro que diz; voc bem entende que... sim...

-0 que eu entendo fisicamente falando  que voc no me d a rapariga.

- Deixe ver, deixe ver o que diz o meu irmo - tartamudeava.

-Sabe voc que mais?-volveu iracundo o arquitecto

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dando com o olho do machado num canhoto. -Voc  de m casta. No tem palavra nem vergonha nessa cara estanhada. Voc  da gerao dos Travessas da Serra Negra, e basta... No lhe digo mais nada... -Aluso pungente a um tio do Simeo, o Barnab, capito das maltas de salteadores que infestaram em
1835 aquela serra.

-Veja l como fala... -interrompeu o lavrador ferido na sua linhagem. -Voc no me deite a perder...

E o outro, num mpeto de conscincia robusta: -Voc  um safado.  o que lheu digo. No guarda palavra em contrato que faa. Eu j devia conhec-lo. Faz para as matanas seis anos que voc justou comigo uma porca por quatro moedas e foi depois vend-la ao Antnio do Eido por mais um

quartinho. Lembra-se, seu alma de cntaro? -E numa irritao crescente: - Se voc no fosse um velho, dava-lhe com este machado na caveira. -E muito esbandalhado nos gestos, com sarcasmo: - Guarde a filha que eu hei-de achar mulher muito melhor que ela pelo preo, ouviu voc? Que leve o diabo a burra e mais quem a tange, como o outro que diz. Livrei-me de boa espiga. De voc no pode sair cousa boa; e mais da me que ela teve, que j l est a dar contas...

E o lavrador com extremada prudncia e na pacatez de um grande esprito de ordem e paz:

-Voc no tem que desfazer na minha filha, ouviu? -Ouvi que no sou mouco. Ainda ontem a topei na boua do Reguengo de palestra com o estudante de Vilalva. Espere-lhe a volta. A songuinha que no olha direita pra um home, que anda ali esmadrigada de cabea ao lado, l estava de mo na ilharga a dar trela ao estudante, aquele pau de encher tripas, que h-de ser mesmo um padre daquela casta! Olhe se ele lha quer para casar... Pois no quiseste?-e arregaava a plpebra do olho esquerdo mostrando o interior inflamado com uns pontos amarelos, purulentos, indicativos de insuficiente lavagem, um trejeito de garotice. E continuava: -Quem lhe dera dois pontaps, nele a mais nela! -e muito rubro de clera dava pancadaria nas pedras, nas razes nodosas dos castanheiros, e

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metia grande terror no nimo do Simeo quando faiscava lume nos calhaus com a percusso do machado.

Esta situao prometia acabar pela fuga prudente do pai de Marta, se o estudante de Vilalva no assomasse ao fundo do castanhal com uma matilha de coelheiras que ladravam a um porco muito irriado que as esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caador chamava os ces, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a Marta o ouvisse.

Ele no tinha visto o pedreiro; os ces  que o viram e deixaram o porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe tinham. O Zeferino, noutra ocasio, segundo o seu

costume, desprezaria a arremetida da matilha; mas, naquela conjuntura de dio ao caador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo com as mos cabeludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanos provocadores. Jos Dias chamava os ces obedientes; mas o Zeferino, muito azedo, engelhando

na cara uns trejeitos de bazfia, dizia sarcstico:

- Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chega fao-lhe saltar os miolos  cara de voc.

Que se acomodasse, conciliava pacificamente o estudante, que os ces no tinham outra fala. E o pedreiro insistente, muito arrogante:

- Que venham para c, e mais o dono, o caador de borra! -e dizia palavradas canalhas, muito danado porque vira aparecer a Marta na varanda, a fazer meia com a cesta do novelo no brao.

-  senhor Zeferino, fale bem, ponha cobro na lngua -advertiu o Jos Dias com uma serenidade de mau agouro.   Quando eu lhe ladrar ento se far com o machado para mim. Os ces ladraram-lhe, eu chamei-os, que mais quer voc, homem? Siga o seu caminho.

-0 meu caminho? O meu caminho  este -disse batendo com o machado na terra. -Quer voc mandar-me embora daqui? Ora no seja tolo.

A presena da moa enfurecia-o; contra o seu costume, sen-

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tia-se valente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina dos bbedos, e berrava:

-Se  homem, venha para c! Voc manda-me sair daqui, seu pedao de asno?

E o estudante, j amarelo: -Eu no o mando sair da, nem lhe consinto que me chame asno. Olhe que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe com ele.

-  alma do diabo! -exclamou o pedreiro crescendo para o caador.

Nisto, um dos ces atravessado de co de gado e cadela coelheira, que aprendera a morder nas ocasies razoveis, atirou-se-lhe ao assento das calas de estopa e puxou at lhe descobrir a epiderme da ndega esquerda.

O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o

ar, e nem de leve apanhavam o co, que dava pulos de esconso, atacando-o pela ndega direita. A restante matilha fraternizara com o outro, e juntavam os focinhos num complexo de dentuas minacssimas, com os olhos sanguneos cravados nos movimentos do machado. Jos Dias, no entanto, espancava a cainada, e Marta no sabia se havia de descer para ajudar o pai a

acomodar a bulha, ou se havia de cair na varanda a rir-se. Ela sentia-se envergonhada do espectculo que exibia a cala esfarrapada; mas no havia pudor que resistisse quilo. O pedreiro sabia que o co lhe chegara um pouco  cala; mas, no calor da luta, no sentira esfriar-se-lhe a pele descoberta, nem se lembrou que andava sem ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordinria na ctis, exposta ao contacto da atmosfera, levou a mo conscienciosamente ao stio, e achou em si aquele especimen obsoleto do Ado primitivamente inocente. No entanto, Marta, no podendo j consigo, entalada de riso, fugira da varanda e atirara-se de bruos sobre a cama, a rebolar-se, a espernear como se tivesse uma clica. O estudante retirou-se assobiando  matilha ainda refilada s ndegas do homem. O Simeo coava-se com as dez unhas e dizia velhacamente comovido:

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-Meta-se a na corte da gua que eu vou-lhe buscar umas calas, seu Zeferino, ou d-se-lhe a quatro pontos pra remediar. D c as calas, e no se aflija...

O pedreiro respondeu-lhe porcamente, e de modo to trivial, que o outro lhe replicou:

-V voc! E meteu-se em casa como quem receava contra-rplica menos suja e mais dura.



O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimau, um major de cavalaria, convencionado em vora Monte, miguelista intransigente, mas cordato. Vivia no seu escalavrado solar com um irmo egresso beneditino. Fr. Gervsio, muito cevado e

inerte, continuava em casa a sua misso monstica. Era um contemplativo. No fia seno no livro da natureza. Se no dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de toucinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastigao, porque dispunha de dentadura insuficiente. Tinha outro sinal ruidoso de vida -era um pigarro de catarral crnica, arrancado dos gorgomilos com tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de um estrangulado, no quinto acto de um drama de costumes. A velha criada da cozinha, muito flatulenta, nunca pudera afazer-se s exploses daquela garganta escabrosa de mucos

empedrados. Quando o grasnido asprrimo de pavo lhe feria os

ouvidos, reboando nos cncavos tectos dos sales, a mulher estremecia e raras vezes deixava de resmungar: "Que medo!, credo!, diabos leve a esgana do home, Deus me perdoe! "

De dois em dois meses apareciam em Barrimau dois egressos de Cabeceiras de Basto, companheiros de noviciado de Fr. Gervsio. juntavam-se os trs amigos em uma intimidade de palestras saudosas. Com intercadncias mudas de potica tristeza, comemoravam os seus conventuais falecidos, rezavam juntos pelos seus brevirios beneditinos; depois, a passo cadencioso, claustral, iam para a mesa com o recolhimento prescrito pela

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Regra do patriarca. A pegava de puxar por eles a natureza objectiva, e dava-lhes horas de salutar esquecimento do passado irreparvel. Gorgolejavam copiosamente os vinhos engarrafados, traioeiros, da Companhia, em que Fr. Gervsio derretia a prestao; porque, de resto, a mesa do mano morgado era

farta e a sua bolsa generosa para as moderadas necessidades de egresso.

O major Zeferino Bezerra de Castro no tinha grande casa; mas, como era solteiro e quinquagenrio, fazia de conta que os

bens lhe haviam de sobejar  vida, vendendo os alodiais e empenhando, se necessrio fosse, o morgadio, que era insignificante. Concorria com vinte moedas para as miserveis mil libras que o

Sr. D. Miguel recebia anualmente de donativos de monarcas e

dos seus partidrios portugueses'. Festejava dispendiosamente os natalcios do rei, convidando a jantar os realistas notveis da comarca; e, contando os anos da proscrio, ia calculando a patente que lhe competia quando o soberano legtimo se restaurasse. Correspondia-se com alguns camaradas, esquecidos e atrofiados nas aldeias, o general Pvoas, o Bernardino, o Magessi, o Montalegre, o Jos Marcelino. Mas as cartas quem lhas redigia era o mano frade, recheando-as de trechos de poltica de plpito

1 Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855 recebia setenta contos anuais de donativos. Provavelmente deu causa a esta liberalidade de cifras um lapso do Sr. Joaquim Martins de Carvalho, que a pginas 254-255 dos seus Apontamentos para a Histria Contempornea, transcreveu de uma carta

de Loureno Viegas o seguinte perodo: "Os rendimentos de el-rei compem-se das seiscentas libras que vm de Lisboa da comisso alimentcia, mil francos mensais que com toda a exactido lhe manda o conde de Chambord, cinco mil francos que anualmente lhe manda o duque de Modena e seis mil francos do imperador Fernando de ustria, tambm anuais, mas sem poca fixa, junto a alguns extraordinrios da provncia do Minho, fazem subir a renda anual a quatrocentos mil francos, e esta chega apenas para a despesa e economia domstica. " Chegando apenas para a despesa domstica de D. Miguel setenta e

dois contos de ris, quanto lhe seria necessrio para as despesas de fora? Um dos zeros do Sr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do quatro e reduzir a anuidade do prncipe a sete contos e duzentos mil ris ou quarenta mil francos.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       47

-resultado das suas digestes morosas, contemplativas- que serviram de ornamento nas colunas do Portugal Velho, peridico miguelista da poca.

Naquele ano, por meado de 1845, espalhara-se no ambiente dos realistas, como um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o Sr. D. Miguel. O seu enorme partido sentia-se palpitar no anseio daqueles vagos anelos que estremeciam as naes pags ao vizinhar-se o profetizado aparecimento do Messias. Afirmam-no os Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam o

mesmo a respeito do prncipe proscrito. Fr. Gervsio recebia do alto da provncia cartas misteriosas duns padres que paroquiavam na Pvoa de Lanhosos e Vieira. Era ali o foco latente do apostolado. Naqueles estbulos de ignorncia supersticiosa  que devia aparecer, pelos modos, o prespio do novo redentor. Citavam-se profecias apocalpticas de frades que estavam inteiros sob as lajes das claustras. Convergiam quele ponto missionrios de aspectos serficos, olhando para as estrelas como os magos e os

pastores da Palestina. O frade mostrava as cartas ao irmo e dizia-lhe:

-Ele h cousa... -Mas muito grande! -corroborava o major com cabeadas afirmativas muito exageradas.

-A Rssia move-se,  o que  -afirmou Fr. Gervsio, correlacionando a iniciativa de Lanhoso com a propaganda autocrtica da Rssia.

Em um destes dilogos, em que havia desabafos, exuberncias de jbilo, interveio o Zeferino das Lamelas, o pedreiro afilhado do major. Vinha contar o caso do Simeo de Prazins e a pega que teve com os ces do Dias de Vilalva. Mostrava a cala remendada-que por pouco lhe no entravam no coiro os ces, dizia - e protestava vingar-se. O egresso pacificava-o; que deixasse l a rapariga e mais o estudante; que se fosse preparando para desembainhar a espada de seu pai em defesa do trono e do altar. E o major:

- Estamos chegados a elas, Zeferino.

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E o pedreiro esfregando as mos coriceas, que rangiam como duas lixas friccionadas:

-A eles, senhor padrinho! A espada vai-se amolar... Vou pedi-Ia ao velho!

O pai de Zefirino, o Gaspar das Lamelas, tinha sido alferes do Dezassete de linha; e, em 1834, como o perseguissem os liberais do concelho por pancadaria e testemunhos "os nas devassas de 28, andou foragido alguns meses. Sequestraram-lhe os bens; e o filho, que j era muito barbado e no tinha modo de vida, fez-se pedreiro. Depois, aplacadas as frias dos vencedores e restabelecida a justia, restituram ao Zeferino as terras devastadas. O ex-alferes saiu do seu esconderijo, e recolheu-se a casa

com a espada muito cheia de verdete, dizendo que havia de crav-la no sangue dos malhados. Em 1838, Dia de Natal, embebedou-se despropositadamente e saiu para a rua a dar "vivas" ao Sr. D. Miguel. Outros piteireiros, do mesmo credo, e afectos s velhas instituies, responderam aos "vivas" com um entusiasmo homicida. O Gaspar foi buscar a espada, cingiu a banda sobre a nisa de saragoa, ps a barretina com os amarelos muito oxidados, e,  frente dum grupo de jornaleiros e garotos, caminhou para a cabea do concelho a fim de oferecer batalha campal s autoridades. Alm da espada do caudilho, havia trs espingardas reiunas; o restante eram foices de gancho encavadas em grossas varas. Um porqueiro colossal floreava uma lmina brunida da faca de matar os cevados. A guerrilha, j engrossada por outros bbedos encontrados nas tavernas do trnsito, chegou  porta do morgado de Barrimau, e a clamorosos brados elegeram-no general. j se ouvia tocar a rebate em diversas torres,  discrio dos garotos destacados. O morgado mandou-lhes dar vinho, e que debandassem, que recolhessem a suas casas, porque iam levar grande tareia inutilmente. O egresso veio a uma

janela que abria sobre o trio, e tentou dissuadi-los do desvario que mais parecia um excesso de vinho que de patriotismo -dizia. No fez nada. Cada vez mais picado, o alferes, faminto de vingana, bradava que estivera quinze meses escondido, que lhe tinham estragado a sua casa, e que ia pedir contas

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aos Trepas e aos Andrades de Santo Tirso, uns malhados, cujas cabeas havia de deixar espetadas em pinheiros.

Na vila ouvia-se o toque a rebate. Dizia-se que era incndio. Alguns vadios atravessaram a ponte muito aodados em direco s freguesias donde soavam as primeiras badaladas. O regedor de Vilalva, o pai do Jos Dias, descia esbaforido do monte do Barreiro a dar parte  autoridade. Assim que se espalhou a nova

em Santo Tirso, j se ouvia alarido de vozes. A garotagem dava "vivas", e guinchava uns apupos prolongados que punham ecos

nas margens tortuosas do rio Ave. Os liberais de Santo Tirso rodearam o administrador, armados, com os seus criados. Os negociantes, com medo de saque, tambm saram de clavinas. As famlias nas janelas faziam clamores, numa grande desolao. Naquela vila lembrava ainda a mortandade do tempo do cerco

do Porto, e havia velhos que presenciaram outra semelhante no

tempo dos franceses. O regedor de Vilalva dissera que o comandante da guerrilha era o morgado de Barrimau. Esta notcia fez aumentar o pavor, porque, se o morgado, srio, prudente e bravo, aceitara o comando dos populares  porque a cousa era sria. Os homens de negcio depuseram as armas, enfardelaram os valores e fugiram, caminho do Porto. Os proprietrios, os empregados pblicos, os oficiais de justia, alguns que haviam militado e emigrado, desceram  ponte armados em nmero de oitenta. Outros seguiram vereda diferente para passar o rio. A guerrilha, cuja vozeada se aproximava, no trajecto de uma lgua, pegou a

sua febre a mais de trezentos homens. Era um domingo de festa solene, consagrado  descida do Filho de Deus para aplacar os

brbaros dios do gnero humano: uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho no preparasse as almas a compreend-la e senti-Ia. Depois, muito comunicativa, como se v. Gaspar das Lamelas emborracha-se ao jantar e faz brindes ao Menino Jesus e ao Sr. D. Miguel 1. Pica-lhe na caneca, pungem-no saudades do rei, e sai para o terreiro a dar-lhe "vivas". Outros vinhos em ebulio respondem-lhe num grito de sinceridade compacta. Trava da espada, que se tingira no sangue de

50                CAMILO CASTELO BRANCO

trs batalhas  volta do Porto; entra com ele a convico em delrio acrisolada pela alucinao da embriaguez. E o arrojo temerrio dos grandes guerreiros o que  seno uma embriaguez de glria, quando no  uma embriaguez de genebra? Nas guerras civis portuguesas houve a um bravo soldado de fortuna que, no

vigor dos anos, ganhara as charlateiras de general e uma coroa

de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por causa da abstinncia, diziam que ele nunca sara vitorioso de campanha onde no entrasse bbedo. Este general, ao declinar da vida, casado e abstmio, no deu uma pgina gloriosa  sua

histria, presidiu sem iniciativa militar nem poltica  Junta Suprema do Porto, e fechou o ciclo das suas faanhas a parlamentar em Vieira com o padre Casimiro, o General Defensor das Cinco Chagas.

Tambm no crebro vinolento do alferes das Lamelas rutilavam os relmpagos da glria quando, a brandir o gldio ferruginoso, descia, na vanguarda da guerrilha, o outeiro sobrejacente  ponte de Santo Tirso.  entrada da ponte de pau havia taverna, com as prateleiras alinhadas de garrafas da Companhia, com rtulos.

A multido parou, avistando gente armada que descia a calada de alm, ao nvel da quinta do Mosteiro de S. Bento. O taverneiro, muito caloteado dessa vez, disse ao comandante, ao

Gaspar, que no casse em se meter  ponte.

- Vocs vo cair a nessa ponte como tordos, e os que no carem tem de largar os socos a fugir - avisava, porque sabia que os de l eram tesos, e vinham todos armados.

O cabecilha tinha o seu vinho quase digerido; a bravura comeava a ceder s reflexes sensatas do taverneiro; mas o seu estado-maior, uns facnoras da quadrilha que trs anos antes infestara as encruzilhadas da Terra Negra e Travagem, no transigiam, e foravam-no a beber copos de aguardente. Que o

primeiro que mostrasse os calcanhares ia malhar da ponte a baixo!, protestavam os velhos salteadores do Minho, batendo com

as coronhas no balco.

Entretanto, o administrador do concelho com dois emprega-

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dos inermes atravessava a ponte. A guerrilha estupefacta da audcia, esperava-o numa atitude pacfica, estpida, um retraimento de covardia, olhando-se uns para os outros e todos para o alferes. Ele, empurrado pelos valentes, colocou-se  frente, na boca da ponte, com a espada nua. O administrador chegou muito de passo e perguntou se estava ali o senhor morgado de Barrimau, que desejava alar-lhe.

- No est; eu sou o chefe - disse o Gaspar. -Logo me pareceu que um homem srio, como o morgado, no estaria  frente deste bom povo enganado -ponderou a autoridade. -E vossemec quem ? -perguntou ao chefe.

Que era o alferes das Lamelas, bem conhecido em toda a parte; que perguntasse aos malhados de Santo Tirso, a esses ladres que o perseguiram e lhe roubaram os seus bens.

O administrador, um bacharel, de cabeleira  Saint-Simon, era discursivo e no perdia lano de eloquncia em casos dum romanesco medonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo tringulo dos peges. Uma rica e fnebre paisagem, cortada de um lado pelos cata-ventos que rangiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela mata verde-negra, erriada de pinheiros gementes. Um pitoresco cheio de sugestes, duma palpitao ciclpica. Depois o enorme auditrio, trezentas cabeas, flutuando com as bocas muito escancaradas numa bestialidade feramente espasmdica de lobos espantados por um archote aceso. O meio era demostnico, inspirativo. Borbotou-lhe a golfos um palavreado discreto, aconselhando a turba a retirar-se "aos seus apriscos",  honrada labutao "dos seus mesteres", e a no perturbarem com "demagogias a pacificao dos nimos e a sacratssima inviolabilidade das instituies". Quando o funcionrio fechou a parlenda, um dos mais bbedos, quer por chalaa, quer por insuficiente compreenso dos princpios polticos da autoridade, atirou o chapu ao ar e exclamou: "Viva o senhor Dom Miguel, rei de Portugal! "

A autoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Ele voltou as costas  canalha, e foi-se com bons exemplos de oradores anti~

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gos. Os liberais, logo que o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com um sonoro estrondo de marcha cadenciada.

Capitaneava-os um escrivo de direito, dos sete mil e quinhentos cavaleiro da Torre e Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha.

Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos, tinha pedido vinte homens, e atravessara com eles o Ave, na revolta do rio, sem ser visto, na bateira do Jos Pinto Soares. Ele no podia levar a bem que aqueles pategos se retirassem sem uma sova pela retaguarda e outra pela frente. Contava com a debandada pela ladeira das matas, e prometia, l do alto, escorra-los de modo que eles se espetassem entre dois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com baixa, guardas do tabaco, e scios aposentados das quadrilhas de 1834 -um misto de polticos, de ladres e mrtires das enxovias.

Os quatro facnoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme e solene dos de Santo Tirso: " agora, rapazes! ", exclamaram, desfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as suas, e avanaram, ponte dentro, numa

arremetida impetuosamente esbandalhada, de rodilho. Uma das balas prostrara um arrieiro da primeira fila dos liberais; havia mais alguns feridos, que se amparavam gementes s guardas da ponte. O bravo do Mindelo viu cair morto o seu homem, e, contendo a fria das fileiras numa disciplina rigorosa, deu a voz

da descarga  primeira, e mandou abrir passagem  imediata, que sustentava o fogo enquanto a outra carregava as armas.

Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaa. Viam-se homens que fugiam a coxearem, atiravam-se s ribanceiras, escabujando em arrancos de morte. Os que no tinham espingardas e ainda os que as tinham sem cartuxame, pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refgio dos pinhais e carvalheiras.

O alferes sentiu um choque duro de cousa que lhe contundia as costas e lhe apertava o pescoo. Era o Retrinca de Santiago de Antas, o mais feroz da sua malta, que se amparava nele quando caa varado por um pelouro. Este espectculo trivial no ater-

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rava o soldado de Ponte Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas que o serviram nessas gloriosas batalhas. Tinha cinquenta anos, e fugia ganhando a dianteira aos garotos do seu bando destroado. Porm, quando ele escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sop do monte, desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus homens, num turbilho, acossados pelo tiroteio da companhia do ex-sargento Lopes - uns barbaudos que pareciam gigantes no topo da colina, e davam uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O dia de juzo!

O Gaspar arrepiou carreira e desfilou por uma vrzea alagada que ia esbeiar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e a espada a prumo no punho lhe dava uma caracterizao jeitosa e provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por perto, chofrando nos pntanos. Alguns homens perseguiam-no chapinando no lameiral, porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes:

- rapazes, vede se mataides aquele diabo, que  o cabecilha!

Os mais veleiros levavam-no esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram desaparecer de sbito entre uma espessa moita de pltanos. Da a instantes, abeirando-se  ourela do rio, viram a barretina e a nisa de saragoa sobre uns cmoros, hervecidos; e, a distncia de dez varas, aquele bbedo imortal atravessava o rio a nado, numa tarde de Dezembro, com a espada nos dentes, e a banda a tiracolo.

-  alma do diabo! -dizia o Patarro de Monte Crdova, cevando a arma com zagalotes para lhe atirar. -Vou matar aquele pato bravo!

E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai: -No lhe atire,  tio Patarro!  um velho, coitado! No lhe v os cabelos brancos? Aquele homem no se deve matar. Ele vai morrer afogado antes de chegar  outra banda. Ver. Que raio de amizade ele tem  espada! Aquilo  que !

A meio do rio, onde a veia de gua resvalava mais impetuosa, deixou-se derivar sem esforo de natao. Mal bracejava.

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Depois, o Ave espraiava-se em murmrios de lago dormente, muito barrento, e deixava-se apegar. O alferes com gua pela cinta, desatascou-se dos lamaais de alm; e, horas depois, repassado o Ave na Ponte da Lagoncinha e vencidas duas lguas de chafurdeiros e barrocas, entrava na sua casa das Lamelas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando a espada, bradava: "Viva o senhor Dom Miguel! "

Depois, sobreveio-lhe um reumatismo articular, e ficou tolhido.

Sete anos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D. Miguel, ele ainda vivia, mas entrevado num carrinho, e chorava, em impotentes arquejos do corpo paraltico, porque no podia amolar a lmina da espada nos ossos dos malhados.

Tinha-a diante dos olhos pendurada numa escpula com o boldri e a banda. s vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ela com os olhos envidraados de lgrimas, e pedia que a metessem na sua sepultura, que o enterrassem com ela. E enterraram. Espera-se que o esqueleto deste legitimista, com as

falanges esburgadas e recurvas no punho azevrado da espada, ressuscite, ao ulular da trombeta, na ressurreio geral das legitimidades . Ponto  que a Rssia se mova -como dizia o frade de Barrimau.

IV

Do Alto Minho continuavam as notcias alegremente agitadoras. O Cristvo Bezerra, ex-capito-mor de Santa Marta de Bouro, escreveu ao seu parente de Barrimau. Dizia-lhe que constava que o Sr. D. Miguel estava no seu reino, e -o que mais era- muito perto dali. Que no se podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo entendia a cifra de comunicao entre os membros da Ordem de S. Miguel da Ala, instituda pelo Sr. D. Afonso Henriques e renovada ultimamente pelo monarca legtimo -explicava. O major Bezerra era comendador da Ordem e conhecia a cifra: que escrevesse francamente. E, desconfiando do correio, mandou a Santa Marta de Bouro o afilhado, o filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O pedreiro, a mpar de soberba por tal mensagem, posto que no participasse do segredo do padrinho, que era discreto, disse ao pai:

-Ou eu me engano, ou o senhor Dom Miguel est por a no tarda...

O alferes sentiu uma descarga elctrica na coluna vertebral e convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar fenmenos que se contam de movimento galvnico nos paralticos, colhidos de improviso pelo terror ou pela exultao; mas o Gaspar, como

s tinha o esfago desimpedido, bebeu, com a escorrncia absorvente dum olho-marinho, muita aguardente, e desatou a berrar o Rei Chegou.

O filho, com a discrio prpria dum agente secreto da res-

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taurao realista, zangou-se com o berreiro cvico do pai e perguntou-lhe se estava bbedo. O velho entusiasta, ferido no seu

corao de vassalo e de progenitor, teve um honrado intervalo lcido, quando lhe replicou:

-Se eu no estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro! Deitou o albardo  gua e partiu para Terras de Bouro o

Zeferino. Quando passava defronte da casa do Simeo, em Prazins, olhou de esguelha, por debaixo da aba do chapu, para o

lavrador que estava apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas entarroadas; e, dando de espora  andadeira, deixou cair o pau ferrado ao longo da perna. "Qualquer dia, estou-te em cima! ", dizia de si consigo, ladeando a besta em corcovos chibantes. O Simeo, quando o perdeu de vista, murmurou:

- Valha-te o diabo, banabia!
O ex-capito-mor de Santa Marta respondeu s perguntas do primo de Barrimau; e, como o portador se recomendou na qualidade de afilhado do fidalgo e filho dum alferes que comandara o

ataque de 1838 sobre Santo Tirso, o Cristvo Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe notcias desse ataque a Santo Tirso que ele no conhecia. O pedreiro contou a faanha do pai, a nadar,

com a espada nos dentes; e o fidalgo, quando soube que ele estava entrevado, disse pungidamente: "Mal empregado! ", que um general romano fizera o mesmo e que o levasse s caldas de Vizela  bomba quente.

Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe confidncias: que D. Miguel estava perto dali; mas no recebia ningum porque os malhados j o espreitavam em Portugal. Que a aclamao havia de comear em Terras de Bouro, e estender-se at Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso

senhor lhe daria a patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as mos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da algibeira da vstia uma saquita de missanga, onde tinha trs peas e sete pintos. Ps o dinheiro com estrondo diante do Bezerra-que o mandasse a el-rei para

as suas despesas:

A BRASILEIRA DE PRAZINS                          57

- Que eu - acrescentou - h quatro anos que lhe dou uma

moeda de ouro por ano; ele h-de saber pelo rol quem  o Zeferino das Lamelas, porque o padre Lus de Sousa Couto, do Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam dinheiro.

O fidalgo recusou: que no estava autorizado a receber donativos, nem os julgava por enquanto necessrios, porque em poder do Dr. Cndido, de Anelhe, estavam cinquenta contos, dados pela senhora infanta D. Isabel Maria, para pr a procisso na rua.

A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explcita. Contava que D. Miguel estava escondido na residncia do abade de S. Gens de Calvos, no concelho da Pvoa de Lanhoso, o reverendo Marcos Antnio de Faria Rebelo'. Que pouqussi1 Como seria de mau gosto inventar este episdio, imponho-me o dever de afirmar que estas notcias me foram transmitidas por um ilustrado cavalheiro da Pvoa de Lanhoso, o Sr. Jos Joaquim Ferreira de Meio e Andrade, da casa nobilssima das Argas, falecido, com mais de oitenta anos de idade, em 1881. Conquanto a imprensa contempornea, que eu saiba, no falasse no pseudo D. Miguel, as revelaes do ancio de Lanhoso merecem-me e so dignas de toda a confiana.

Alm disso, consultei o reverendo Casimiro Jos Vieira, to celebrado quando dirigia com mo armada a revoluo do Minho, que se chamou Maria da Fonte. Hoje, com sessenta e seis anos de idade, vive na sua Casa da Alegria, no concelho de Felgueiras, ao sop do monte de Santa Quitria, preparando as

suas memrias, que devem esclarecer as obscuridades originais da insurreio de duas provncias. Este padre que, aos trinta anos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a face com o conde das Amas, respondeu assim  minha consulta:

Eu apenas posso dizer a voc que foi verdade ter estado o tal impostor oculto em casa do abade, porque ele mesmo mo disse; mas nada lhe perguntei a tal respeito, por me lembrar que ele teria vergonha de se deixar enganar, depois de lhe ter beijado a mo muitas vezes, no tempo de estudante e seminarista, quando o Sr. D. Miguel esteve em Braga, a ponto de se ter tornado saliente para o

mesmo Sr. D. Miguel, como o mesmo abade me contou tambm, mas por isso mesmo nada mais posso acrescentar... *

* Carta de 11 de Novembro de 1882.

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mas pessoas o tinham visto, porque Sua Majestade s se mostraria aos seus amigos fiis quando entrassem pela Galiza os generais estrangeiros que se esperavam, uns do antigo exrcito carlista, outros de Inglaterra.

Esta notcia dos generais estranhos beliscou a vaidade nacional do major Zeferino Bezerra. Parecia-lhe impossvel que o

prncipe proscrito no confiasse na percia e lealdade do Santa Marta, do Vitorino, do Pvoas e Bernardino. Era uma ingratido, dizia ele ao mano frade, que acrescentou: e uma bestialidade. EI-rei deve saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o Mac Donnefl, no fim da campanha.

- Sabes tu? - rematou o morgado -, aqui anda marosca. O que tratam  de se abotoarem com os cinquenta contos da infanta Dona Isabel Maria, e o primo Cristvo  um asno chapado.

- Escreve-se ao Pvoas e ao Bernardino - aconselhou o egresso -, que digam alguma cousa.

Os militares realistas responderam que sem dvida estava a levedar alguma tentativa de restaurao; que o Ribeiro Saraiva trabalhava deveras; que o Sr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que no estava no reino, nem c viria seno para se

assentar de vez no seu trono usurpado.

- Deixa-te de asneiras, Zeferino -dizia o fidalgo ao afilhado

com as cartas na mo. - EI-rei h-de vir; mas no veio. Meu primo foi codilhado pelo abade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que no seja palerma, nem caia com uma de X para o alevantamento que  uma comedela.

O pedreiro, no obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de troquilha de burros em feira:

-Aposto! Aqui est dinheiro! O fidalgo de Quadros, o senhor tenente-coronel Cerveira Lobo, tambm diz que el-rei j por c anda.

- O Cerveira Lobo! Olha que borracho! - disse o frade. -Quem c est  o rei dos bbedos no corpo dele acrescentou o morgado.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        59

- Mas diz que o senhor Dom Miguel gostava muito dele - objectou o carpinteiro. - Ouvi-lho eu.

-No duvido... - explicou o frade-, que o senhor Dom Miguel gostava de grandes patifes...

O primo Cristvo redarguiu, magoado na sua esperteza, que era to certo estar el-rei em Calvos como era certo ter-lhe beijado a rgia mo em casa do abade, na noite sempre memorvel de 16 de Abril de 1845. Que s o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecera pelo retrato; que at manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois que sua majestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abade de Calvos seu capelo-mor, que dera a mitra de Coimbra ao abade de Priscos, e fizera chantre o padre Manuel das Agras, e a ele lhe fizera a merc de duas comendas e o ttulo de baro de Bouro, afora outras graas a diversos clrigos e leigos.

-Que te parece isto? -perguntou o morgado ao frade. -Parece-me a notria estupidez do primo Bezerra e mais dos padres; mas, se o homem que l est  o Dom Miguel, ento o estpido  ele, e que me perdoe Sua Majestade Fidelssima...

Escreveu-se novamente ao Pvoas, ao Tavares de Fagilde e

ao Pontes, um colaborador de A Nao. Responderam-lhe que no havia tal D. Miguel em Calvos; mas que deixasse correr o

marfim, porque era necessrio uma agitao preparatria, um

simulacro, uma apalpadela...

- Quer dizer - reflexionou o frade - que o tal impostor  um Baptista, o precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos

correr o marfim, e mais o simulacro... que palpem.

E, pondo as duas mos engalfinhadas sobre o umbigo proeminente, fazia girar um dedo polegar  volta do outro. Que o

que fosse soaria, e no casse o mano Zeferino na estultcia de se

comprometer sem que os generais portugueses sassem  rua.

Na correnteza destas coisas, o Zeferino das Lamelas no trabalhava de pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos oficiais, e andava numa dobadoira de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o Vasco Cerveira. Lobo, morgado de Quadros, um homem nascido ilustremente, que, desde vora

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Monte, no cortara as barbas nem sara das runas da casa-solar em Vermoim.

Como a sua paixo era inconsolvel com o destino, deu-se  distraco do lcool; e, porque tinha a conscincia da sua misria de bbedo, fechava~se no seu quarto, onde s vezes caa amodorrado sobre o vmito. Imbecilitara-se. Cerveira tinha sofrido um ataque cerebral quando o brigadeiro Jos Urbano de Carvalho infamemente se passara com alguns esquadres de cavalaria para o centro da diviso do duque da Terceira, na Chamusca. Ele vira o seu coronel Antnio Cardoso de Albuquerque dar vivas  Carta Constitucional e a D. Maria li. Achou-se arrastado, ilaqueado e prisioneiro, quando procurava abrir com a espada uma sepultura honrosa. Ali se extinguira coberto de oprbrio, naquela hora, o bravo e leal regimento de Chaves que nunca dera um desertor para as fileiras do inimigo. O tenente-coronel, desde esse dia, foi um desgraado incompreendido que se embriagava para esquecer o reviramento sbito da sua carreira. Depois, a corrente travada das misrias. Tinha filhos que se emborrachavam com ele, e filhas que se namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias de roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapus desabados de seda preta com borlas e plumas. Sua me tinha sido aafata da apostlica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher no

Ramalho, e gabava-se de ter sido amada do conde de Vila Flor. Quando entrou no vasto e velho casaro de Quadros, teve histerismos formidveis e acordava os ecos das montanhas com gritos que punham terrores sobrenaturais na vizinhana. O Cerveira Lobo poderia viver abundantemente na corte, porque os seus rendimentos e foros eram muito importantes:  o que D. Honorata lhe pedia com lgrimas; mas ele, colrico: que no podia encarar os malhados, e no sairia mais de casa sem as suas divisas de tenente-coronel de drages. E, apontando-lhe para os cinco filhos:

-S boa me, trata dessas crianas que andam a porcas que fazem nojo! -tinha estas equidades em jejum.

E ela:

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        61

-Mais nojo me fazem as borracheiras de voc! E o fidalgo ento disciplinava-a militarmente. Quando lhe no dava alguns pontaps, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba, e perguntava-lhe se tinha saudades dos bordis do Ramalho, aqueles pagodes reais. Desta procacidade esqulida, derivou a um mutismo estpido. No lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contguo  garrafeira.

D. Honorata Guio teria vinte oito anos, quando saiu de Lisboa para o Minho em 34. Era formosa das finas graas aristocrticas. Uma elegncia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flor branca muito picada das abelhas. Aceitara o major Cerveira, porque era rico e estadeava na corte as suas librs. Tinha trinta anos, e dizia~se que aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito dele. Rosnava-se que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marqus de Loul.

Este rapaz de corte e da intimidade do rei e das infantas, disputado pelas damas da rainha, era aquele brio encanecido que, debruado na janela do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da sacada, revessava ao caminho pblico golfos aziumados de vinhaa, e dizia garotices de lacaio s raparigas que passavam medrosas e o saudavam:

-Guarde Deus Vossa Senhoria, senhor fidalgo! Tenha Vossa Senhoria muito boas tardes, senhor morgado!

E ele, almofaando as barbas conspurcadas do vmito:
-  brejeira, deixa l ver o patriotismo; que tal  a anca? No respondes, catraia? Olha como aquela rebola os quadris, o grande coldre!

As cachopas no respondiam; safavam-se com um grande medo, porque eram suas caseiras; mas comentavam: que levasse o diabo o piteireiro do fidalgo!; que a fidalga fizera bem em se pisgar com o doutor dos Pombais.

- Quer no - contrariava uma lavradeira idosa. - Foi m mulher que deixou assim os filhos, cinco crianas! Uma desgraa! Nem as cadelas faziam isso. Os mais velhos j se emborracham, e as meninas esto quase mulheres e ainda no foram ao confesso nem sabem a doutrina. Que uma delas, a Teresinha, j

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se enfeitava para o estudante das Quints, que andava por l feito caador, e que o morgadinho, o senhor Heitor namorava a filha do Jos Alho, e at se dizia que lhe falara casamento. Vede vs que desgraa,  moas! Um menino to rico e to fidalgo vi-o aqui h tempos na taberna de Vilaverde que se no lambia, a pagar vinho ao Alho e mais  croia da filha, e a comerem todos iscas de bacalhau com as mos! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando eu era rapariguita, aqueles senhores nunca saam sem os seus mochilas fardados e tinham liteiras com as armas reais pintadas. Faziam mesmo um

respeito! O senhor Rodrigo, pai deste morgado velho, era disto dos governos l de Lisboa, e quando vinha ver as suas quintas,  senhores, caa a o poder do mundo de Braga e Guimares a visit-lo! E as fidalgas? Isso ento a gente, quando as via, corria logo a beijar-lhes a mo, e elas no dia de Pscoa mandavam s cachopas lenos para a cabea e regueifas de po podre. Aquela casa estava sempre cheia de frades das ordens ricas...

-Isso, isso... eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias de frades de ordens ricas -dizia o Jos Dias de Vilalva. -Muito cheias de frades aquelas fidalgas, hem?

-A vens tu com as tuas alicantinas- retrucava, pronstica e solene, a tia Rosa de Carude. - o que tu estudas, meu

valdevinos. Agora  melhor que ento, pois no foste? As fidalgas de hoje em dia presentemente fogem cos doutores e deixam os filhos... Isto agora  que  bom, s direitas, pois no ? No tempo antigo, valha-me Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam frades e criavam os seus filhos.

-Os filhos dos frades? -perguntava o Dias. -Cala-te a, boca danada! Olha que padre havia de sair de ti! Ainda bem que a Marta de Prazins te fez mudar de rumo.

A fuga da Honorata Guio com o Silveira dos Pombais no amotinara a opinio pblica escandalizada.  excepo da austera Rosa de Carude, toda a gente deu razo  fidalga. O Cerveira

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tinha amigas da ral, que metia em casa -uma diverso  embriaguez, quando no exercia as duas distraces em uma

promiscuidade desaforada. D. Honorata visitava-se unicamente com a D. Andresa da Silveira, da casa dos Pombais, irm dum bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com ela e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se por justia, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andresa pediu ao irmo que viesse ouvir as tristes alegaes da sua desgraada amiga.

Estava Honorata nos trinta e trs anos, quando o Silveira a encontrou nos Pombais. O delegado era um romntico. Emigrara em 28, sendo estudante, quando alguns membros da sociedade dos Divodignos padeceram o suplcio da forca pelo homicdio dos lentes. Completara a formatura em 38 e fora despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus em que havia abencerragens e infantas crist s apaixonadas que tocavam arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castelos roqueiros. Tambm fazia prosa na Gazeta Literrio do Porto -cenas dramticas em que se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos negros, cravavam lminas de Toledo s portas de D. Fuas, e, cruzando os braos, rugiam cavernosamente: "Ah!, Dom Ribaldo, Dom Ribaldo! " E depois, os arrepios duma casquinada seca, dum estridente grasnido de gaivotas que se espicaam por sobre o mar banzeiro.

A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, duma elegncia de raa afinada nos sales da Bemposta, palidez ebrnea, esmaecida, airs vapors, um sorriso nobre de ironia rebelde  desgraa, com a dupla poesia do martrio e da beleza, ultrapassou a encarnao viva dos ideais do bacharel. Ela tinha pejo de lhe contar os seus infortnios, a vida crapulosa do marido, a libertinagem de portas a dentro com as jornaleiras, e o abandono da educao dos filhos. Andresa  que contava tudo ao mano Adolfo na presena da mrtir. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e tinha amzias da ltima gentalha que punham e dispunham em casa. Que os meninos eram criados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem ler

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sabia; porque o pai tambm fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lio, trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora do estudo largava a enx e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de socos para a sala. Que os

meninos no lhe tinham respeito nenhum, por isso o Heitor, quando ele o ameaou com a palmatria, respondeu que lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graa, e o padre foi-se embora. Depois, entrou um velho que dava escola em Guimares,

e os quisera ensinar com muita pacincia; mas o Heitor e mais o Egas tais arrelias lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata sofria aquele flagelo desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da vitria de D. Pedro. Era da famlia dos Guies, muito ntimos do Sr. D. Miguel e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos, roubados, de modo que ela, ainda que quisesse fugir ao marido, no tinha em

Lisboa famlia que a pudesse sustentar; que, se no fosse isso, j teria acabado o seu suplcio, e que muitas vezes pensara em se matar, mas...

- Os filhinhos... - atalhou Adolfo sentimentalmente.
- No, senhor - acudiu a dama de Carlota Joaquina -, no so os filhos. O corao de me s se enche do amor aos filhos quando se evapora o amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Impuseram-me o casamento, aproveitaram-se do despeito que eu

sentia pelas ingratides dum conde que eu amava, e casaram-me  pressa. O carcter deste homem no piorou com a desgraa da poltica; ele  o que sempre foi, com a diferena de que na corte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e em Queluz, e por l dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam no eram

minhas criadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas tinha a convico de que ele era um devasso. Tenho cinco filhos deste homem; mas basta que eu lhe diga, senhor doutor Adolfo, que so dele, so os produtos amaldioados de uma obrigao estpida - a aviltadora obrigao de ser me quando se  esposa.

Tinha dito. O bacharel nunca ouvira cousa assim, nem se

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lembrava de ter achado nos romances uma razo to filosfica e concludente da justia com que a me pode aborrecer os filhos.

-Sentia vontade de me ajoelhar diante dela! -dizia Adolfo  irm. -Que formosura e que talento, Andresa!  mana, eu viajei cinco anos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no Bois de Boulogne, no Hyde Park, e nunca vi mulher que tanto me penetrasse os ntimos seios da alma! Nunca, por estranha fatalidade, nunca! Como  que eu sinto aos vinte e oito anos as palpitaes dum corao que nasce? Que fasca de amor  esta que me lavra um incndio devastador das alegrias da alma que ainda ontem me douravam a existncia?

Era o estilo hidrpico de Arlincourt; mas  de crer que exprimisse garrafalmente a singela e natural comoo que lhe fez a gentileza, a poesia elegaca, a majestade inflexa daquela mulher a quem a desgraa dera uma crtica moderna e revolucionria na religio das mes.

D. Andresa, escandalizada, cortava-lhe os voadouros perguntando-lhe se a separao judicial poderia dar meios de subsistncia a Honorata. O bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do cdigo. O estado da sua alma no lhe consentia folhear a infame prosa com mo jurisperita.

Que havia de estudar a questo; mas que lhe parecia que ela, requerendo o divrcio, apenas tinha alimentos por no ter trazido nada ao casal. Estas frases eram mastigadas com um tdio, um engulho, como se, depois de declamar uma Contemplao de Lamartine, tivesse de recitar dois pargrafos da lei da enfiteuse.

D. Andresa era senhora ajuizada, muito sria, educada no Convento de Vairo; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, pondo sempre no alto do papel: "jesus, Maria, Jos. " Andava nos trinta e cinco anos, muito linftica e um

grande horror aos vcios da carne. O mano Adolfo conhecia-lhe a ndole. No podia esperar dela aplauso, nem sequer condescendncia, e muito menos auxlio  sua afeio  mulher casada. Andresa concordava com o irmo na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o no

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chamara para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselh-la e dirigi-Ia na separao do marido por justia.

O doutor Adolfo absteve-se de entusiasmos, e ps-se a estudar a questo, em conferncias como o Bento Cardoso, de Guimares, e o Torres e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chaves. Mas o que ele queria era corar as delongas nos Pombais, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da mana e do seu capelo, um realista finrio que sabia da poda, e trazia a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca -e conhecia at onde podia chegar a fragilidade de um homem sem slidos princpios de religio, estragado por essas naes.

D. Andresa andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava comeo ao processo. A Honorata aparecia-lhe radiosa, com um grande esmero no trajar, vestidos fora da moda, mas elegantes, ricos, de mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capelo luzernas esquisitas, escrpulos. Adolfo era discreto na presena da mana. Contava as suas viagens, durante a emigrao, citava nomes de literatos desconhecidos  fidalga, seus amigos ntimos em Paris.

-Ai!, Paris! -exclamava. -Se eu ento me passaria pela mente que havia de vir de Paris para Amarante!

-Ele porta-se muito srio -dizia D. Andresa ao padre Rocha. - Ela  que me parece mais levantada, muito azevieira, no acha?

- Acho, acho... - confirmava o capelo. - Daqui rebenta cousa, minha senhora; rebenta, Vossa Excelncia ver...

E, com efeito, estava a rebentar, na frase explosiva do padre Rocha. O delegado tinha correspondncia diria com Honorata, mediante uma caseira de sua mana, irm duma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendirias escritas durante a noite trocavam-se de manh, quando o Adolfo saa a respirar os blsamos das ribanceiras orvalhadas. s vezes, subia a encosta at  crista do monte do castelo de Vermoim. Daqui, avistava-se por sobre as

selvas verdes de carvalheiras e pinhais a vasta casaria pardacenta

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de Quadros, com dois torrees denticulados. No andaime de um dos torrees via-se um vulto branco, com o brao amparado em

uma das ameias, e a cabea encostada  mo como nas baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binculo assestado na fraga onde estava Adolfo, alaranjado pela primeira resplandecncia do sol-nascente.

Ao cabo de duas semanas, saram do domnios da balada. Uma noite, partiram de Guimares, caminho do Porto, dois cavalos do Gaitas, e pararam na Ponte de Brito. Um dos cavalos era arreiado com selim de senhora. Por volta da meia-noite, Adolfo e Honorata, num passo mido, com uma ansiedade misto de exultao e de susto, chegaram  Ponte de Brito. Ele ajudou-a a sentar-se na sela; cavalgou, disse aos dois arrieiros o seu destino, e partiram a trote largo.

v

Seis anos depois@ em 1845, quando o Zeferino das Lamelas andava em roda viva de Barrimau. para Quadros, o Cerveira no tinha alterado sensivelmente os seus hbitos. Estava muito gordo, sade de ferro-um desmentido triunfante aos folculrios que desacreditam as virtudes higinicas, nutrientes do lcool. Os vomitrios quotidianos explicavam a depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Orava pelos cinquenta anos, com um arrogante aspecto marcial, de intonsas barbas grisalhas -olhos rutilantes afogueados pela calcinao cerebral. As filhas no mostravam vestgios alguns de educao senhoril. Aquela Teresinha, que a Rosa de Carude denunciara, fugira para casar com o minorista das Quints. As outras duas, muito boais e alavradeiradas, tinham amantes-uns engenheiros e empreiteiros do conde de Clarange Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimares. Ningum decente as queria para casar porque, alm do descrdito, o pai no dava dote; e, desde que a me

fugira, convenceu-se de que no eram suas filhas. Heitor e Egas, dois galhardos moos, de jaqueta de alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com ilhozes amarelos, tinham guas travadas que entravam pelas feiras num arranque de rpia e pimponice, que ia tudo raso. De resto, valentes e bbedos, possantes garanhes de femeao reles, e muito esquivos a tratarem

com senhoras - canhestros e bestiais. Roubavam o milho e o vinho; vendiam, nas matas distantes, ao desbarato, cortes de madeira e roas de mato; alm disso tinham umas pequenas

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mesadas que o pai lhes dava. Ainda assim, a casa de Quadros no estava empenhada, prosperava, e era das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira. Mais nada. As filhas de Honorata quando, entre si, falavam da me, chamavam-lhe "aquela desavergonhada "; os rapazes, com um desapego desleixado que poderia fingir dignidade, nem se lembravam que tinham me. Quanto ao pai, esse antes de jantar era taciturno, casmurro, como quem se esfora por sacudir um pesadelo; e, de tarde, sumia-se para recomear as suas vises luminosas interceptadas pelas trevas momentneas da razo. No se sabe o que ele pensava da mulher.

Admitia pouca gente em sua casa e pouqussima  sua presena. Alm dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Vila do Conde, de Esmeriz e S. Cosme do Vale, apenas recebia o pedreiro das Lamelas que lhe fizera os canastros e reconstrura algumas paredes desabadas. Conhecia-lhe o pai, o alferes, desde a batalha de Ponte Ferreira. Mandava-lhe botijas de genebra e maos de cigarros; que bebesse, que se embebedasse, que os tempos no iam para outra cousa. E o alferes com vaidade de fino:

-A quem ele o vem dizer! Ultimamente, falavam muito da chegada do Sr. D. Miguel - "o meu velho amigo ", dizia o Cerveira, pondo as mos no peito e os olhos no tecto.

-Venha ele, e ver-me-s, Zeferino,  frente dos meus drages de Chaves!

Relampagueavam-lhe ento as pupilas e fazia largos gestos marciais, com o brao trmulo como se brandisse a espada, rompendo um quadrado; montado na fantasia arqueava as pernas, descaa o tronco sobre um imaginrio cavalo empinado e bufava com trejeitos ferozes. Era dum ridculo lacrimvel. O Zeferino dizia ao pai que s vezes lhe tinha medo quando ele fazia aquelas partes,

-0 vinho do Porto  o diabo! -dizia o alferes com uma grande experincia dessas faanhas incruentas -,  o diabo!

O Zeferino, na volta de Santa Marta de Bouro, contou-lhe o

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que soubera em casa do capito-mor. O tenente-coronel quis imediatamente partir para Lanhoso; mas no tinha roupa decente para se apresentar a el-rei. As fardas estavam traadas, podres com um bafio de rodilhas no fundo de uma arca; dos gales restava um tecido esbranquiado com laivos verdoengos; o casco

das dragonas esfarinhou-se-lhe nas mos rodo pelos ratos. No tinha casaca. Desde a Conveno de vora Monte, mandava fazer a Guimares uns ferragoulos de mescla  laia de capote de soldado para o Inverno; de Vero, para equilibrar o calor artificial interno com o da atmosfera, andava em ceroulas e fazia leque da fralda. Por decncia, fechava-se nos seus aposentos. Mandou chamar um alfaiate a Braga, o Cambraia da Rua do Souto, para se vestir  militar e  paisana.

Entretanto, o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu padrinho de Barrimau e mais o frade no acreditavam que el-rei estivesse em Calvos; que era uma comedela do Dr. Cndido de Anelhe e dos padres para apanharem cinquenta contos  D. Isabel Maria; que os generais do Sr. D. Miguel no sabiam de nada.

O Cerveira Lobo esfriou.
- Tambm me parece - dizia - que se o meu velho amigo Dom Miguel a estivesse, j me tinha mandado chamar.

Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijara a

mo de el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel j no podiam duvidar. Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse ele para Lanhoso, e dissesse ao capito-mor que o levasse a Calvos, e

o abade que participasse a el-rei que estava ali um prprio com uma carta de Vasco da Cerveira Lobo, tenente-coronel de drages.

-Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, imediatamente, num pronto. Depois, pe-te de joelhos, e entrega-lhe a

carta, percebeste? Tu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho c o fardamento. No caso que Sua Majestade me mande ir, vou; se no, trato de chamar s armas

cinco ou seis mil homens com que posso contar.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                  71

Zeferino, para evitar questes atrasadoras, no disse nada ao padrinho nem ao pai, receando as expanses usuais da carraspana.

O Cerveira dizia ao padre Rocha, capelo de D. Andresa: -Ideias no me faltam; mas esqueci aquilo que se chama... sim aquilo com que se escreve, quero dizer...

-Ortografia?
-  como diz, padre Rocha, ortografia. Era o exrdio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava no concelho da Pvoa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que no se metia nisso; e acrescentava:

-Ele, o rei, aqui h treze anos sabia tanta ortografia como

eu; mas agora dizem as gazetas que ele estudou cousas e lousas e tal.

Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe escrevesse a carta

para ele a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a mo no ombro:

-E ouviu, padre? V pensando no que quer; uma boa abadia, Sant'iago de Antas, hem? Serve-lhe? Ou antes quereria ser

cnego? Enfim, pense l... Ns c estamos s ordens.

O padre era a fina-flor do clero realista. Sensato, inteligente e

honesto. Primeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia voz a chegada do seu amigo e rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira. Depois, reparando mais nas atitudes firmes e desempeno da lngua, julgou-o sandeu, amolecimento cerebral pela alcoolizao; por fim, convenceu-se de que o pobre homem era enganado e escarnecido por alguns desfrutadores. O padre tinha muita compaixo do fidalgo que a mulher e as filhas enlameavam torpemente. Ele avisara D. Andresa que, no dia em que o senhor doutor Adolfo entrasse nos Pombais pela porta principal, ele sairia pela porta travessa; e a fidalga levara to a mal o proceder do irmo que pensava em fazer testamento para que os filhos dele e de Honorata lhe no herdassem as quintas. Sabia-se nesse tempo que o doutor Adolfo da Silveira era juiz de

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direito nos Aores e tinha consigo uma formosa amante com trs meninos.

A nica ideia com que o Cerveira contribuiu para a redaco da carta foi que escrevesse: "Se Vossa Majestade precisa de dinheiro, diga o que quer, que eu at onde chegarem as minhas posses est tudo s ordens de el-rei meu senhor. "

O padre Rocha no se esquivou a colaborar na endromina, dizia ele a D. Andresa -porque "eu, pela resposta da carta, hei-de seguir o fio da esparrela que querem armar ao parvo do homem".

A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir comentrios, explicaes. Que estava uma obra profunda - dizia o fidalgo instrudo enfim nas obscurezas do estilo.

E, tirando seis pintos do bolso do colete: -A tem para o seu rap, merece-os.
O capelo no aceitou; pediu que os aplicasse por sua inteno s necessidades do Sr. D. Miguel.

- um realista s direitas, padre, um grande realista! E, guardando os seis pintos, abraou-o efusamente e ofereceu-lhe um clice de 1817.

-Eu desejaria muito ver a resposta de Sua Majestade dizia o padre Rocha.

-Isso  logo que ela chegar, padre! Pois ento? C entre ns no h segredos; e, se o amigo quiser, no caso que el-rei me

mande ir, vai comigo, e pode logo vir despachado. Pois ento?

-Est dito! -e o padre com um regozijo muito cmico, e

o clice aromtico debaixo do nariz: -Quem sabe se eu ainda serei arcebispo,  senhor tenente-coronel!

-Ora!, como dois e dois so quatro! H-de ser arcebispo, no tenha dvida. Isto vai tudo mudar! -E carregava-lhe forte no 1817. - Arre!, estou aqui metido h doze anos nestes montes, que me tm levado os diabos! Tenho quarenta e nove anos; mas este punho ainda pode com a espada! H-de haver pancadaria de criar bicho! Ol! Eu dizia s vezes ao meu amigo Dom

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Miguel quando o Mata e o Miguel Alcaide davam cacetada nos malhados que aquilo no era bonito. Pois agora, padre Rocha, hei-de dizer-lhe: " pra baixo, real senhor!, mocada de meter os tampos dentro a esses malhados!  acabar com

eles por uma vez!, uma forca em cada concelho, real senhor, muitas forcas! " Ah!, meu camarada Teles Jordo! Tu  que a

sabias toda!

O Cerveira comeava a gaguejar, a cambalear, e entornava o

clice. O padre despediu-se.

vi

Na residncia do abade Marcos Rebelo, em S. Gens de Calvos, havia uma sala com alcova e janelas sobre uma horta arborizada. As pereiras, macieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no comeo de Abril. Ali, naquelas frgidas alturas, sopram as ventanias mordentes de Barroso, do Gers, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das cristalizaes glaciais. Fazia frio. Na saleta caiada, muito excrementcia de moscaria, com tecto de castanho esfumaado e o pavimento lurado do caruncho, havia a um lado duas caixas de cereais, no

outro algumas cadeiras velhas de nogueira de diversos feitios, esfarpeladas no assento; nas paredes duas litografias-o retrato de D. Joo VI com o olho velhaco e o beio belfo, e o marqus de Pombal sentado com o decreto da expulso dos Jesutas, apontando parlapatonamente para a barra onde alvejam panos de navios que levam os expulsos. Na velha cal esburacada e

emporcalhada de escarros secos de antigas catarrais, destacavam molduras de carvalho com dois painis a leo, cheios de gretas, S. Jernimo no deserto, com uma cara aflita, de tique doloroso, e Santo Antnio de Pdua, num sadio en bon point, um bom sorriso ingnuo, com o Menino Jesus sentado, muito nutrido, em uma bola que os hagilogos, diziam ser o globo terrqueo. No centro da quadra estava uma banca de pinho pintada a ocre, com uma coberta de cama, de chita vermelha, com araras, franjada de requifes de l variegada. Ao lado da banca, uma cadeira de sola, com espaldar em relevo e pregaria ama-

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        75

rela com verdete; do outro lado havia um fogareiro de ferro com brasas e uma cesta de verga cheia de carvo. Entre as duas pequenas janelas de rtulos interiores e cachorros de pedra, trabalhava estrondosamente um relgio de parede com os frisos do mostrador sem vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna, de ventres brancos muito inchados e as asas abertas.

Dez horas. Abriu-se ento a porta da alcova que rangeu ligeiramente na couceira desengonada, e saiu um sujeito de mediana estatura, ombros largos, barba toda com raras cs, olhos brilhantes, plido-trigueiro, um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta anos. Sentou-se  braseira e preparou um cigarro, vagarosamente, que acendeu na aresta chamejante de uma brasa. Com o cigarro ao canto dos lbios e um olho fechado pelo contacto agro do fumo, foi   ,abrir uma das vidraas, e

ps fora a mo a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a mo com desagrado e fechou a janela. Vinha subindo a

escada de comunicao com a cozinha uma mulher idosa, em

mangas de camisa, meias azuis de l e ourelos achinelados. Pediu licena para entrar, fez uma mesura de joelhos sem curvar o

tronco, e perguntou:

-Vossa Majestade passou bem? -Optimamente, Senhorinha, passei muito bem. -Estimo muito, real senhor. O senhor abade foi chamado s oito horas para confessar uma freguesa que est a morrer

duma queda, e deixou dito que pusesse o almoo a Vossa Majestade, se ele no chegasse s nove e meia.

- Quando quiser, Senhorinha, quando quiser, visto que o

abade deu essas ordens e quem manda aqui  ele.

Da cozinha vaporava um perfume de salpico frito com ovos.

Sua Majestade farejava com as narinas anelantes, num forte apetite. A criada voltou com toalha, guardanapo, loua da ndia, talheres de prata, e uma travessa coberta. Sua Majestade, muito familiar, tirou de sobre a mesa uns cadernos escritos, cosidos com seda escarlate, e um grande tinteiro de chumbo com penas de pato.

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-Ora Vossa Majestade a incomodar-se! Valha-me Deus!, eu tiro isso, real senhor! No que uma cousa assim! Um rei a...

E o real senhor: -Ande l, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei  um homem como qualquer homem.

-Credo!, faz muita diferena... mesmo muita... Ela descobriu a travessa a rir-se: -Vossa Majestade diz que gosta... -Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a elas que esto a dizer: comei-me.

E atirou-se s sardinhas com uma sofreguido pelintra. Depois, serviu-lhe rodelas de salpico com ovos. Sua Majestade gostava muito destas comezainas nacionais. j tinha comido tripas, e dizia que no exlio se lembrara muitas vezes desta saborosa iguaria com feijo branco e chispe, que tinha comido em

Braga. O abade de Calvos sensibilizava-se at s lgrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha de porco e a limpar as rgias barbas oleosas das gorduras sunas. O terceiro prato era vitela assada. A Senhorinha trazia-lha no espeto, porque Sua Majestade gostava de ir trinchando finas talhadas, enquanto a cozinheira, de ccoras ao p do fogareiro, conservava o espeto sobre o brasido, a rechimar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hspede um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietrio do Douro, que estava no segredo do ditoso abade de Calvos - capelo-mor de el-rei e dom prior eleito de Guimares.

A criada assistia muito jovial quela deglutio formidvel, e

dizia particularmente ao abade:

-Este senhor, pelo que come, parece que tem passado muitas fominhas! Ningum h-de crer o que Sua Majestade atafulha naquele bandulho!

E dizia que lhe dava vontade de chorar, lembrando-se das brazeiras que ele tinha apanhado; porque o abade contava que lera no Deus o Quer, do visconde de Arlincourt, que o Sr. D. Miguel, em Roma, no tinha s vezes dez ris de seu para almoar uma xcara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade

A BRASILEIRA DE PRAZINS                         77

aquilo: que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a fome a ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassalos pelos sessenta contos anuais que lhe ofereceram da Casa do Infantado, e que ele rejeitara.

Por fim, vinha o caf. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. Sua Majestade barrava-as de manteiga nacional - preferia a manteiga do seu pas, como a vitela, e o lombo do porco no

salpico portugus, e o p do porco nas tripas tambm portuguesas -tudo do seu pas. Que rei, que patriota! -meditava o abade de Priscos, bispo eleito de Coimbra, esmoncando-se e aparando as lgrimas temas no Alcobaa.

No fim do copio@o almoo, el-rei fumava charutos espanhis, de contrabando; desabotoava o colete, dava arrotos, repoltreava-se na cadeira de sola um pouco desconfortvel, e vaporava grande colunas de fumo que se espiralavam at ao tecto.

A Senhorinha veio  beira de el-rei, e disse baixinho:
- Saber Vossa Majestade que est ali o senhor Trocatles. -0 ... ?
- Ai!, j me esquecia... o senhor visconde... -Que suba.
O sujeito que entrou era o Torquato Nunes, um sargento do exrcito realista, de S. Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcova.

A cozinheira dizia em baixo  outra criada de fora: - cousa! Mal diria eu que ainda havia de chamar "visconde" ao safardana do Trocatles!

E a outra, benzendo-se: -No que ele, o mundo sempre d voltas! Veja voc! Aquele moinante que me pediu uma vez dois patacos pra cigarros, e por sinal que nunca mos pagou!

- Pois vs a! Foi ele o primeiro que conheceu o senhor Dom Miguel,  o que foi, e Sua Majestade gosta muito dele. Foi feliz o diabo do homem! Aquilo vai a governo, tu vers; e j ouvi dizer que o sobrinho dele, o padre Z da Eira, o de Rio Caldo, que  zanagra, est cnego. Limparam-se da carepa,  o

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que . A mulher dele j botou no domingo passado a sua saia e jaqu de pano azul.

- E que rico pano!
- Pois vs a... Entrava nesta conjuntura o abade, esfadigado, suarento -que levasse o diabo a freguesia, que pouco tempo havia de aturar massadas daquelas, para confessar uma bbeda de uma velha que tinha bebido de mais na feira da Pvoa e cara dum valado a baixo.

- E ele - perguntava - almoou bem? -Ora!, no h que perguntar, senhor! Aquilo, salvo seja,  como a cal duma azenha.  quanto lhe deitarem pr tripa   * Cousa assim! Subiu agora pra l o Nunes. Ai!, j me esquecia,  senhor abade! Olhe que na vila j perguntaram se c na casa estavam hspedes porque vinham pra c muitas comidas. Que no vo eles pegar a desconfiar... Esta pergunta  moa traz gua no bico.

-E tu que respondeste, moa? -Que vinham por c jantar uns senhores padres, que agora era tempo de confesso.. .

- Andaste bem. Quando o padre Marcos Rebelo subia  sala, pedindo licena a meio da escada, j o rei e o visconde vinham saindo da alcova - um, aprumado na atitude da majestade, o outro, na do respeito, muito composto.

- Pede licena na sua casa, dom prior? - disse el-rei.
O dom prior de Guimares genuflectiu a perna direita; o soberano apressou-se a ergu-lo:

-Nada de etiquetas, j lho disse dzias de vezes.

-No posso nem devo proceder doutra maneira, senhor! -Pode e deve que o mando eu. E o abade, inclinando-se com os braos em cruz sobre a batina:

- Saber Vossa Majestade que o senhor capito-mor de Santa Marta, a quem Vossa Real Majestade fez baro de Bouro...

-Bem sei... aquele amvel cavalheiro...

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        79

- Perfeito cavalheiro - atestou o Nunes.
- Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas

mos de Vossa Majestade.

EI-rei leu alto:

Amigo Dom Prior de Guimares. Um realista do concelho de Famalico chegou h pouco a

esta sua casa, afim de que eu escrevesse ao meu nobre e velho amigo para obter  Sua Majestade licena para lho apresentar como portador de uma carta do senhor Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e tenente-coronel que foi do Regimento de Drages de Chaves. Diz ele que o senhor Dom Miguel fora amigo pessoal do dito tenente-coronel, e por isso entende, e eu tambm, que ser muito do real agrado do nosso rei e senhor receber a carta deste legitimista que nos pode ser muito til, j pelo seu nome, como tambm pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de Sua Majestade Fdelssima queira transmitir-mas...

-Estou-me recordando -dizia o prncipe pausando as suas reminiscncias. - Cerveira Lobo... tenente-coronel de drages... Sim, senhor ... Recordo-me muito bem... O Cerveira, o meu amigo Cerveira   ...

-Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os liberais com a cavalaria e mais o coronel de drages, o Albuquerque- lembrou o Nunes, o visconde Nunes. -Vossa Majestade lembra-se?

-Perfeitamente. Dom prior, queira escrever ao baro a dizer-lhe que espero ansiosamente a carta do meu amigo Cerveira.

Enquanto o abade ia ao seu quarto escrever, o hspede disse ao ouvido do outro:

- Isto corre mal...
- Porqu?! -Se o homem c vem, o meu "grande amigo "...
- Recebe-lo como o teu "grande amigo "...

-Se me fala em particularidades... -Ele no sabe falar em particularidades.  uma besta, mui-

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to rico, e disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que est sempre bbedo. Nem ele c vem, tu vers... Eu at acho que as cousas correm perfeitamente - ouviam-se os passos do abade. -Tem dinheiro, ele tem muito dinheiro, ouviste?

Entrou o abade. -S duas palavras. E leu: "Sua Majestade recebe com muito prazer a carta do senhor tenente-coronel Cerveira Lobo. "

- Muito bem - aprovou el-rei. - Hoje  noite, com todos os resguardos que urgem as cautelas.

-Um homem, o Caneta de Braga, o chapeleiro, com uma carta - anunciou Senhorinha. - S a entrega em mo prpria ao abade.

Que entrasse.
O rei e o visconde meteram-se  alcova, simulando receios. Era uma carta do abade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a honra de enviar a el-rei cem peas, donativo que as senhoras Botelhas, de Braga, ofereciam de joelhos a Sua Majestade Fidelssima e diziam que todos os seus haveres estavam s ordens de el-rei seu senhor.

E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de seda escarlate. E o Caneta, muito pontual:

-Queria um recibinho, se lhe no custa, reverendo senhor abade.

-Venha da que eu passo-lhe o recibo. Os dois saram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Eles tinham ouvido falar em recibo. O visconde Nunes, esgazeando os olhos, foi apalpar o embrulho, e muito baixinho: _  Arame!, pesa que tem diabo!  ouro! Comea a pingadeira! Vs?

O outro arregalou os olhos e deitou a lngua de fora quanto lhe foi possvel. Nem parecia um rei!

VII

s sete da noite a soire do monarca de Calvos compunha-se do visconde Nunes, seu secretrio privado e brigadeiro de infantaria, do abade capelo-mor de el-rei, de dois reitores, cnegos despachados, e do ex-sargento-mor de Rio Caldo, nomeado capito-mor de Lanhoso. Estavam todos em p resistindo  licena de se sentarem. A cadeira de sola estava com o prncipe encosta~ da ao relgio; e, na mesa central, papis, o tinteiro de chumbo, o Novo Prncipe, de Gama e Castro, a Besta Esfolada e o Punhal dos Corcundas, do bispo Frei Fortunato. Em cima das, caixas do milho estava um meio alqueire com feijes brancos destinados s tripas, e dois foles vazios que a Senhorinha tencionava encher de gro para @fomada quando el-rei se recolhesse. Sobre um dos foles resbunava um gato enroscado.

Esperava-se o apresentante da carta de Vasco Cerveira. s oito horas anunciaram-se os adventcios. O baro de Bouro entrou primeiro a passo mesurado, com o peito alto, e o pescoo hirto numa gravata enchumaada, preta, de cordozinho de arame, sem lao, atacando os lbulos das orelhas, um pouco reentrante na altura dos gorgomilos. Usava culos de ouro quadrados, e uma pra grisalha; de resto, rapado. Envergava casaca nova de lemiste, muito refastelada, de abas compridas com ancas

proeminentes, segundo a moda; do cs das calas, cor de gema de ovo, pendiam berloques com armas, uma medalha com o retrato de D. Miguel aos vinte e dois anos, e uma pea de ouro com a mesma real efigie. No peito da camisa, entre as lapelas do

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colete de veludo cor de laranja, trazia pregado um punhal esmaltado, em miniatura, enigma convencional dos cavaleiros de S. Miguel da Ala, obra patriota do ourives Novais, pai do poeta Faustino.

De ps ele, entrou o Zeferino das Lamelas, muito enfiado, num espasmo, sentindo-se aluir pelos joelhos. Ia de nisa de pano azul com botes amarelos, cala branca espipada com joelheiras pelos atritos do albardo. As pernas das calas chegavam apenas a meio cano das botas, que pelo tamanho dos ps dir-se-iam roubadas a um gigante.

O Bezerra dobrou o joelho, inclinando o tronco  mo esquiva de Sua Majestade. Por detrs dele, o Zeferino ajoelhara batendo com ambas as rtulas no tabuado. O baro ia falar, quando o rei, reparando no outro, disse:

- Levante-se, homem. Isto aqui no  capela.
O pedreiro teimava, achava-se bem naquela postura que o

dispensava de procurar outra.

-Sua Majestade manda-o levantar-disse o visconde Nunes.

Ergueu-se, e num mpeto silencioso ia entregar a carta ao da cadeira, quando o capelo-mor lhe observou que as cartas se entregavam ao secretrio.

O baro exps que no pudera resistir aos pedidos que aquele honrado legitimista lhe fizera para o acompanhar, porque no se

atrevia a entrar sozinho  presena de el-rei, seu amo. Que era

filho de um bravo alferes, o Gaspar das Lamelas, que em 1838,  frente de trezentos homens, atacara a vila de Santo Tirso, dando vivas a el-rei. Contou a faanha de atravessar o Ave a nado em janeiro, com a espada nos dentes, e que por causa disso entrevecera e nunca mais se levantou.

- Oh! - interjeicionou compungidamente o monarca. -Eu ignorava esse notvel ataque... estava em Roma, sem notcias... Digno homem o meu honrado e bravo... como se chama seu

pai?

- Saber Vossa Majestade que se chama Gaspar Ferreira. E o rei:

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       83

-Visconde, escreva na lista.
O Nunes sentou-se  mesa, pedindo vnia a Sua Majestade, que ditou:

- Gaspar Ferreira, reformado em coronel de infantaria, com

vencimento desde mil oitocentos e trinta e oito. Escreva  margem: batalha de Santo Tirso. -E voltando-se para Zeferino, que ladeava para a parede: -Diga a seu bravo pai que lhe dei a reforma em coronel, e vencer soldo dos sete anos passados.

O Zeferino abriu a boca para dizer o que quer que fosse.
- A carta do meu velho amigo Teixeira? - perguntou o rei ao visconde Nunes.

- Cerveira, perdoe Vossa Majestade, Cerveira Lobo.
- Ah!, sim... Cerveira Lobo. Abriu, leu para si, passou a carta ao secretrio, e comentando exultante:

-Um grande amigo!, dos raros!, um dos nossos melhores esteios! Com homens assim dedicados, o triunfo  certo. Posso dizer com o grande vate Cames:

E dir-me-eis qual  mais excelente, Se ser do mundo rei, se de tal gente.

Um dos reitores que estavam na penumbra, l em baixo ao p das caixas, olhou com espanto para o outro, que lhe disse  puridade, discretamente:

-Diz que ele tem estudado o diabo... at o latim! EI-rei prosseguiu: -Vou responder por meu prprio punho ao meu nobre amigo.  digno desta e de maiores consideraes. Visconde, escreva na lista: Vasco da Cerveira Lobo, general de cavalaria, e conde de Quadros. Depois, tirou de uma velha pasta de papelo uma folha de almao, sentou-se a escrever -e que conversassem.

O abade, capelo-mor, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro e pastis de Guimares, cavacas do Convento dos Remdios e forminhas.

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Havia mastigao de mandbulas pesadas; as forminhas eram frescas, muito torriscadas, davam rangidos numa trincadeira voluptuosa. Conversava-se em dois grupos. O sargento-mor de Rio Caldo contava passagens de caa no Gers, com enfticos arremedos, movimentados, da altaneria. Que o porco bravo viera direito a ele, e cortava mato, troncos de giestas como a sua coxa -e mostrava; tinha apanhado de raspo a cadela, a Ligeira, raa de todos os diabos, que o atacava pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e ele ento cara sobre a esquerda, e trepara  fraga da Portela, e esperara o porco na clareira; e mal ele apontou, pumba!, meteu-lhe trs zagalotes no quadril.

- A gente a falar incomoda talvez el-rei... - observou o baro de Bouro.

-Podem conversar  vontade, que no me incomodam. -Aquilo  que  cabea! -disse baixinho, tocado, um dos cnegos a outro cnego.

Generalizou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes lacnicos, circunspectos, com um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de olhos. "A virar!, a virar! ", carminavam-se os cnegos. O dom prior de Guimares sugeriu uma lembrana graciosa ao baro. Que havia dois " padres, Marcos", ambos priores de Guimares. Mas o legtimo, o de S. Gens de Calvos, dizia do outro:

- Forte bbedo!
O visconde Nunes ria-se sarcasticamente; e enquanto os padres num crescendo palavroso, expluam sarcasmos ao outro padre Marcos, o secretrio privado, curvou-se sobre o ombro de el-rei e segredou-lhe:

- Carrega-lhe!
- Ora! ...
- Quanto?
- Dois. -Trs. Anda-me. Trs.
- Ser muito! ... -Bolas. Trs, por minha conta. Cousa limpa. E, em voz alta e voltado para o grupo:

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        85

- EI-rei pergunta se o senhor conde de Quadros tem famlia, se tem senhora e filhos.

O Bezerra perguntou ao Zeferino. Que soubesse Sua Majestade, disse o pedreiro, mais animado, que o fidalgo de Quadros tinha dois rapazes e trs raparigas, uma j casada; mas que a fidalga, a mulher dele, aqui h anos atrs tinha fugido com o doutor dos Pombais, e nunca mais voltara.

- Desgraas! - disse o capelo-mor. - Desgraas! A corrupo dos tempos... Se se no acudir quanto antes a isto, no sei que volta se lhe h-de dar.

Fez-se um silncio condolente. Todos sentiam o caso infausto.

O rei continuava a escrever, devagar, pulindo a frase, boleando os perodos; achava dificuldades em se medir com as locues redondas e muito adjectivadas da retrica do padre Rocha. Animava-o, porm, a ideia de que D. Miguel no tinha fama de sbio, e que a sua carta seria mais verosmil com alguns aleijes gramaticais.

Releu a carta, e acrescentou s vrgulas. Pediu obreia ao Nunes. Acudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha, cuidadosamente recortada.

O envelope ainda no tinha subido at Lanhoso. Sua Majestade dobrou em quatro a folha do almao e sobrescritou: "Ao conde de Quadros, general do exrcito real. "

Nesta ocasio, o Cristvo Bezerra chamou de parte o Nunes, falou-lhe em segredo, e terminou em voz alta:

-Se for do agrado de Sua Majestade. -Eu vou falar a el-rei-disse Nunes com satisfatria condescendncia.

Acercou-se do outro, com os braos pendentes, os ps juntos, um pouco inclinado, e falou-lhe baixo.

- Sim - respondeu o monarca. -Est servido, senhor baro -comunicou o secretrio e foi registar no livro das mercs, proferindo em voz alta: - Sua Majestade h por bem nomear sargento-mor das Lamelas Zeferino

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Ferreira, em ateno aos servios de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira.

- V agradecer a el-rei, senhor sargento-mor - disse o baro de Bouro ao pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao homem.

- Levante-se, amigo - disse o prncipe. - Aqui tem a resposta da carta do meu amigo Cerveira Lobo.  necessrio que ningum veja este sobrescrito. Tome sentido, que ningum saiba a quem esta carta  dirigida. V com Deus, e estimarei v-lo aqui, senhor sargento-mor, com outra carta do meu honrado amigo, enquanto no posso abra-lo pessoalmente. Adeus.

A corte saiu em recuanos, dando-se mtuos encontres para no voltarem as costas  majestade.

A criada apareceu ento esfandegada para pr a mesa, que estava a ceia pronta, e que o frango com arroz no esperava-que era preciso com-lo logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Ceava sempre com el-rei e com o abade.

O Zeferino, que tinha ali a gua e conhecia o caminho, no quis ir pernoitar a Santa Marta de Bouro. Havia luar e saa um rancho de romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direco a Braga, e ao outro dia de tarde apeava no sonoro ptio da casa de Quadros por onde entrara com a gua em grande estropeada, com a cara escandecida numa congesto de jbilo.

O Cerveira estava a dormir a sesta.
- Apanhou-a hoje daquela casta! Como um cacho! informou um caseiro. -Mandou aparelhar a poldra castanha do senhor Egas, com os coldres das pistolas, escanchou-se na sela, com a espada desembainhada, e desatou a galope por debaixo das ramadas, a dar gritos: "Avana, drages! Carrega, esquadro! " Eu estava a ver quando o levava a breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava a baixo da burra como um dez! ... Depois o senhor Egas e mais o senhor Heitor l o apearam como puderam, e foram-no pr a dormir. Arre diabo!, l que um homem uma vez por outra apanhe um pifo, v; mas embebedar-se todos os dias,  muito feio! E depois ningum se

entende com ele. Medra com o suor dos pobres. Um fona. Que

A BRASILEIRA DE PRAZINS                         87

v para o diabo que o carregue. Tanto se me d como se me deu. Se me mandar embora, boas noites. No  capaz de perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil cruzados de renda, no gasta nem cinco, andam os filhos a vender o mato e os pinheiros, uma vergonha, porque ele, a dois homens gastadores, que tm amigas, uma a cada canto, d cada ms vinte pintos para os dois! O homem deve ter muita soma de peas enterradas! Qualquer dia cai-lhe a em casa o Jos Pequeno da Lixa que lhe pe a faca ao peito at ele pr ali o dinheiro  vista. Diz que quer comprar mais terras, e aqui h dias ofereceu seis contos pela quinta do Lopes de Requio. Veja voc. Tem seis contos ao canto da gaveta, e ainda no deu cinco ris, que so cinco ris,  filha,  Dona Teresinha, que casou com o estudante das Quints. Anda por l de socas, sem meias, a fazer o servio da cozinha. E esto a as outras duas, que parecem umas fadistas, nas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noite por esses quinchosos esses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem paredes para se irem meter com elas na casa do palheiro. Uma vergonha, mestre Zeferino, a vergonha das vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me parta, que se eu tivesse assim umas filhas... Olhe... (batia com o p em cheio na relva) esmagava-as como quem esborracha uma toupeira. Deus nos livre de bbedos, Deus nos livre de bbedos! Voc bem sabe o que isso , mestre Zeferino, que pelos modos l por casa no tem pouco que aturar a seu pai que tambm as agarra muito "profeitas! " Olhe voc como ele se tolheu quando foi, Dia de Natal, dar fogo aos de Santo Tirso! Aquilo s com meio almude no bucho!

-No  tanto assim-atalhou o sargento-mor de ladeias.-No lhe digo que meu pai no tivesse algum graieiro na

asa; mas o que ele fez no era voc capaz de o fazer, tio Manuel.

- Ah!, isso no, bem o pode dizer, mestre Zeferino. Nunca me emborrachei, aqui onde me v com cinquenta anos j feitos; mas, se algum dia me emborrachar, que ningum est livre disso, prego-me a dormir e no vou atirar-me ao Ave em Dezembro! Agora vou, se Deus quiser. Vai-se pr o alma do diabo a

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dar vivas ao Dom Miguel! Qual Miguel nem qual carapua! Se Dom Miguel c vier h-de fazer tanto caso de seu pai como eu daquela bosta que ali est. O que ele devia era tratar de conservar os terres, e fazer como voc, que se ps a trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados lhe tomaram conta das terras. E da? Voc hoje tem o seu par de "mel" cruzados, ganhados com o suor do seu rosto, e at j me disseram que voc dava quinze centos ao de Prazins para lhe casar com a rapariga.  assim ou no ?

- Isso acabou - respondeu com desdm, irritado. - Agora no a queria nem que ele a dotasse com trs contos; entenda voc o que lheu digo, tio Manuel, nem com seis contos! Voc no sabe quem eu sou, mas brevemente o saber. Pouco h-de viver quem o no vir.

-No sei quem voc ? Ora essa... J lhe disse que voc  homem capazrio, honrado...

- Quero c dizer outra coisa... Voc no entende        ... -E ouvindo abrir uma janela: -L est o fidalgo... deixe-me l ir.

E afastando-se do caseiro, ia dizendo consigo: "Que tal est o labroste! Um homem vem de falar com el-rei, e topa com uma cavalgadura destas! Canalha ordinria! ... "

viu

Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua interveno entre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o

sobrescrito com estranheza, e disse que a carta no era para ele; e lia: " Ao conde de Quadros, general do exrcito real. "

-Isto que diabo ? - isso mesmo, fidalgo; isso que a est vi-o eu com estes

olhos escrever el-rei o senhor Dom Miguel, ontem  noite, das nove para as dez. O senhor conde  Vossa Excelncia mesmo, e

eu sou sargento-mor das Lamelas; l ficou o meu nome no livro e mais o de meu pai, que foi despachado coronel por ei-rei.

-0 teu pai?! Coronel! ... - como diz.
- Ora essa! ... coronel! Caramba! - disse despeitado. Parecia-lhe inqua a promoo; mas ocorreram-lhe os velhos caprichos anlogos de el-rei; as injustias de algumas patentes superiores desde 1828 at  conveno. E abriu a carta com moderado entusiasmo. Parecia que a sua razo imergida, restaurada depois de duas horas bem roncadas, de papo acima, queria duvidar da autenticidade de um D. Miguel que fazia sargento-mor um pedreiro, e coronel um reles alferes que passara das milcias de Barcelos para infantaria. Achava natural e plausvel em si as charlateiras de general e a coroa de conde; mas as mercs feitas aos dois plebeus... Caramba! Uma intermitncia de juzo. Enfim, abrira a carta e lera para si com uma custosa interpretao, ora aproximando, ora distanciando o papel dos olhos.

90                CAMILO CASTELO BRANCO

A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada, iluminaram-se-lhe os olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do convencimento. Lia coisas que lhe evidenciavam um Sr. D. Miguel autntico, o autor da carta. Conhecia-lhe a letra. Lembrava-se muito bem; era assim; e ento a assinatura -Miguel, Rei- era tal qual. Chegou a um certo perodo que devia impression-lo mais pela mudana sbita que lhe transluziu no semblante. Depois dobrou vagarosamente a carta.

O Zefirino esperava a confidncia do contedo; mas o fidalgo, apesar da nobilitao do sargento-mor, continuava a consider-lo o pedreiro que lhe fizera os canastros e reconstrura as paredes da cozinha. No estava assaz bbedo para confidncias.

- Conta l o que te aconteceu, Zeferino - e, sentando-se, meteu o saca-rolha  botija de Holanda.

O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do rei, as barbas que metiam respeito; pausava como ele os dizeres, dando ao brao direito, com a mo aberta, um movimento compassado. Repetiu, piorados na forma, os elogios que o Sr. D. Miguel fizera ao seu amigo Cerveira; que quando estava a escrever, perguntou se o conde de Quadros tinha filhos.

O fidalgo sentia muita sede. Misturava de meias a genebra com gua aucarada. E ao passo que lhe sorriam as alvoradas do seu mundo fantstico, e as trevas da razo se desteciam, crescia-lhe o interesse na narrativa do pedreiro. Reperguntava pormenores j respondidos. No havia j no seu esprito passageira sombra de dvida. Era o seu amigo D. Miguel quem estava em S. Gens de Calvos; e, se ele fizera coronel o plebeu das Lamelas e sargento-mor o pedreiro, foi decerto com a inteno de o obsequiar a ele, para lhe mostrar com que prazer recebera a sua carta.

-Sua Majestade disse-me que estimava l ver-me com outra carta do senhor conde, enquanto no ia l abra-lo-esclareceu Zeferino.

- Tens de l ir amanh. Aparece cedo. -Pronto, senhor.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                   91

-Mas, se vais para casa, passa pelos Pombais e d parte ao

padre Rocha que preciso falar-lhe hoje  noite ou amanh cedo.

O padre Rocha preferiu vir de manh, antes dos transportes cvicos do tenente-coronel. Repugnava-lhe o brio e professava uma sincera compaixo pelo homem.

Pouco depois do sol-nado, o capelo de D. Andresa estava em Quadros com um grande interesse. Queria salvar o vizinho duma ratoeira armada ao seu dinheiro, ou convencer-se de que realmente o prncipe proscrito estava no concelho da Pvoa de Lanhoso.

Chegara um pouco tarde. O Cerveira Lobo j tinha matado o

bicho copiosamente, um bicho muito antigo, invulnervel, que no se afogava em pouca genebra.

-No h dvida, padre Rocha! C est o homem! exclamou o fidalgo.

"Mau! ", disse consigo o padre, quando lhe apanhou em

cheio as inalaes alcolicas do bafo.

-Ento  certo, senhor tenente-coronel?
- Se me quer chamar o que eu sou, amigo padre Rocha, chame-me general e conde. Veja.

-Oh!, sim? Muitos parabns, senhor conde, muitos parabns!, quanto folgo! -e lia o sobrescrito.

- Pode abrir e leia alto. -Muito boa forma de letra, sim senhor...  do prprio punho do senhor Dom Miguel?

-Leia e ver.  dele mesmo. Conheo a assinatura muito bem. Tal qual, sem tirar nem pr. Vai um copito? - perguntava com a botija inclinada sobre o clice.

-Muito obrigado a Vossa Excelncia. Tenho de dizer a missa  senhora Dona Andresa s dez horas.

-Leia l ento. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se muito sofrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta escrita pra  toa, hem? Bem diz A Nao que ele andava a estudar l por fora.

92               CAMILO CASTELO BRANCO

-Se d licena, leio -interrompeu o padre com impacincia curiosa.

-V l! -e puxou a cadeira e a botija para junto do capelo.

Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e general dos meus exrcitos. Eu, el-rei, vos envio muito saudar. No podeis imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o li escrito no final da vossa mais que todas preciosssima carta.

- Hem? -interrompeu o Cerveira.
- Muito bem - e prosseguiu lendo:

Muitas vezes me lembrou no desterro de onze anos o vosso nome, porque no podia esquecer o de um amigo que to de perto conheci e tanto me acompanhou nas alegrias da minha mocidade.

-Eu no lhe disse, padre, que o rei e mais eu tnhamos feito pndegas rasgadas quando ramos rapazes?

- Sim, senhor, Vossa Excelncia tinha-mo dito. -Ora a tem, eu nunca minto. Ah!, que bambochatas! -e recordava-se com os olhos num espasmo entre a saudade e as iniciativas da borracheira.

-Continuo, se Vossa Excelncia permite. -Ande l... Quem te viu e quem te v, Cerveira Lobo! -disse com tristeza, muito abatido.

Padre Rocha encarava-o com piedade, sentia nsias de abra-lo e dizer-lhe: "Regenere-se! "

-Ande l. Leia, que o melhor est pra baixo.

Logo que cheguei a Portuga@ chamado por amigos de primeira ordem e fui para aqui enviado, perguntei se ainda reis vivo. Alegraram-me com a resposta; mas delicadamente me obrigaram a no escrever a algum, enquanto o triunfo infalvel da

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       93

minha justia dependesse de certas negociaes pendentes entre as naes da Europa e o meu ministro em Inglaterra, o Ribeiro Seraiva, que muito bem deveis conhecer de nome. Tendo eu sido violentamente acusado pelos meus prprios amigos de ter sacrificado os meus direitos aos meus caprichos, submeti-me s deliberaes da junta de Lisboa e por isso vos rido escrevi para vos abraar e chamar para meu lado.

O Cerveira comeou a soluar com a cara coberta de lgrimas que destacavam no rubor da epiderme.

-Ento que  isso? So lgrimas de alegria? -perguntou o

padre. -Se so, deixe-as correr.

- Qual alegria! Estou velho... j no posso fazer nada a favor de el-rei... Este pulso... -e retesava o brao. O padre assustava-se. -Ora leia para baixo, que est a uma passagem muito bonita.

Nunca me esqueceu nem jamais esquecer que reis o tenente-coronel dos meus queridos drages de Chaves; que fostes vs o comandante da carga solene que sofreram as tropas liberais em uma das primeiras surtidas do Porto; e que fostes traioeiramente arrastado pelo infame general Urbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram acabar desonrosamente na Chamusca os ltimos esquadres do regimento de Chaves. Mas vs, honrado Cerveira, ficastes ileso da ignomnia geral, porque rejeitastes o perdo e dissestes que reis um prisioneiro de guerra, e aceitveis as consequncias da vossa posio.

- Foi assim! - exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. - O Saldanha era meu capito quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me chamar  sua presena; que me fizesse liberal, e me entregavam a minha espada; e eu (batia duramente no peito com as mos ambas), eu, padre, eu, aqui onde me v, disse-lhe que levasse o diabo a espada para as profundas dos infernos, que a minha espada tinha-ma dado o senhor Dom Miguel e

que ele me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram estarreci-

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dos; e o patife do Saldanha, que tinha sido um realista de todos os diabos, quando era o gajo da Isabel Maria, chamou-me "estpido". E eu, vai no vai, estive a mand-lo.

Disse o resto. O padre riu~se, e pediu-lhe licena para continuar a leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa. _  Ande l.

Desgraadamente o vosso herosmo e amor  minha causa legtima no foi muito imitado. Eu perdi a coroa, mas a perda maior foi a de amigos como vs, bem poucos, mas que valem um reino.

-Torne a ler esse bocado que  cousa muito profunda,  padre Rocha.

Fez-se-lhe a vontade. O Rocha tambm admirava, e de consigo dizia que o rei tinha bom palavreado sentimental, ou

que o impostor no era qualquer pedao de asno. Continuou:

Vou responder com repugnncia e tristeza s ltimas linhas da vossa carta em que me ofereceis liberalmente recursos,

Eu vivo h doze anos dos benefcios dos meus vassalos: ser loucura fingir que no preciso que mos prestem hoje. A demora que tem havido no meu aparecimento aos meus amigos e

partidrios no ma explicam, mas suponho que  falta de dinheiro, Sei que minha irm, a senhora infanta Dona Isabel Maria, deu cinquenta contos para comear o movimento, e esse dinheiro est em poder de um doutor Cndido Rodrigues lvares de Figueiredo e Lima, lente de Coimbra, Mas o que so cinquenta contos para sustentar uma insurreio em que h-de haver necessidade de sustentar, de vestir e de armar cem mil homens Vs, meu honrado amigo, que sois militar, compreendeis que nada se pode fazer sem que os poderosos, os opulentos, cooperem com a minha boa mana a senhora Dona Isabel Maria.

Dizem-me que tenho amigos muito ricos que ho-de aparecer a tempo; mas eu necessito de preparar a ocasio em que eles

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        95

prometem aparecer.  primeira voz tenho a certeza de levantar doze mil homens num pequeno crculo de lguas; mas no me atrevo a faz-lo, a tent-lo, sem me ver bastante provido de recursos para no recear o pior dos inimigos que  a necessidade. Portanto, muito amado conde, meu valoroso general, aceito o vosso emprstimo; e tomarei da vossa fortuna trs contos de ris que vos recompensarei com o menos, que  o dinheiro, e com o mais, que  a minha eterna gratido, Deus Nosso Senhor vos tenha em Sua santa guarda, De S. Gens de Calvos, aos 12 de Maio de 1845,

Miguel, Rei

Esta carta no confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha. Quando o Cerveira lhe perguntou:

-Que tal? O que dizia ele? -dobrava a carta vagarosamente, encolhia os ombros e respondia:

- Enfim... no sei... -No sabe o qu? L que eu lhe levo o dinheiro, isso levo. Pudera no! Tudo o que eu tiver, at  camisa do corpo. Ou se  amigo ou no se  amigo, hem? Que diz a isto, padre?

-Se quem escreveu esta carta  o senhor Dom Miguel, faz Vossa Excelncia o que deve porque faz o que pode; mas seria bom ter a certeza...

-De que  o rei que me escreve?
- Sim... a prudncia... H muito maroto por esse mundo. -0 padre est ento a ler! Cuida que eu lhe dava o meu dinheiro sem o ver? Hei-de v-lo com estes, e ouvi-lo falar primeiro. Mas deixe-se de asneiras, padre Rocha!  to certo Deus estar no cu como ele estar em Calvos.

- Bem! - atalhou o Rocha apressado, erguendo-se -, quando vai Vossa Excelncia a Calvos?

-Hoje  tera-feira; a roupa chega de Braga na sexta, e parto no sbado. Ora agora, vou l mandar o Zeferino a dizer-lhe que vou beijar-lhe a mo e levar-lhe os trs contos. Se faz favor, escreva-me a duas linhas, s duas linhas, a dizer isto.

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O padre escreveu, e saiu muito preocupado. Celebrou a missa a D. Andresa, e pediu-lhe licena para se ausentar por trs dias. Relatou  fidalga as suas desconfianas, o dever que se impunha de salvar o pobre idiota de alguma cilada  sua imbecilidade, e talvez de um roubo  mo armada.

-Mas quem sabe se  na verdade o Dom Miguel que lhe pede o dinheiro? -reflectia D. Andresa, discreta e sensibilizada.

- o que eu vou saber.

IX

Naquele tempo (1845) no Porto, Rua de S. Sebastio, nmero um, morava o padre Lus de Sousa Couto, palegrafo da Misericrdia. Representava sessenta e tantos anos, uma nutrio doentia, pesado, com os ps trgidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial. Tinha um sorriso lhano, conversava morosamente pausado com admirvel correco; deixava-se interromper sem impacincias e no interrompia nunca os desatinos, massadas, e at as tolices de quem quer que fosse. E ouvia muitas. Este padre obscurecido na sua paleografia que lhe dava oito tostes por dia, naquela asquerosa alfurja chamada Rua de S. Sebastio, com o Aljube  esquerda e as imundicies da Pena Ventosa  direita, era o impulsor, a alma, o crebro do gigante miguelista nas provncias do Norte. A Junta de Lisboa consultava-o. Ribeiro Saraiva enviava-lhe de Londres os elementos para os seus clculos, pedia-lhe conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que o prncipe proscrito o

elegera bispo ou patriarca de Lisboa -no me recordo qual era a mitra.

A sua presena venervel impunha sem artifcio; uma

grande bondade obsequiadora; no proferia palavra ofensiva dos seus adversrios polticos; no aceitava donativos dos seus

correligionrios; vivia com severa parcimnia dos seus oitocentos ris havidos da Santa Casa, e morreria de penria antes de pedir ao Governo liberal a paga dos seus lavores ilustra-

98                    CAMILO CASTELO BRANCO

dos, correctssimos de intrprete de velhos e quase indecifrveis cdices 1.

Ao entardecer do dia 15 de Maio de 1845, o padre Lus de Sousa escrevia a sua correspondncia para Londres. Anunciou-se o padre Bernardo Rocha, perguntando a hora menos ocupada para poder dar duas palavras ao reverendo dono da casa. Foi logo recebido -que todas as horas eram livres para receber os amigos.

Padre Rocha principiou alegando que os seus sentimentos polticos eram bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro realista, e que facilmente daria o sossego da sua vida em sacrifcio das suas convices. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta e a exigir que lhe respondessem a verdade.

-Se a pergunta for feita a mim, no poderei responder doutra maneira. Que quer saber, padre Rocha?

- Se o senhor Dom Miguel est em Portugal. -No, senhor. H quinze dias estava em Itlia. -E, abrindo uma gaveta, extraiu de uma pasta muito ordinria de carneira surrada com atilhos um papel que mostrou. - Aqui est uma

carta assinada pelo senhor Dom Miguel de Bragana, datada no

primeiro de Maio. Quanto a isto, est satisfeito. Que mais quer saber?

- Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta.

- Bem sei - preveniu o padre Lus. - Essa mesma pergunta me fez h dias o Bezerra de Barrimau, seu vizinho, e mais de um cavalheiro de Braga, o Barata, o Manuel de Magalhes, etc. Diz-se por l que o senhor Dom Miguel est no Alto Minho, no

10 autor teve relaes muito saudosas com este venerando sacerdote, que em 1851 residia num antigo casaro da Rua de Santo Antnio, que depois se

transformou em casa de banhos. Por esse tempo, se congregavam ali os homens eminentes, por inteligncia e haveres, do partido realista. Neste ano, padre Lus de Sousa passava os seus dias rodeado de pergaminhos, imobilizado em

uma poltrona, gemendo as dores da gota. Morreu muito pobre e muito desam-

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        99

concelho da Pvoa de Lanhoso. Propalam-no certos padres, no sei com que alcance. A estupidez tem intuitos impenetrveis. no percebo para que fim espalham to absurdo boato, se no  para alarmar o Governo ou lograr incautos...

- isso mesmo: lograr incautos -interrompeu o Rocha, e contou o que se estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta do suposto D. Miguel e o emprstimo dos trs contos, que o fidalgo tencionava levar no prximo sbado ao impostor.

-Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e oprbrio ao

partido legitimista -alvitrou o palegrafo.

-Eu no o podia fazer sem a certeza de no praticar alguma imprudncia. Para isso vim consultar o reverendo Lus de Sousa, e daqui irei para Braga entender-me com o governador civil.

-Faz bem. No lho aconselharia, se pudssemos dar remdio mais suave  doena desse miservel impostor, de quem eu

sei mais algumas traficncias. Constou-me h poucas horas que umas beatas de Braga, abastadas, e de apelido Botelhas, tinham enviado uma importante quantia, por intermdio de um certo abade, a um Dom Miguel que est escondido em Portugal. Eu podia dar aviso desta ladroeira; mas tenho compaixo do abade: no sei se ele  ladro ou tolo. A segunda hiptese  que o salva de ser processado. Portanto, amigo padre Rocha, faz um bom servio  humanidade e ao partido, solicitando o castigo desse homem que conspurca o nome de el-rei e a honra do partido. Agora, visto que veio, vou dizer-lhe o que h. Saraiva trata de contrair um emprstimo e de negociar generais, que infelizmente precisamos. O Pvoas est decrpito e quase morto para a nossa f desde Souto Redondo. As patentes superiores, pela maior parte, esto em pessoas que regulam pela inteligncia do seu amigo tenente-coronel de Quadros. H por a outros que aprenderam a tctica da covardia desde o cerco do Porto. Mal podemos contar com eles, quando os vemos intervir nas faces dos liberais a fim de abrirem brecha na mesa do oramento com as espadas postas em almoeda. No ano prximo futuro, o partido legitimista deve dar sinais de vida; se esses sinais ho-de ser

100             CAMILO CASTELO BRANCO

como os do cadver galvanizado que se convulsiona e recai na sua podrido, isso no sei. O senhor Dom Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre Rocha, que el-rei est em

Inglaterra, prepare-se com a sua energia para nos dar o muito que esperamos da sua influncia e do seu afecto  legitimidade. E adeus que sai depois de amanh de Lisboa o paquete: estou escrevendo ao nosso Ribeiro Saraiva.

O secretrio-geral governador civil interino de Braga, na ausncia do conselheiro Joo Elias -uma vtima burlesca de troa dos setembristas -, era o Marques Murta, uma gigantesca actividade frentica num corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com a bossa da perspiccia poltica muito saliente. De resto, servial, agradvel, com uns requintes de delicadeza de bom tom.

O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos sucedidos e a necessidade de no deferir a priso do impostor at alm do dia seguinte, porque no sbado saa de Quadros o Cerveira Lobo com os trs contos.

- Talvez fosse mais curial e exemplar prend-lo depois, e

entrar com os trs contos no cofre do distrito, visto que o Cerveira os quer aplicar s necessidades da monarquia -opinou o

secretrio, sorridente.

O padre no percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos j no podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome de de D. Miguel 1 ou de D. Maria.".

-  V descansado -emendou a autoridade com o seu sorriso inteligente, habitual. -Se o homem estiver em Calvos, amanh a esta hora h-de estar na cadeia de Braga.

Pela meia-noite deste dia saiu do quartel do Ppulo uma escolta de Infantaria Oito, que chegou a S. Gens ao apontar da manh. Era guiada por um prtico sabedor das avenidas da residncia abacial, um scio convertido e aproveitado da quadrilha

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       101

de ladres que devastara o concelho da Pvoa em 34, e saboreava agora na polcia secreta uma qualquer prebenda honestamente ganha. Ele disps a soldadesca  volta da casa, debaixo das janelas, rente ao muro do passo, e mostrou ao sargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do arvoredo se esvoaou piando, alvorotada pelo estrondo das coronhadas  porta principal, e uns berros formidveis:

- Abra!, abra!, seno vai dentro a porta!
O abade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um cordo de soldados, a olharem para as janelas, e

com as baionetas nas espingardas. Correu descalo para a sala contgua  alcova do hspede, e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as calas, quase s escuras, com a respirao ansiada.

-Que ? - regougou o homem numa estrangulao de susto, muito ofegante.

-Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder Vossa Majestade na adega antes que arrombem a porta.

As coronhadas e as intimaes ameaadoras repetiam-se. Uma algazarra de inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A Senhorinha, muito esganiada, expectorava agudos ais na cozinha; no acertava a enfiar o saioto pelo direito. Os ces de Castro Laboreiro, muito ferozes, arremetiam s portas com a dentua refilada. Porcos grunhiam dando bufidos espavoridos. A moa dos recados chamava a sua Me Santssima e a alma da tia "Jacintra do ReimundIes" que estava inteira na

igreja. Dois criados da lavoura, estranhos ao segredo do real hspede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha prender; enterraram-se nos fenos do palheiro, prometendo esmolas de quartinho ao Bom Jesus do Monte e ao "martire So Trocatles", se os livrassem daquela. Entretanto, o outro, de chinelos de tapete, guiado pela mo do abade at  cozinha, passou daqui para a adega que a criada abriu com muita subtileza. Havia l dentro um recanto encoberto por duas pipas vazias, postas ao alto; pela convexidade das aduelas e entre as pipas e a pa-

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rede, abria-se um vcuo onde cabia  vontade um homem. O abade muito aflito:

-Suba depressa Vossa Majestade, que eu ajudo, para cima das pipas e deixe-se escorregar pr lado de l. Cosa-se bem com a parede; se vierem revistar, no se bula, no se bula, senhor!

O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com

as costas pela parede, as teias de aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam, enrodilhavam-se-lhe viscosas ao nariz e aos beios. Ele sacudia-as, cuspinhava com nojo, queria acocorar-se, mas no cabia. Ouvia rojos de ratazanas por debaixo das pipas, e l fora o rodar das portas que se escancaravam com estridor.

Em cima, o sargento e trs soldados entraram e examinaram

vagarosamente os quartos e recantos.

-Senhor abade, ponha prqui o rei -disse o sargento, um

farsola, o Plula do Oito -, queremos o rei e algumas botijas de genebra. A garrafeira da casa real deve ser cousa muito rica! Venha primeiro o senhor Dom Miguel que lhe queremos fazer uma sade.

-0 senhor est a mangar! -disse o abade afinando pelo tom da chalaa. -Genebra, se a querem, dou-lha; mas a respeito de rei, s lhe posso dar o de copas, que tenho ali um.

-Pois sim, traga o rei de copas, e no ser mau que ponha em guarda tambm o s do mesmo naipe.

- D-se-lhe j duas biqueiras neste padreca, 6 meu sargento! - props o vinte e quatro.

- Deixa ver se a cousa se arranja sem biqueiras. Ande l, senhor abade, vamos  genebra  adega. Mexa~se.

-A genebra est c em cima -observou o abade um pouco enfiado.

Mande-a ir pra baixo, que  mais fresco. Mexa-se, mexa-se que temos pressa. Abra a porta da adega.

-Sim, senhor, abro tudo o que vossemec quiser -resoluto, com um ar irnico de condescendncia, sem receio. -Os senhores tm cousas! Onde diabo procuram, o senhor Dom Miguel! -e descia, pedindo a chave  Senhorinha.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                     103

A criada demorava-se a procur-la, a fingir; e o sargento:
- Se se demora, 6 santinha, vai dentro a porta!  vinte e

quatro, vai buscar um machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado!

- No  preciso, camarada - acudiu o abade. - Aqui est a

chave. Eu abro. Entrem, procurem  vontade.

O sargento parou  porta a familiarizar-se com a escassa luz da adega:

-  padre!, isto aqui  que  a sala do trono? Ou  o subterrneo da Inquisio? Mande l acender uma candeia, se no tem um archote.

-  mulher, traz da uma placa acesa -disse o abade Marcos, contrafazendo o seu terror.

E o homem, l dentro atrs das pipas, tiritava como Heliogbalo na latrina, seu derradeiro refgio.

A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortio de cebo com morro que parecia condensar mais as trevas da lbrega caverna.

- Arranja a um fachoqueiro de palha,  catorze! Que raio de placa voc c traz, mulher!

- enquanto no pega bem a torcida -explicou a criada caminhando atrs do padre para o lado oposto ao esconderijo. Com efeito, a claridade difundia-se, mas to devagar que ningum diria a velocidade que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados batiam com os ns dos dedos nos tampos das pipas, que toavam o som abafado de cheias.

E o catorze: - meu sargento, o tanso do abade casca-lhe rijo no verdasco! Esto cheiinhas!

E apontando para as duas pipas vazias do canto, o sargento perguntava se o vinho daquelas j lhe tinha cado na sacristia - e dava piparotes na barriga do padre.

O abade tinha uns sorrisos plidos, comprometedores como

uma denncia. O vinte e quatro escutava e dizia que a modos que ouvira mexer cousa atrs das pipas!

104               CAMILO CASTELO BRANCO

- H-de ser ratos -conjecturou o abade, trmulo, engasgado.

- Palpa com a baioneta por trs das pipas,  vinte e quatro! - disse o sargento.

Assim que o ao da baioneta raspou na parede, a Senhorinha comeou a dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos.

-Que diabo tem a velha?! -perguntou o Plula. - Do-lhe estupores, hem?

- flato, costuma-lhe a dar-elucidou o abade. O vinte e quatro voltara-se a ver a velha escabujar, e retirara a baioneta de trs das pipas. O abade teve um momento de esperana, cuidando que o exame estava feito:

-Tem visto, senhor sargento? Aqui no h nada. Os senhores vieram enganados a minha casa -e caminhou para a

porta com a luz.

- Espere a, seu padre! Anda-me com a baioneta, vinte e

quatro. Escarafuncha-me esses ratos.

O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as baionetas resvalaram por corpo que lhes abafava os tinidos metlicos das pontuadas, ouviu-se um grande estrupido de cousa que trepava pelas pipas. E nisto apareceu uma cabea com enormes barbas sobre um dos tampos.

- Oh! - bradou o Plula! -, muito bem aparecido nesta funo, senhor Dom Miguel! Suba pra cima desse trono e d l de cima um bocado de cavaco s tropas! Mas o melhor  descer c pra baixo, real senhor!

O vinte e quatro, muito espantado, a olhar para a cabea do homem:

-Parece o padre eterno,  meu sargento!
- Com quem ele se parece  com o Remexido do Algarve -afirmava o catorze. _ Desa da que ningum lhe faz mal, homem. Est preso  ordem do governador civil -concluiu o sargento com seriedade imponente.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        105

-Este senhor?... No...-disse o abade com as mos postas 1.

-No seja asno! -volveu o sargento. -Este homem no  Dom Miguel.  um falante que o est aqui a comer a voc e mais aos patolas da sua laia. V-lhe buscar a roupa, seno ele entra na escolta em mangas de camisa.

- D licena que este senhor se v vestir ao seu quarto -suplicou o abade.

- Sim, que se arranje com guardas  vista. - E acompanhou-os  saleta.

Quando envergava o casaco de pano piloto, o abade disse-lhe, com um gesto, que o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas

algibeiras do palet.

O sargento perguntou que papelada era aquela que estava sobre a mesa. Leu a primeira folha, e desatou a rir e a dizer ao barbaas:

-Olha que grande pndego voc ! Voc como se chama,  seu cousa? E leu alto:

Rol das mercs que Sua Majestade o Sr. D. Miguel fez em Portugal e que se descrevem neste livro de apontamentos provisoriamente.

E na primeira pgina:

Marcos Antnio de Faria Rebelo, abade de S. Gens de Calvos, capelo-mor de el-rei e dom prior de Guimares.

E perguntava ao abade:

1 So as textuais palavras a a atitude do padre, significativas da crena entranhada na realeza do preso, e da sua paixo naquele lance. Parece que intentava mover  piedade a escolta, increpando-a pela profanao de pr mos no

rei legitimo. (Informao de Ferreira de Andrade.)

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-Este rato deste dom prior  voc, hem ? Parabns! Em seguida:

Torquato Nunes Elias, visconde de S. Gens, secretrio privado de el-rei.

- Torquato Nunes! -recordava o Plula. -Eu parece-me que conheo este diabo de o ver em Braga no Caf da Aucena, na Cruz de Pedra. Nunes!, um pelintra. Onde est o visconde que lhe queria dar um cigarro? Enfim c levo a papelada para Braga -e enrolava os papis. -A gente precisa conhecer os titulares novos para os respeitar e acatar, amigo dom prior de Guimares.

Quando a escolta se formou fora do porto e o preso entrou ao centro, com a fronte majestosa, abatida e os braos cruzados, levantou-se na residncia um choro como  sada de um defunto querido. Eram a cozinheira e a outra criada, num arrancar de soluos, enquanto o abade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas mos. O povo da aldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as rvores e de trs das paredes. O Torquato Nunes Elias, acordado pela mulher que recebera a nova da priso, saltara da cama, e correra  residncia, perguntando ao abade se el-rei tinha levado as peas das Botelhas de Braga.

-Que sim, que levara; pudera no levar!
- Pois ento, abade, empreste-me a meia moeda, que eu vou disfarado a Braga ver o que se passa. Estou sem vintm.

-Veja l se o prendem, visconde -acautelou o abade. -0 meu dever  seguir a sorte de el-rei! Onde ele morrer, morro eu!

X

O Cerveira Lobo sara, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de manh. Estariam aqui at  madrugada de sbado, e

partiriam ento para a Pvoa de Lanhoso com os trs contos de ris repartidos em libras pelas algibeiras dos dois. Alm dum criado de velha libr, avivada de azul, de botas de prateleira e

chapu de sola, levavam bacamartes nos ares dos selotes, todos trs. Foram descansar e jantar  hospedaria dos Dois Amigos. O Cerveira vestia casaca no trinque muito lustrosa, e gravata de cambraia com lao; o peitilho postio atado ao pescoo saa muito rijo de goma reles dentre as lapelas derrubadas do colete de veludo preto. A cala de pregas, ampla,  cavalaria, afunilava-se no artelho, quebrando no peito do p. As botas de polimento novas rangiam e as esporas amarelas no taco, com grandes rosetas, tilintavam num estardalhao de caserna. Comprara chapu de pasta com molas que faziam saltar a copa, e enchiam

como uma bexiga, que parecia "pantominice das comdias", dizia o Zeferino.

s quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se  mesa redonda. J constava em Braga que estava ali o Cerveira Lobo que desde 1835 no sara da casa-solar de Vermoim. Alguns primos visitaram-no; as famlias legitimistas e

principalmente senhoras velhas mandavam-lhe bilhetes.

Dizia ao Zeferino que o incomodavam tantas etiquetas, que estava morto por se safar, no estava para lrias; que as tais senhoras Sottomayores e as Peixotas e as Meneses deviam ser

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mais velhas que a s, uns estafermos. Ele segredava ao ouvido do Zeferino cousas, ratices suas em Braga, quando era rapaz. Que fizera um destroo nas primas, tudo pelo p do gato. Que pagara bem o seu tributo  asneira; e casquinava com vaidade paparreta, carregando-lhe a mo no verde. Quando entravam pelo assado, chegou um tenente do Oito a contar a um amigo, que estava  mesa, que chegara naquele momento preso ao Governo Civil, vindo da Pvoa de Lanhoso, um maroto que dizia ser D. Miguel, e ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia trs anos, que se parecia bastante com ele.

O Cerveira erguera-se num grande espanto indiscreto a olhar para o oficial, que o fixava com uma curiosidade irnica. Convergiram todos os olhares para o homem das barbas respeitveis. Quedou-se momentos naquele espasmo, num trmulo, e perguntou:

-E  com efeito o senhor Dom Miguel esse homem que chegou preso?

- Ele diz que  - respondeu o tenente. - Veremos o que se averigua no Governo Civil.

- Na falta do verdadeiro Dom Sebastio, apareceram trs falsos -disse enfaticamente um professor de latim, com um sorriso pedante. O Cerveira olhou-o de esconso, e saiu da mesa, seguido do Zeferino, muito enfiados ambos.

-Est tudo perdido! -disse dolentemente o fidalgo. - El-rei preso! ... E no se levanta este Minho a livr-lo! ... Vamos v-lo, quero ver se lhe posso falar. Dentro de trs dias entro em Braga com dez mil homens e arraso a cadeia.

Fez saltar a copa do chapu de molas e saiu para a rua, a bufar.

O campo de Santa Ana parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas Bragas-a fiel, a caipira, pletrica de fidalgos, de grandes proprietrios, cnegos, de chapeleiros e da clerezia mida; a liberal, muito anmica, encostada ao Oito de Infantaria, toda de bacharis e empregados pblicos, o Manso, o Melo Cavaco, o Mota, o Rocha Veiga, o Alves Vicente; negociante de tendas mesquinhas, professores, muito retricos, o Capela,

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       109

que ensinava francs, o Pereira Caldas soneteiro e polgrafo, o velho Abreu bibliotecrio, lacrimoso, o Pinheiro, muito grande, filsofo sensualista, mas bom vizinho, todos  volta do Monte Alverne, um cnego muito assanhado que foi, meses depois, comandante da brigada dos Seresinos.

Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar asseado com muito lustro, e o bater metlico, patarata, das esporas. Abriram-lhe passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcelos do Tanque, os Magalhes, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gema daquele enorme ovo realista, chocado no seio da religio da Carlota Joaquina, do conde de Basto e do Teles Jordo. O Cerveira perguntava aos seus:

-  ? - uns encolhiam os ombros, outros negavam gesticulando. E ele, com intimativa: -Pois saibam que !

O Manuel de Magalhes dizia ao ouvido do Henrique Freire:
- Deixa-o falar, que est idiota.
O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fora capito de cavalaria, com um bizarro sorriso de corte e ademanes duma seleco rara:

-Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, no h-de estar ao alcance da canalha. Descanse vossncia.

Os janotas acercavam-se, desfrutadores, do Cerveira. Eram o Russel, o Antnio Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva Brando, o D. Manuel da Prelada, o D. Joo da Tapada, o Antnio Lus de Vilhena, um louro, muito enamorado, com uma rosa-ch na lapela da casaca azul com botes amarelos.

Da a pouco fez-se um torvelinho de povo  porta do Governo Civil. A soldadesca afastava a multido com frases persuasivas de coronha de arma. Formou-se a escolta, e o preso saiu, de rosto levantado e afoito,'para a multido. Cerveira Lobo fitava-o com uma ansiedade aflitiva -que se parecia... e ia jurar que era ele! -quando um realista convencionado e que estava no

grupo, o major de Vila Verde, disse com um desdm de achincalhao:

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-Olha quem ele ! Ch, que traste! Que grande mariola! Forte malandro!

- Quem ? Quem ? -perguntavam todos. - o Verssimo, foi furriel da minha companhia, andou com o Remexido, e safou-se de Messines com o pr dos guerrilhas.

O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe  orelha: -Ouviste,  Zeferino ? -Estou banzado! -murmurou o outro. -Olha que espiga! Trs contos! Hem ? -Raios parta o diabo! -disse o pedreiro, numa sntese condensada da sua incomensurvel angstia.

Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o de parte e dizia-lhe:

-Est desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder  confiana de Vossa Excelncia, impus-me o dever de o salvar dum roubo de trs contos, e da vergonha de ser logrado por um

impostor. O maior servio que podemos fazer ao senhor Dom Miguel  entregar  justia um infame que se serve do seu sagrado nome para roubar os amigos do augusto prncipe. Senhor Cerveira, v para sua casa; e, quando eu lhe disser que  tempo, ento desembainhar a sua espada.

O Cerveira, abraando-o:
- Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os h...
O Verssimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte foi transferido para a Relao do Porto.

O nome e apelidos que ele deu no Governo Civil eram verdadeiros: Verssimo Borges Camelo da Mesquita 1.

'Segundo as informaes textuais do j referido Jos Joaquim Ferreira de Melo e Andrade, o dilogo da autoridade e do preso correu assim:

"Sendo apresentado ao governador civil e respondendo a vrias perguntas disse:

Que era das imediaes de Vila Real, em Trs-os-Montes, e um dos amnistiados em vora Monte, na qualidade de sargento do exrcito realista;

A BRASILEIRA DE PRAZINS                     111

Tinha nascido em 1806 em Alvaes do Corgo, no Douro.
O pai chamavam-lhe o Norberto das Facadas, quando j era velho, e meirinho geral da comarca, em Vila Real. Uns diziam que a alcunha Facadas lhe vinha de ter esfaqueado a mulher por cimes; outros, de ter levado trs facadas, na Campe, quando pusera cerco a uns salteadores que pernoitavam na estalagem

Que numa surtida que fizeram os do Porto fora ferido num quarto por uma

bala, ficando um pouco coxo: mas que no deixara ainda assim o servio;

Que achando-se no ltimo Carnaval no lugar de S. Gens, ali tornara parte nos folguedos do povo com o abade da freguesia, o qual o convidara no fim para

sua casa;

Que o tratara muito bem, e que, passados alguns dias, lhe dissera, depois da ceia, de uma maneira muito recolhida e sonsa: que desconfiava ter em sua

casa Sua Majestade EI-Rei o Sr. D. Miguel I (porque ele era em tudo um facsmile);

Que nem lhe negara, nem confessara, @nas que, passados dias,  mesma hora, lhe repetira aquela suspeita; porm que ainda dessa vez lhe respondera com uma evasiva.

Autoridade Que utilidade tirava em manter o abade nessa iluso?

Preso (cnico) Que a tirava toda, porque s assim podia continuar no gozo da comodidade que se lhe oferecia;

Que da por diante lhe ficara dando o tratamento de "Majestade", como

coisa decidida, e lhe revelara o desejo de que o elevasse  dignidade de seu capelo-mor, ao que anura;

Que, passados alguns dias, lhe propusera a admisso  sua presena nocturna e clandestina dalguns eclesisticos e tambm seculares, consumados realistas, no que concordara;

Que desse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noite, um

at dois por vez, pedindo-lhe todos, depois de lhe beijarem a mo, comendas, benefcios, lugares civis, postos militares e at prelazias -o que ele tudo lhes concedeu de bom grado.

E depois?

Autoridade

Preso

Depois? Que l se aviessem, porque o seu fim era conservar aquela cmoda situao, maxime quando as suas finanas estavam no maior apuro."

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daquela aldeia, nas vertentes do Maro. O certo  que a quadrilha tinha sovado os aguazis, e o comandante da diligncia, o

meirinho geral, recolhera  vila em uma padiola.

Norberto Borges Camelo tinha pedra de armas na casa de Alvaes, uma edificao do sculo XVII. Dava-se como descendente do bispo do Algarve D. Joo Camelo. Contava a origem do braso da sua casa, concedido ao seu sexto av, Lopo Rodrigues. Habituado a contar aos juzes de fora e corregedores da comarca o facto provado por incontestveis pergaminhos, era

convidado muito a mido desfrutadoramente  exposio herldica do seu escudo, que ele fazia numa toada montona de quem

' Nota erudita: a histria, alis exacta, que o fidalgo de Alvaes contava, acha-se nos Nobilirios, e est gravada no escudo desta famlia. Lopo Rodrigues Camelo foi moo da estribeira de el-rei D. Sebastio, e muito querido do seu

real amo. Viajara muito e era primoroso em pontos de cortesia. Uma vez acompanhara o rei a Coimbra; e, na passagem de S. Marcos para Tentgal, encontraram a ponte do Mondego cada. O rei quis passar a vau, e o estribeiro observou-lhe que o passo ali era perigoso. D. Sebastio redarguiu: "Ento passai vs primeiro. " - "Se Vossa Alteza me engana ", volveu o corteso, " ditoso engano  esse." E, metendo-se  vala espapada de limos e lodo, submergiu -se a

ponto de ficar s com a cabea e um brao de fora. Ei-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mo, e tirando-o com valente pulso para a margem. Lopo Rodrigues, a fim de que os seus descendentes lessem este caso no mrmore do seu braso de ar- mas, pediu a el-rei que lhe mandasse reformar o escudo em lembrana de tal sucesso.

E assim lhe foi debuxado o escudo:

Em campo verde uma ribeira de praia ondeada. Desta ribeira emerge um

brao vestido de azul, do qual pega outro vestido de brocado com letras de negro que dizem, REI. Este brao real sai da banda direita do escudo; na esquerda est uma estrela de ouro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flor de liz de ouro. Timbre o brao vestido de azul com a estrela nos dedos.

A carta foi registada no Livro dos Privilgios, no ano de 1574. Marcial fez rir os Romanos  custa de um genealgico esquadrinhador de tal casta, que, no tendo j humanas geraes que espanejar do lixo dos sculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de um cavalo chamado HerPino. Passarei tambm s coudelarias quando o braso subir da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados s bestas elegantes.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        113

O Verssimo era Mesquita pela me, que no conhecera. Tambm florira da cepa ilustre dos Mesquitas de Vilar de Maada; mas o Norberto, achando-a em flagrante adultrio com um

primo Pizarro, anavalhou-a mortalmente, escondeu~se, fugiu

com o Junot no regimento do conde da Ega, e, quando voltou, estava esquecido o caso.

Em 1827, o Verssimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a jurisprudncia. Era bom estudante, aplicado e srio. Em 28 teve uma vertigem poltica. Fez-se caceteiro do partido dominante, quis atacar na Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores assassinos. Perdeu o hbito de estudar e a compostura de que fora exemplo. Em 29, abandonou a Universidade e assentou praa em infantaria. Quando o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Em uma das primeiras surtidas dos liberais, foi ferido em uma perna; e, apesar de coxo

levemente, no quis a baixa nem a reforma. Era um bonito homem, rosto oval, olhos de rara beleza, nariz ligeiramente aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de D. Miguel, aperfeioado pelo desaire de coxear.

Depois da conveno, Verssimo Borges recolheu a Alvaes de Corgo, onde encontrou o pai num grande abatimento de tristeza e de recursos. A sua lavoura de vinho era pequena. Privado do ofcio e malquisto como ladro, o representante de Lopo Rodrigues socorria-se  beneficncia de uma irm, a D. gueda, viva dum major de milcias que morrera no ataque ao forte das Antas. O convencionado, naquela estreiteza de meios, quis voltar  fileira, mas o pai negou-lhe a licena, arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e citava-lhe as cortes de Lamego. O Verssimo, argumentando contra estas cortes, alegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em

vez das velhas instituies de Lamego, os modernos presuntos da mesma cidade.

O Norberto gabava-se de que, na sua gerao, Camelo liberal no havia um s, e que a sua maldio pesaria como chumbo derretido sobre a cabea do filho que perjurasse a bandeira do trono e do altar.

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A tia gueda, a viva do major, tinha pouco. Desde 1828 at 1833 gastara seis mil cruzados em festejar os natalcios e as vitrias do Sr. D. Miguel com banquetes e iluminaes que duravam trs noites, num delrio de bombas reais e foguetes de lgrimas, com adega franca. Mandava cantar Te Deum na igreja de Alvaes assim que no pas vinhateiro soava a notcia de alguma vitria do exrcito fiel. Ora, os realistas, a contar por cada Te Deum de Alvaes, entravam no Porto s quinzenas para sarem por uma barreira e voltarem logo pela outra. D. gueda comeava a desconfiar que o Deus de Afonso Henriques voltara

a casaca.

Restava-lhe pouco; mas no queria que o Verssimo se fizesse malhado. Sacrificou-se  honra da famlia, levou-o para casa, deu-lhe mesa farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de papo acima, tocando flauta, a tresfegar em si o resto da garrafeira. Aconselharam-na que ordenasse o sobrinho, visto que ele j tinha exames de latim e lgica. O Verssimo disse que sim, que queria ser padre. Tinha-se esclarecido nos encargos do ofcio, observando a vida sossegada e farta dos procos. Um seu parente, o abade de Lobrigos, tinha liteira, parelha de machos, matilha de ces e hspedes na sua residncia episcopal. Outros, com menos rendas, eram ainda invejveis; um viver espapaado em doce moleza, inofensiva, com grande estupidez irresponsvel, um regalado epicurismo. Verssimo achou que, se

no pudesse ser bom padre, havia de pertencer  maioria; e, se

desse escndalo, um de mais ou de menos no perturbaria a

ordem das cousas. Os seus amigos e parentes abundavam no di_ lema.

D. gueda fazia concesses  fragilidade do clero; que seu

sexto av tambm fora bispo e pai de sua quinta av, por Camelos. O parente abade de Lobrigos, em confirmao das preclaras linhagens de coitos sacrlegos, afirmava que a serenssima Casa de Bragana descendia de padres pelo pai de D. Nuno lvares Pereira, que era prior do Crato, e pelo av, o padre Gonalo, que fora arcebispo de Braga; e que os condes de Vimioso e Atalaia, e todos os Noronhos oriundos de certo arcebispo muito de-

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vasso de Lisboa, e muitas outras famlias da corte descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Verssimo no futuro do sacerdcio. Queria ser abade, ressalvando tacitamente certas condies a respeito dos rebanhos e particularmente das ovelhas.

Em Outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta anos: sentia o crebro moroso na digesto da teologia, andava enfastiado e

triste. Acaso encontrou um camarada, sargento do mesmo regimento, o Torquato Nunes Elias, que andava a estudar para procurador de causas. Eram inseparveis, identificaram-se numa intimidade de tasca e de alcouce. O Verssimo nunca mais abriu compndio nem o outro um processo. D. gueda mandava regularmente a mesada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa.

Em 1836 apareceu no Algarve a poderosa guerrilha de Jos Joaquim de Sousa Reis, o Remexido, em S. Bartolomeu de Messines. Os dois ex-sargentos alvoroaram-se com a notcia e resolveram apresentar-se ao formidvel caudilho. Verssimo pediu  tia uma quantia mais avultada para pagar as ltimas despesas do sacerdcio. A velha mandou-lhe o preo de uma vinha vendida

e a sua bno. Os aventureiros partiram para o Algarve. O general recebeu-os nos braos, e deu-lhes divisas de capites. Verssimo Borges escreveu ao pai, a dar-lhe parte do seu herico destino: que advogasse a sua nobre causa na presena da tia gueda, e lhe dissesse que ele no podia largar a espada vencida enquanto visse no campo brilhar o ferro de um realista. Que o

general Sousa Reis estava destinado a repor o Sr. D. Miguel I no

trono, ou ser o ltimo a morrer em sua defesa; que ele e um seu amigo e camarada tinham sado de Braga juramentados a morder o p onde casse o seu general. Que eram j comandantes de companhias, e tinham duas carreiras abertas - uma que levava  glria, outra  sepultura - que tambm era uma glria morrer

pela ptria.

Jos Joaquim, o Remexido, era um bem figurado homem de trinta e oito anos. Nascera em Estmbar, estudara para clrigo no seminrio de Faro, e distinguira-se em perspiccia e subtileza na percepo das teologias. O amor inutilizou-lhe o talento aplicado a um pacifico e humanssimo destino. Viu uma esbelta

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moa de S. Bartolomeu de Messines quando a foi pregar um sermo, sendo minorista. As serenas vises do levita deslumbrou-lhas a formosa algarvia. No hesitou entre o amor da humanidade e o culto egosta da famlia. Casou, e de homem estudioso e contemplativo, volveu lavrador, lidou rudemente nas searas, e redobrou de esforos  proporo que os filhos lhe multiplicavam o amor e os cuidados.

Insensivelmente compenetrou-se da paixo poltica. Nesta provncia, onde em 1808 estalou o primeiro grito contra o do~ mnio francs, a liberdade proclamada em 1820 abriu um abismo entre duas faces que por espao de dezoito anos se despedaaram. Jos Joaquim de Sousa Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas e ms ideias, e manifestou-se em
1823 um ardente sectrio das ms, perseguindo os afeioados  revoluo do Porto. Em 1826 emigrou para Espanha, e voltando em 1828 extremou-se entre os aclamadores do rei absoluto. Da em diante, receoso das retaliaes, no teve mais uma hora de remansoso contentamento nem abriu mo da espada to afoita quanto cruel.

Logo que o duque da Terceira aportou com a diviso expedicionria s praias da Lagoa, em 24 de junho de 1833, Sousa Reis com alguns cmplices, foragiu-se nos recncavos do Penedo Grande, cujas veredas montanhosas conhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flor dos anos, inculpados das paixes de seu pai, fiados na generosidade dos vencedores e na prpria inocncia. A vingana fez represlias na famlia do fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa, depois do roubo e do incndio da sua casa de Messines. O leo, como se ouvisse bramir os cachorrinhos, nas garras do tigre, irrompeu da caverna, precipitou-se dos penhascais  frente da sua alcateia, e atacou Estmbar com irresistvel mpeto. Estava a a sua famlia sob a presso das baionetas que a vigiavam como armadilha  queda do guerrilheiro; mas a tropa no pde resistir  fria de pai. Ele atirava-se s descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho. Os inimigos que o viram nesse dia conservaram longo tempo a lembrana da sua catadura transfigurada pela desesperao.

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E todavia era um homem gentilssimo. Depois, senhoreou-se de povoaes importantes do Algarve e estendeu at s fronteiras do Alentejo os seus domnios. Moveram-se contra ele muitos regimentos de primeira linha e de batalhes da Guarda Nacional. Ele tinha adoecido de fadigas incomportveis, e descansava com algumas centenas de homens num desfiladeiro da serra, chamado a Portela da Corte das Velhas. a o atacou uma coluna de Caadores Cinco. O Remexido, afinal, faltou-lhe a coragem de se fazer matar. Viu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as baionetas. Deu-se  priso, e cinco dias depois era arcabuzado em Faro.

O regimento em que eram capites o Verssimo e o Nunes dispersou, e eles, claro , fugiram  maneira dos muitos discretos e bravos generais de que rezam os fastos militares.

O pr das guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatela ridcula, que no merecia a pomposa qualificao de ladroeira. Como no tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre nas algibeiras.  o que foi, e a histria no pode dizer outra cousa. Queria talvez o major de Vila Verde, o denunciante de Braga, que eles andassem  cata das praas dispersas pelas montanhas, a repartir os quatro vintns dirios e o vintm do muncio!

Verssimo foi para Alvaes e Nunes para S. Gens. O Norberto morreu por esse tempo duma congesto cerebral; algum diz que o esganaram na cama dois malhados de Lobrigos contra os quais ele tinha jurado em 28. D. gueda recebeu o sobrinho carinhosamente. A herana do pai estava empenhada; foi  praa; sobejaram uns novecentos mil ris e a casa com as armas, pagas as dvidas. O Nunes dizia-lhe da Pvoa que andava por l miservel, um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo de feijes e o tratava como um co vadio. Que, depois da partida do Algarve, no tinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem tinha que vestir. O Verssimo chamou-o para Alvaes com generosidade. Vestiu-o, e dava-lhe meios para ele poder estudar em Vila Real, com advogados miguelistas, que o estimavam muito.

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A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do Sr. D. Miguel das iluminaes, que se parecia muito com o sobrinho.

No Inverno de 1840, D. gueda morreu de uma indigesto de castanhas, complicada com enterite crnica e saudades da realeza. Deixou ao sobrinho a casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do Sr. D. Miguel s freiras de Santa Clara de Vila Real e mais dez moedas de ouro com a condio de lhe acenderem quatro velas de cera no dia dos anos de Sua Majestade.

Verssimo viveu ento largamente. Fez-se chefe de partido nas redondezas de Alvaes do Corgo, onde era conhecido pelo "capito Verssimo". Deitou cavalo e mochila; jogou rijo dois anos na Feira de Santo Antnio em Vila Real, e perdeu tudo. O Nunes, que j solicitava causas na Pvoa, repartia com ele dos seus proventos muito escassos, porque o juiz e os escrives faziam-lhe guerra implacvel, e as partes fugiam dele.

O Verssimo saiu de Alvaes, onde no possua palmo de terra; e, como tinha boa forma de letra, ofereceu-se para amanuense a um tabelio de Alij. Ganhava trs tostes por dia e

jantar. Como era boa figura, a mulher do tabelio, uma trigueira de m casta, entrou a compar-lo com o marido, que tinha os

dentes muito lurados e os olhos tortos. Mas o tabelio viu as cousas pelo direito, e ps o amanuense na rua, e a mulher em lenis de vinho, dizia-se. Verssimo conhecia o capito-mor de Mura, o Campos, um hebreu realista, muito abastado. Ofereceu-se-lhe para escudeiro e foi aceite com bom ordenado. O capito-mor era vivo; mas tinha uma governanta fresca, duma fome de pecado irritada pela indiferena judaica do amo em matria de religio. O Verssimo tinha a fatalidade femeeira do seu ssia, do Sr. D. Miguel. O capito-mor, com o seu fino olho de raa, lobrigou as sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e imp-lo. Voltou ao Douro, e procurou o

amparo dum realista poderoso, o Antnio de Melo, de Gouvinhas, o pai do Sr. Lopo Vaz, um grande ministro liberal cheio de embries de cousas. O fidalgo de Gouvinhas nomeou-o feitor das suas quintas. Estava regalado; feitorizava pouco; o

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fidalgo admitia-o s suas palestras ntimas de poltica; mas um sobrinho do Melo, um valente navalhista que chamavam em Coimbra o Malagueta, ganhou-lhe dio, por cimes de uma tecedeira chibante, uma rapariga de tremer, de quadris rolios, a Libnia de Covas. Travaram-se de razes. O Malagueta correu sobre ele com um punhal. Verssimo acovardou-se na sua posio dependente e despediu-se.

A Libnia tinha cordes e umas moedas ganhadas com o pudor diludo no suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos vinhateiros. Seguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. Joo Camelo abriu uma escola de primeiras letras em Miragaia. Ao cabo do primeiro ms, dava pontaps impacientes nos garotos, andava ralado, no podia com aquela bestialidade da instruo primria. A Libnia queixou-se um dia de dor de dentes. Foi uma inspirao. O Verssimo resolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac,  Rua de Santo Antnio, um bom homem. Andava neste tirocnio, quando encontrou no Tivol, defronte da Biblioteca, o Nunes. A Libnia gostava muito de resvalar pela montanha russa, dava umas risadas argentinas, batia as palmas e queria montar os cavalos de pau que giravam no jogo da argolinha.

Quando se encontraram, o Torquato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha morrido deixando a casa ao outro irmo. Estava casado, e tinha dois filhos. Queria ir tentar a fortuna ao Brasil, trabalhar em mangas de camisa, se fosse necessrio. O Verssimo respondeu-lhe que o nico favor que lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de graa. Confidenciou-lhe as suas misrias mais ntimas; que aquela boa rapariga tinha gastado com ele quinze moedas e vendera o seu ouro; mas, to generosa, to honrada, que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que estava resolvido a ir estabelecer-se como dentista na provncia, logo que pudesse comprar o estojo, que custava doze mil ris, e no os tinha.

- Se os no tens - disse o Torquato -, minha mulher tem um cordo que pesa trs moedas; para mim no lho pedia; mas para ti vou busc-lo amanh. -E acrescentou, de excelente

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humor: -Deus permita que na terra onde te estabeleceres sejam tantas as dores de dentes que no tenhas mos nem queixos a medir.

Saram alegres do Tivoli. Sentiam-se bem aquelas duas organizaes esquisitas. Havia ali duas almas que se amavam deveras, dois nufragos a quererem chegar um ao outro a mesma tbua de salvao.  nestes esgotos sociais que ainda, uma vez por outra, se encontram Pilades e Orestes. O Verssimo morava atrs da s, na Rua da Lada, numa casa

dum andar, muito empenada, como o peitoril de ferro de uma

nica janela desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e

negra como a boca de um antro. Cearam todos. Havia cabea de pescada cozida com cebolas, sardinhas fritas e pimentes. O Nunes foi buscar duas garrafas da Companhia de tosto,  Rua Ch, e enfiou no brao uma rosca de Valongo que comprou na bodega da Caoila, uma esmamaada com cordes de ouro que frigia peixe  porta e dava arrotos.

Cearam numa estrdia de rapazes, como em Braga, nove

anos antes, na tasca do Catrambias, na Rua do Alcaide. A Libnia de Covas muito laraxenta -que levasse' o diabo paixes, e

mais quem com elas medrava; que, em se acabando o dinheiro, fazia-se cruzes na boca; mas que deixar o seu Verssimo, no o

deixava nem  quinta facada.

-Ns devamos ir todos para o Brasil -lembrou o Torquato, que tinha meditado num recolhimento extraordinrio.

- E chelpa? - perguntou a Libnia.
- Se tu quiseres, Verssimo, dentro de um ms temos um conto de ris.

- Boa!... - disse o outro. - Bem se v que as duas garrafas deram o que podiam dar: uma fantasia de um conto de ris. Por dois tostes,  barato.

-Ests disposto a ouvir-me sem interrupo de chalaa? Eu no estou bbedo, palavra de honra!

Libnia ps a face entre as mos e os cotovelos na toalha suja de vinho e migalhas, com os olhos muito fitos e rutilantes na cara do Nunes. O Verssimo atirou com as pernas para cima da

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banca, acendeu um charuto de dez ris e disse que falasse  vontade.

-Tu sabes que te pareces muito com Dom Miguel?
- Comeas bem. Temos asneira. -Mau! No me fales  mo. -j sei onde queres chegar. Vais dizer-me que me faa aclamar rei, e, para evitar efuso de sangue, venda a minha sobrinha D. Maria segunda os meus direitos  coroa por um conto de ris. Dou-os mais em conta.

-Adeus minha vida! - retrucou o Nunes impaciente. -Amanh conversaremos.

-Deixa falar o homem! -interveio a Libnia. -Ora diga l,  s Nunes.

O Torquato exps a sua teoria de conto do ris, desfez atritos, removeu dificuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto Minho, os dois. Libnia iria para Ramalde trabalhar nos teares da Grainha, que lhe dava comida, cama e doze vintns por dia. Venderiam a um adeleiro da Rua Ch os trastes para o Verssimo se enroupar de pano piloto, quinzena e calas com alguma decncia, roupa branca, reforma das botas cambadas, chapu de feltro e um palet de agasalho.

Na Quinta-Feira Gorda, a Libnia, com exemplar coragem, foi para Ramalde. A Grainha negociava em teias, ia vend-las ao Douro, tinha visto em Gouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no Porto:

-Olhe, moa, quando quiser ganhar a vida honradamente l estamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e lenis lavados na cama.

O Nunes e o Verssimo foram juntos at perto de Braga. A, o de Calvos seguiu para casa, e o outro no Sbado Gordo partiu para a Pvoa de Lanhoso.

xi

O Torquato, antes de entrar em casa, foi  residncia. Ia misterioso, circunvagava uns olhares cautelosos: ningum o ouviria?, perguntava ao abade Marcos

E o abade, entrepondo as cangalhas nas pginas do brevirio:

-Pode falar, que estou sozinho. Que ?
- Dom Miguel est em Portugal - disse, curvando-se-lhe ao ouvido, com uma voz gutural.

-Voc que me diz?! Como sabe isso? Pataratas!
- Chego agora do Porto; estive com o escrivo fidalgo, o

Ferreira Rangel, e com o abade Gonalo Cristvo. EI-rei est nesta provncia. Desconfia-se que  em Braga, e o Jos Alvo Balsemo disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho, porque o levantamento h-de comear por aqui.

-Que me diz voc, amigo Torquato? -sacudiu os braos, fazia estalar os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exultao exttica, que ia escrever ao abade de Priscos, que indagasse, que aparecesse... - preciso trabalhar, preparar os nimos...

- Chiton      acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o

nariz. -Nada de espalhafato! No ferva em pouca gua, abade. Se der  lngua esbarronda~se o negcio. O rei s h-de aparecer

aos seus amigos quando os generais entrarem pela Galiza. No fala a ningum; no se d a conhecer. Diz que s falara em Lisboa com o conde de Pombeiro e com o Bobadela, e no Porto

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com o Jos Antnio, o morgado do Bom jardim, e mais com o padre Lus do Torro... O abade conhece.

-Pois no conheo! Como as minhas mos;  o vice-rei nas provncias do Norte... o nosso bom padre Lus de Sousa que pelos modos est nomeado patriarca de Lisboa... Que pechincha, hem?

- esse mesmo... Bem!, at logo; vou ver a mulher e os filhos a casa, que ainda l no fui. Um abrao, amigo abade! Parabns! A choldra vai cair! Vida nova! Daqui a um ms est todo esse Minho em armas, e el-rei  frente dos seus vassalos. Outro abrao, e viva el-rei!

Lgrimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas plpebras inflamadas do abade.

-jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de mil oitocentos e quinze  sade de el-rei!

-Parece que me estoira a pele! No estou em mim!
- Que ia ver a mulher e que voltava j.

Na noite de sbado para domingo de Carnaval, o Verssimo pernoitou na Pvoa de Lanhoso, na estalagem do Relhas.

Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela provncia. Perguntou se por ali no se festejava o Entrudo. O bodegueiro informou que na Pvoa havia guerra de laranjadas e

s vezes pancadaria de senhor Deus misericrdia; mas que na freguesia de Calvos havia comdias nos trs dias de Entrudo, por sinal que o seu filho, um barbado que ali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de namorado n'O Mdico Fingido, um entremz cousa rica, que era de um homem malhar de costas naquele cho a rir -que se ele quisesse ver as comdias, podia ir com o seu rapaz, que lhe arranjava l uma cadeira de casa do abade.

O cenrio para a representao d'O Mdico Fingido arranjou-se na eira do Gonalves, muito espaosa e ajeitada, porque as figuras entravam e saam, conforme a rubrica, do palheiro, que tinha trs portas. O palco, barrado de fresco, ainda hmido,

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estava ao abrigo de cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retesadas nas pontas por postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns varais lanados transversalmente. Havia dois mastros de castanheiro descascados, afestoados de buxos, alecrim e camlias, coroados por bandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma lista em ziguezague pintada a zarco que se ia espiralando pelo pau a cima, com cercadura de cruzinhas: era obra do Cheta, um trolha inspirado que j tinha pintado um painel das alminhas, onde havia almas do sexo fraco com grandes tetas lambidas por lavaredas, e

um rei coroado com a boca aberta no acto de berrar queimado, e

tamanha boca que s cedia  de um bispo mitrado, muito empertigado, com o seu bculo. O trolha ensaiara o entremz, e no entrava, porque lhe tinha morrido o pai, havia quinze dias, contava ele a um senhor de fora, desconhecido, que tinha vindo

com o gal, o filho do estalajadeiro da Pvoa.

O Verssimo foi admitido aos camarins onde estavam sentados em caixas de milho e na salgadeira os figurantes,  espera da sua vez, j vestidos. Viam-se os personagens do entremz, "Matilde", amante de "Armnio", uma ingnua, a protagonista da pea, " a doente namorada ", que levou o pai a trazer-lhe a casa o amante, "o mdico fingido". Este papel fora confiado a um latago, oficial de carpinteiro, com os pulsos cabeludos e os ns dos dedos com umas protuberncias calosas que pareciam castanhas piladas antigas. Nas mas do rosto mascarrara duas zonas de carmim, que pareciam a distncia umas chagas de mendigo de romaria aperfeioadas. Trajava um vestido de cetim branco da fidalga velha de Rio Caldo, feito em 1824 para um baile que houve em Braga aos anos de D. Joo vi. O peito chato do carpinteiro ficava  altura dos quadris da fidalga, e as clavculas espipavam as ombreiras do corpete, prendendo os movimentos ao desgraado "Matilde". Posto que a "cena" fosse a "casa de Astolfo", pai da "doente fingida", a velhaca estava de chapu de plhinha com enorme telha enconchada e plumas brancas muito amarelecidas do mofo. O vestido era-lhe curto, mas lucravam com isso as pernas que se deixavam ver at cima do jarrete, cin-

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gidas de fitas cruzadas que subiam duns sapatos de duraque sem

taces, feitos de propsito e em concordncia com os ngulos reentrantes e salientes dos ps. Era o grotesco do horror. A criada de "Matilde" , a "Laberca", tambm vestia de cetim azul-ferrete, um pouco menos antigo, emprstimo das senhoras de S. Crau, que o assoalhavam de vez em quando para os entremezes. No tinha chapu nem sapatos de duraque; obedecia mais  caracterizao natural. Na cabea usava touca de folhos com laos de fita escarlate e nos ps os butes do amo com ponteira de verniz; ele era o criado do juiz de direito substituto; gozava crditos de representar papis de lacaia fazendo rebentar a gente.

O Verssimo fez os seus cumprimentos s duas damas, e

manteve uma seriedade verdadeiramente real. O "Armnio" era o filho do estalajadeiro da Pvoa de Lanhoso, o Relhas. Calas brancas, quinzena de veludilho, bengala de casto de prata, chapu branco de castor e culos. Disse ao Verssimo que punha os

culos para fingir de mdico. Estava a um canto o galego, o

"Gonalo", aguadeiro da casa. Como no havia em Calvos o costume rigoroso dos aguadeiros, o trolha ensaiador vestiu-o de almocreve, com as botas refegadas, faxa branca e em mangas de camisa: com uma monteira comprada em Tui. A cara era ao prprio, duma verdade nica. O " Pantufo", um saloio rico que queria casar com "Matilde", e foi bigodeado pelo fingido mdico, vestia a melhor andaina de fato do presidente da Cmara, um

apaixonado pelos entremezes, que a gravidade das suas funes impedia de representar; mas emprestava a roupa e a inteligncia dramatolgica. Havia mais duas figuras, o "Falcete" e o "Astolfo", que se estavam vestindo l dentro, por detrs dum ripado, que os deixava ver em camisa enfiando as pernas sujas nas pantalonas, enquanto o trolha lhes rebocava de vermelho as caras.

O Nunes atravessara a eira, e endireitara para o palheiro, quando lhe disse o Gonalves que estava l dentro um fidalgo de longe. Encostou~se ao batente da porta, trocou um lance de olhos com o Verssimo, e saiu apressadamente, arranjando pelo caminho uma fisionomia cheia de alvoroo, de surpresa.

Entrou pela residncia, muito esbofado:

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-  abade, j esteve na eira do Gonalves? -No; estou a acabar de jantar, e l vou ver essa borracheira da comdia. Voc vem agarrado!

-Vinha perguntar-lhe se conhece um sujeito de fora que l est na eira.

-Aqui veio um rapazola da Pvoa pedir-me uma cadeira h coisa de meia hora para um fidalgo que tinha vindo com ele. Perguntei-lhe quem era o fidalgo. Diz que no sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas de casaco chama-lhe fidalgo.

-Venha j da comigo... Por quem , no se demore...  abade, lembra-se de ver el-rei em Braga h treze anos!

-Ora se lembro! ... Beijei-lhe a mo trs vezes.
- E, se o vir agora, conhece-o?...
- Parece-me que sim -o padre limpava  pressa os beios amarelos dos ovos do arroz doce. -Mas isso que quer dizer? Voc est doido, ou temos carraspana, amigo Nunes?

- Homem!, venha comigo, e depois chame-me doido ou borracho, l como quiser; mas no se demore que eu estou em brasas vivas.

- A vou, a vou, no se atrigue. Vai uma pinga do choco? -Venha de l isso. -Bebeu dum trago, e pediu outro: -Agora,  sade de el-rei!,  sade daquele que talvez esteja bem perto de ns! A cem passos!

-Toque! -exclamou o abade. Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, no olhar muito de frente para ele, e s deviam falar-lhe, se a ocasio viesse muito a jeito.

-Voc est a sonhar, homem! Quando entraram  eira, j tinha comeado a festa. Verssimo estava em p, com a mo direita apoiada nas costas da cadeira. Dum e doutro lado remexia-se a turba, muitas raparigas a

rirem dos actores vestidos de mulheres, e uns rapazes com chalaas de uma graa aparvalhada, muito local, a que os do palco respondiam  letra com manguitos, e os que faziam de mulheres batiam palmadas no traseiro, voltando-o para o pblico. Ces ladravam s figuras; os rapazes davam-lhes pauladas e eles

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ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para poderem perceber as falas:

-Canalha brava, calaide-vos a! Uma balbrdia que parecia um teatro de cidade de primeira ordem. O tio Gonalves, o dono da eira, dizia que estavam todos bbedos, e voltava-se para o desconhecido, como a pedir desculpa.

-  Entrudo - dizia -,  Entrudo, senhor! - Quando apareceu o padre na cancela da eira, houve silncio com algumas fungadelas de riso das cachopas, e recomeou a comdia em obsquio ao abade e  arte ultrajada pela hilaridade bruta da plateia. Notaram alguns velhos sisudos que o forasteiro das grandes barbas se mantivera muito srio durante a troa da canalha. Assim o dizia o Gonalves ao abade, perguntando-lhe se conhecia aquele senhor.

- No conheo - e acotovelava o Nunes, segredando-lhe com o disfarce: -Voc adivinhou.  ele...

-Que me diz, abade? - ele.
O Verssimo dera trs passos para acender um cigarro no de um msico que estava sentado num bombo.

-  ele! - repetiu o abade. - Voc no o viu coxear? -Fale baixo, fale baixo, e no olhe muito para ele, que eu j o vi deitar-nos os olhos -acautelou o Nunes.

-Tambm eu... Estalou neste comenos uma gargalhada geral. Verssimo tambm se riu, e deu palmas.

-Olha!, olha!, a dar palmas! -notou o abade com transporte. Aquilo sensibilizou-o at s lgrimas! O Sr. D. Miguel a

dar palmas s figuras d'O Mdico Fingido na eira do Gonalves em S. Gens de Calvos! Tocante!

A risada geral e as palmas e os apupos no eram rigorosamente uma ovao ao autor do entremez nem aos curiosos. Eis o caso. Na cena primeira o "Astolfo" pede carinhosamente  filha que coma alguma coisa. "Matilde" diz que no pode, que

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no est em si; que lhe acuda, que lhe acuda, porque um suor

frio lhe faz perder os sentidos.

O gargajola esperava ser amparado pelo outro, em harmonia com a rubrica que diz: "Finge desmaio, e ---Astolfo" a sustm nos braos." Mas ou porque se antecipasse a desmaiar, ou porque "Astolfo" se demorasse a ampar-la, "Matilde" escorregou de costas sobre o barro ainda fresco do palco; e, no acto de se erguer debaixo dos apupos da multido, arregaaram-se-lhe as

saias e saiotes at  cintura. Ora a "Matilde" no usava calcinhas. Um escndalo.

Verssimo Borges no pde sustentar a gravidade competente  sua pessoa. A natureza rebentou por ele fora numas casquinadas convulsas que poderiam custar-lhe uma mocada, se a deflagrao do riso no fosse geral.

"Matilde" fugiu do palco, enfiou pelo palheiro e no voltou  cena. O ensaiador, o trolha, saiu ao terreiro a explicar ao pblico a suspenso do entremez nestas palavras:

-Aquele alma do diabo despiu a farpela, e diz que raios o

parta, se c tomar. Vocs podem ir  sua vida que no h hoje "treato".

Comeou a debandar o auditrio em grande algazarra. Verssimo parecia esperar que o gal, o Relhas Jnior, se despisse para se retirar. O Gonalves perguntava-lhe:

- E que tal esteve a chalaa, senhor! M vez pr homem, que se mais tivesse mais punha  lu! -e voltando-se para o

abade que, a pedido do Nunes, guardava respeitosa distncia: -  senhor abade!, cousa assim no consta! Eu, se me sucedesse uma daquelas, metia a cabea num fole.

- So acasos - disse Verssimo com indulgncia. - No se lembrou que estava vestido de senhora.
1 O abade ganhou nimo, abeirou-se do Gonalves, cumprimentando o outro cerimoniosamente, e disse:

-0 entremez no presta para nada. Se o homem no casse, ningum se ria. _ Provavelmente... -assentiu o Verssimo, corresponden-

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       129

do  cortesia do Torquato Nunes, que parecia aproximar-se mais acanhado. - Estes casos de escorregar - acrescentou o desconhecido -acontecem nos primeiros teatros do mundo e at nas salas onde se dana; e de ordinrio as senhoras que desastradamente caem so verdadeiras senhoras.  muito pior e mais melindroso.

O abade e o Nunes com muitos gestos afirmativos - que sim, que era muito pior, e mais melindroso, muito mais.

Derivou a conversao para as belezas naturais do Minho. O desconhecido sentia ter vindo no Inverno, quando apenas se adivinhavam as pompas da Primavera.

Principiava a choviscar. O abade ofereceu a sua casa ao forasteiro, enquanto no estiava a chuva. Verssimo aceitou por momentos, visto que no se prevenira com guarda-chuva -um

traste que detestava. Os aguaceiros repetiram-se com pequenas intercadncias, varejados pelo sul; por fim, as cristas da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos declives como escarcus a despenharem-se, fechou-se o horizonte sem uma nesga, e

a chuva no parava. O abade no permitiu que o hspede sasse com tal tempo e j perto da noite.

Durante a ceia, apareceram algumas raparigas mascaradas com lenis, abraando a Senhorinha que servia  mesa, e dizendo em falsete pilh rias ao Nunes a quem chamavam "Troclates e precurador de causas perdidas". Verssimo mostrava-se contente e dizia:

-Bom povo!, excelente povo! Este Minho  o bom corao de Portugal, e os seus habitantes, segundo me consta, possuem os melhores coraes do reino. Eram dignos de ser mais felizes do que so, carregados por tributos, esmagados pelo peso dos empregados pblicos, que so o flagelo de Portugal...

O padre escutava-o com religiosa ateno; o Nunes beliscava a coxa do abade, que tomara a presidncia da mesa e pusera o hspede  sua direita.

No fim da ceia, o padre Marcos com o copo na mo, e de p, disse que fazia uma sade ao seu hspede, porque lhe parecia

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que tinha a honra de beber  sade de um realista, dum partidrio de Sua Majestade o Sr. D. Miguel que Deus guardasse!
O hspede agradeceu, declarando que mesmo numa roda de liberais no negaria os seus sentimentos polticos: que era realista, e como tal brindava  sade de todos os amigos do prncipe proscrito.

O Nunes dava caneles inteligentes e s vezes dolorosos no abade, que o encarava de esconso como quem diz: "Percebo; no faa de mim asno; sei que estou falando com el-rei. "

A criada deu parte que estava pronta a cama: -Quando " Vossoria " quiser -disse ela ao hspede. Verssimo sorriu-se agradavelmente:

-Que incmodo estou dando a esta excelente famlia... Irei descansar, senhor abade, e senhor Torquato... parece-me que lhe ouvi chamar Torquato.

- Nunes Elias, um criado de Vossa... -e susteve-se. Dizia-lhe depois o abade no quinteiro: -Voc ia-se estendendo, Nunes! Esteve por um triz a dizer, "um criado de Vossa Majestade", no esteve?

- Por um triz, abade, que me estendia! Tal  a certeza de que est el-rei nesta casa! -E com transporte, olhando para as

janelas: -Onde est pernoitando o senhor Dom Miguel, o rei amado dos Portugueses, na pobre residncia de So Gens de Calvos! Isto parece um sonho!

A segunda-feira de Entrudo foi um chover desabalado. No houve entremez nem se via viva alma no cruzeiro. O abade no consentiu que o hspede se retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou  Povoa buscar a bagagem. Era um ba de lata amolgado na tampa com um cadeado rodo de ferrugem. O legitimista ainda no tinha dado nome algum, nem os outros ousavam abrir ensejo a que ele tivesse de o inventar. Seria indelicadeza obrig-lo a mentir. Alm de que o padre Marcos, tratando-o sempre por "senhor" - o "senhor" isto, o "senhor" aquilo entendia que se aproximava do tratamento que se deve aos reis,

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      131

e ao mesmo tempo ia insinuando ao real hspede que j o conhecia.

- Bom  que ele se v persuadindo que no somos pategos - dizia o abade ao Nunes. - Sim, bom  que se persuada... voc percebe... -E piscava com esperteza.

- Ora, se percebo! O abade tem andado com uma cbula muito fina. Eu  que me custa a ter mo em mim. A minha vontade era deitar-me de joelhos aos ps dele, e dizer~lhe: "Real senhor, nada de disfarces! Aqui esto dois vassalos de Vossa Majestade que lhe oferecem o seu sangue! "

- Deixe estar - acomodava o padre -, deixe estar, Nunes ... As cousas no vo assim... Quando for tempo, eu lho direi ... Nada de espantar a caa.

O Verssimo pediu ao abade algum livro para se entreter,

e no o obrigar a atur-lo. O padre levou-o ao seu quarto onde havia uma estante de pinho com trs lotes de livros. Mostrou-lhe O Punhal dos Corcundas, A Defesa de Portugal, do padre Alvito Buela, A Besta Esfolada, Os Burros, e O Novo Prncipe. O Verssimo levou-os para o seu quarto, excepto Os Burros; disse que no gostava de poesia. Falou com louvor do padre Jos Agostinho e de Fr. Fortunato de S. Boaventura -colunas do altar e do trono, que tinham deixado dois vcuos impreenchveis; na falange realista. Perguntou-lhe o abade se os tinha conhecido pessoalmente. Que sim, como as suas

mos... E sorria, como o prncipe proscrito, se lhe fizessem semelhante pergunta.

-Que prazer teria o padre Jos Agostinho, se hoje vivesse e pudesse ver el-rei!... -meditou o abade com a sua grande perspiccia observadora.

-Decerto... -concordava o Verssimo indolentemente. -Mas quem tem agora esperanas de ver Dom Miguel em Portugal ?

-Eu, senhor, eu! -respondeu o padre batendo na arca do peito com as mos ambas. -Eu!

O Verssimo folheava O Punhal dos Corcundas, e parecia no perceber a veemncia do padre.

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-Bons desejos, bons desejos do caro abade... -E de quase toda a nao portuguesa, senhor! Dom Miguel nunca deixou de reinar nos coraes do seu povo. Eu tenho na

minha alma o retrato dele desde que o vi h treze anos em Braga e lhe beijei as suas reais mos! -Escandecia-se o entusiasmo, punha as mos, chamejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e o Verssimo continuava a folhear O Punhal dos Corcundas.

-Ento viu-o, abade? -Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei~lhe com estas mos.

-Ainda se recorda das suas feies?
- Perfeitamente.
- Ah!, se o visse hoje, decerto o no conhecia... Est muito acabado...

-Conhecia, conhecia...
O abade sentiu um raio de dramatizao que o vibrou todo. Eriaram-se-lhe os cabelos, e coou-lhe pela espinha uma fasca elctrica. Fez um passo a trs, e quando o Verssimo repetiu "era impossvel conhec-lo" o padre ps um joelho em terra, estendeu o brao direito, e com o dedo indicador em riste, exclamou:

- Ei-lo!, ei-lo! - abade!, o senhor est alucinado! Por quem , levante-se! Eu no sou quem pensa!

-Estou como devo estar diante do meu rei! -teimou o abade, com os dois joelhos no sobrado.

- Levante-se que vem gente! -dizia o outro, ouvindo passos na escada.

Era o Nunes. -Entre, amigo! -disse o abade, respondendo ao vizinho, que pedia licena.

Torquato encontrou o abade de joelhos e o Verssimo esforando-se por levant-lo.

-Ajoelhe a meu lado, Nunes!, que eu estou aos ps de el-rei! -exclamou o padre.

A BRASILEIRA DE PRAZINS

133

E o outro, ajoelhando: -Eu j o sabia, real senhor!

Foi assim que se inaugurou a corte de D. Miguel em

S. Gens de Calvos, segunda-feira de Entrudo de 1845, s trs horas da tarde.

XII

Depois, bem sabem, senhores, como aquele padre Rocha despenhou abruptamente o desfecho da farsa, cuidando que vingava a moral e punia com degredo o celerado que infamava o sacratssimo nome de el-rei D. Miguel. No trnsito para a Relao, a meia lgua, na estrada do Porto, o Verssimo com delicadas maneiras e o seu aspecto venervel, obteve que o sargento da escolta lhe permitisse alugar a mula de um almocreve que seguia a mesma direco. Cavalgou na albarda da mula arreatada com chocalho, sem estribos; empunhou a corda do cabresto, e, ladeado de doze praas do Oito, entrou ao cair da tarde em Famalico.

O Torres de Casteles, o administrador, legitimista no fundo, bom lavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permitiu-lhe que ceasse com um amigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o Pilades das horas certas e incertas. Orestes estava desanimado; queixava-se das fantasias do outro, considerava-se perdido.

-Pobre Libnia! -deplorava-, quando ela souber que eu

estou na Relao!

Como tinha alguma prtica do foro criminal, o Nunes consolava-o: que no havia matria para pronncia; e, quando fosse pronunciado, a Relao o despronunciaria.

- Eu  que vou ser o teu procurador, se me no prenderem -acrescentava muito confiado na lei e na sua actividade. - Quanto  fantasia do conto de ris, j no falta tudo, porque tens as cem peas das Botelhas. Se te deixam ser rei mais

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um dia ou dois, tinhas nesta santa hora trs contos mais setecentos e cinquenta mil ris.

-Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma sentena de degredo -atalhou o Verssimo, naquela estranha situao, nunca experimentada, de ouvir os passos da sentinela rentes com a

grade do seu quarto. s oito da noite, fechara-se a porta da cadeia, e Nunes sara triste, com um pungitivo arrependimento de meter o amigo naquela rascada.

Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do Governo Civil do Porto para a Relao com um mandado do carcereiro na baioneta do sargento. Quando saa do Governo Civil, j Libnia e o Nunes, que se antecipara a procur-la em Ramalde, o esperavam. A Libnia era uma forte mulher para os trabalhos da vida. Fitou-o com um semblante aceso de coragem, um sorriso afoito, e disse-lhe muito animosa: "Alma at Almeida e de Almeida pra " diente " alma sempre! "

Verssimo ocupou o quarto de malta nmero dois, com uma

rasgada janela sobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, donde tinha sado o Gravito para a forca - elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso alisar da porta as iniciais de alguns padecentes com a data: 1829.

A Libnia e mais o Torquato pernoitaram na estalagem do Cantinho na Rua do Loureiro e passavam o mais do tempo na

Relao. Ao fim de seis dias j o Nunes requeria a soltura do preso, por falta de nota da culpa; mas a pronncia chegou ao oitavo dia da comarca da Pvoa. O preso agravou para a Relao. Era juiz relator do agravo o conselheiro Fortunato Leite, natural do Douro, que, quinze anos antes, no reinado de D. Miguel, tinha sido amigo de Norberto Borges, e lhe devera a fineza rara de o avisar na vspera do dia em que lhe havia de cercar a casa

por ordem do facinoroso corregedor de Vila Real, o Albano, que os liberais mataram, no meio de uma escolta, em 1836. Quando o relator folheava o processo, os apelidos do preso, a naturalidade, os pormenores, sugeriram-lhe memrias da sua perseguio em 1831, e o salvar-se to extraordinariamente pela amizade do meirinho geral. Informou-se e evidenciou que o Norberto

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Borges, de Alvaes de Corgo, era o pai do preso. Estava pois salvo o filho do seu benfeitor, sem grande violncia  justia, porque a pronncia fora precipitada, irregular, as testemunhas citadas -os padres suspeitos de frequentarem a residncia de Calvos - nada depuseram que provasse projectos revolucionrios do agravante.

E lavrou o acrdo muito recheado de grifo: "Que agravado era o agravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, porquanto na

pronncia de primeira instncia haviam sido desprezadas as formalidades mais curiais, pois que nenhuma testemunha depusera que o agravante se inculcasse D. Miguel para perturbar a ordem constituda, chamando o povo  revolta; e das respostas do agravante no interrogatrio a que procedeu a autoridade administrativa constava que o preso quase que fora obrigado por um clrigo estpido e esturrado miguelista a deixar-se chamar D. Miguel; mas no constava nem se provava que o agravante se aproveitasse de tal fraude e impostura para extorquir valores aos seus

estpidos cortesos; o que decerto praticaria um gamenho decidido a fingir~se D. Miguel para os espoliar. Que a pronncia fora inqua, atabafada apaixonadamente, e sem base, visto que nada se colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas se fez obra por hipteses e indcios, fundada em um rol de indivduos alarves a quem o suposto monarca fazia mercs de comendas, de ttulos, de patentes e at de mitras, sem que da resultasse alvoroto nem leve perturbao na ordem pblica, nem mesmamente dano para os mencionados burros que pediam as mercs, e que deviam ser pronunciados em primeira instncia, se a corte de
5 Gens de Calvos, no fosse uma farsa de Entrudo. "

E, dilatando-se filosoficamente e chistoso, o juiz relator, adicionava, aconselhando, "que seria bom e proveitoso que nas terras selvticas, do Minho se espalhassem muitos Miguis daquela casta e feitio at que os novos sebastianistas se convencessem de que somente assim poderiam arranjar um Miguel que lhes desse comendas, ttulos, postos militares e prelazias".

Os desembargadores, com o seu rap engatilhado aos nari-

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zes, riram muito do final do acrdo, e, sorvidas as pitadas sibilantes, assinaram por unanimidade.

Reformada a sentena e pagas as custas pelo juiz da primeira instncia, Verssimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escritrio do carcereiro Melo para se despedir, encontrou a

Libnia de Covas, desmaiada de jbilo, nos braos da mulher do chaveiro. Como era feliz, deixou-se ser mulher-chorou; e quando lhe cumpria dar nimo ao preso, no ptio do Governo Civil, riu-se com a valentia dos homens extraordinrios.

O conselheiro Leite recomendou ao Nunes procurador que lhe mandasse a casa o Verssimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso, com maneiras submissas, mas dignas dum Borges Camelo infeliz.

O desembargador explicou-lhe que o chamara para lhe fazer conhecer a dvida que lhe pagou, posto que as situaes fossem muito diversas. Improperou-lhe severamente o seu delito; estigmatizou a aco de permitir que o julgassem D. Miguel; falou acerbamente contra este tirano parricida, incestuoso, canalha, e

terminou por lhe aconselhar o trilho da honra, o trabalho e a expiao das suas irregularidades, mostrando-se digno da compaixo que lhe inspirara, despronunciando-o. O Verssimo beijou-lhe a mo, e recusou dez pintos que o conselheiro lhe dava
- que, se um dia necessitasse, lhos pediria. E o Fortunato Leite, a rir:

-Ento as bestas dos abades sempre caram? Fez voc muito bem. Devia esfolar essas cavalgaduras!

O Verssimo recuava muito agradecido.

O conselheiro Fortunato exerceu uma enrgica influncia vitalizadora na nova encerebrao de Verssimo Borges e bastante na do Torquato Nunes Elias.

Por mediao do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvar de solicitador de causas nos auditrios do Porto. Ganhou boas relaes. Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a mulher e os dois filhos. Alugaram casa

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na Rua de Trs as duas famlias. Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os setecentos e cinquenta mil ris das Botelhas, de meias com os salrios de procurador. O Verssimo frequentava  noite o Caf das Hortas, jogava o quino, e, de vez em quando, ia ao caf da Rua de Santo Antnio ouvir os demagogos dos manos Passos, que o festejavam e catequizavam. Dava-se com os Navarros, com o Almeida Penha, com os Peixotos vidraceiros. Ele, sobpondo ao reconhecimento os escrpulos de espio, contava ao conselheiro Leite, cabralista intransigente, os planos dos setembristas, os clubes, as lojas de carbonrios, as tramias arranjadas em Braga pelo baro do Casal, muito setembrista, padre Alves Vicente, de combinao com o Passos Jos, com o Faria Guimares, com o mdico Resende, com o Damsio, com o Alves Martins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia com as conspiraes da Viela da Neta -aquele baluarte da liberdade que demorava paredes meias com os escombros do deboche, no grifado, muito  francesa: tudo acabado hoje em dia, e soterrado debaixo duma loja de modas, dum caf e duma taverna -o vitalismo soez e chato da decadncia.

Verssimo arrecadava urna gratificao, umas seis libras mensais, mesquinha paga dos servios que fazia  ordem,  tranquilidade cvica da Rua das Flores e das Congostas.

Na contra-revoluo de 9 de Outubro de 46, quando foi preso o duque, Jos Passos encontrou o Verssimo na Praa Nova, chamou-lhe "patriota", ps-lhe a mo no ombro, sacudiu-o pelas lapelas, e disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, porque o duque estava a desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a

plebe ondeava para Vilar, num restrugir de tempestade, quando o Verssimo e o Nunes procuraram o conselheiro Fortunato, que tiritava de medo com as suas enxndias espapadas entre as filhas, numa consternao. Disseram-lhe que se iam armar para se constiturem sentinelas da segurana do seu benfeitor. O conselheiro abraou-os muito comovido, numa excitao apoplctica.

Depois, formaram-se os batalhes nacionais. Verssimo e

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Torquato foram promovidos a tenentes do batalho da Vista Alegre. Quando foi da refrega de Valpaos tinham compreendido inteligentemente que a retirada de S, da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza precursora de uma derrota. Conheciam o prfido esprito do Quinze e do Trs de Infantaria -previram a traio. Tinham pensado maduramente os dois tenentes, sem entusiasmo, com a prudncia dos quarenta anos apalpados pelos reveses de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os batalhes de linha se passassem para as foras reais. Travou-se o encontro de Valpaos. Com os dois regimentos, que num turbilho e a gritos de "Viva a Rainha" se abraaram s vanguardas do Casal, tambm eles, por debaixo do fogo do seu

batalho, se passarem, dando "vivas"  Carta Constitucional. Eram a obra, da prudncia e do conselheiro Fortunato Leite.

Quando o baro de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os dois tenentes apresentados pediram vnia ao general para servirem na coluna do visconde de Vinhais -que tinham repugnncia de pelejar cara a cara com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro Jos Vieira e do padre Jos da Laje. A vergonha impunha-lhes o dever de dourar a mentira. No lhes pareceu decente irem acutilar nas ruas de Braga o Cristvo Bezerra, de Bouro, e o abade de Calvos e o padre Manuel das Agras. No poderiam ver sem mgoa a soldadesca a dar saque aos dinheiros das Sr.as Botelhas.

Ainda assim no poderam esquivar-se a perseguir os realistas da comitiva de Mac Donald, desde Vila Real at Sabroso; mas

no desembainharam as espadas, porque o visconde de Vinhais os admitiu ao seu quartel-general, e os cadveres que encontraram pela serra do Mezio at Sabroso, onde pereceu acutilado o

caudilho escocs, eram faanhas das guardas avanadas. Os dois tenentes no deram nem tiraram gota de sangue nesta luta fratricida. Um triunfo a seco.

Concluda a guerra civil pelo Convnio de Gramido, depositaram as armas e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhais, o Alpendurada, o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torquato, o centro cabralista, recomendou-os  considerao

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magnnima de Sua Majestade. O Nunes, como sabia do foro, foi despachado escrivo de direito para a Estremadura. Verssimo Borges obteve uma fiscalizao rendosa dos tabacos e sabo em Trs-os-Montes; depois foi transferido, com vantagem, para a alfndega de Viana do Minho; e por ltimo para uma direco aduaneira do Ultramar. Ainda vivia h poucos anos, porque um

jornal da localidade, debaixo de um smbolo fnebre -um anjo curvado e deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas de um choro -, publicava:

Verssimo Borges Camelo da Mesquita d parte aos seus numerosos e respeitveis amigos que foi Deus servido chamar  Sua Divina presena, hoje pelas cinco horas da manh, sua chorada esposa D. Libnia de Covas Borges da Mesquita, a cujo cadver, etc, Pelo seu profundo estado de consternao pede desculpa de cumprimentos.

O jornal, depois de uns adjectivos lgubres e velhos como a morte, acrescentava:

A Exma. Sr. - D. Libnia, que todos choramos com seu excelentssimo vivo, era uma senhora de esmeradssima educao, pertencia  ilustre famlia dos Covas -modelo no trato insinuante com que cativava o respeito e a amizade de todas as pessoas desta ilha, que tiveram a fortuna de a conhecer. Receba Sua Excelncia o Senhor Conselheiro-Director os nossos mais sentidos psames pela desgraa que acaba de o ferir implacavelmente,

Verssimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo e de alma.

XIII

O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os trs contos de ris, foi para as Lamelas, e entrou de noite para que o

no vissem. Ele tinha-se gabado aos vizinhos de que estava despachado sargento-mor e seu pai coronel reformado. Ao Jos Dias de Vilalva e mais ao pai, que era regedor, mandara-lhes dizer que eles brevemente haviam de topar com o seu homem. Da Marta de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua paixo no tinha outro respiradouro. Alm disso, no podia esquecer-se da ndega exposta pelo co s descompostas gargalhadas da rapariga. Era uma vergonha crnica. E, para remate de desastres, voltava para as Lamelas, a ouvir as rabugices do pai, que lhe chamava cavalgadura @ que se deixasse de poltica e fosse fazer paredes, que  o que ele sabia.

Constava-lhe de mais a mais que o Jos Dias, o estudante, estava sempre em Prazins, e tinha ido com Marta e mais o Simeo ao fogo preso da romaria de Santiago da Cruz. Viram-nos todos trs a tomar caf de madrugada numa barraca, a cochicharem os dois, muito aconchegados, enquanto o velho tosquenejava a dormitar.

O pai de Jos Dias, o Joaquim de Vilalva era um lavrador de primeira ordem. Lavrava quarenta carros de milho e centeio, uma pipa de azeite, dez de vinho, muita castanha, tinha trs juntas de bois chibantes e poldros de criao. O Jos, meeiro no casal, a no se ordenar, era um dos primeiros casamentos do concelho.

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O rapaz amava castamente a Marta com a pudiccia cio primeiro amor. Ela tinha uma formosura. meiga, delicada e suplicante. Parecia pedir que a no imolas@em a uma paixo sensual; mas, se o seu amado o exigisse, a vtima coroar-se-ia de flores, e

iria'risonha e mansamente para o sacrifcio. Tinha xtases a contemplar-lhe os cabelos louros e a plida face doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma santa de jaspe-um quadro paradisaco sem frutas nem cobras.

O Jos no necessitava pedi-Ia ao pai na incerteza de uma recusa. Disse-lhe que ela havia de ser a sua esposa: a criana contou ao pai as palavras do amado, e o Simeo:

-Ora venha de l esse abrao, amigo e s Z! -e apertou o futuro genro com a ternura de pai que "arranja" a sua filha

"como se quer".

Mas os pais do estudante j tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo, que a moa de Prazins no era forma do seu p. A me principalmente protestava que, enquanto ela fosse viva, a tal filha da Genoveva de Prazins no havia de ser sua nora, nem

que a levasse o diabo, e Deus lhe perdoasse, se pecava. Justificava-se dizendo que a Marta era de ruim casta; que a me, a Genoveva, dera desgostos ao homem, pintava a manta nas romarias, andara muito falada com um frade de Santo Tirso, e um dia pegara a dar gritos na igreja, toda a gente disse que ela tinha o demnio no corpo, e afinal morrera doida, atirando-se ao rio Ave.

E constava-lhe que o av dela tambm no era escorreito, e

quando j tinha sessenta anos mandara fazer uma sobrepeliz, abrira coroa, e onde houvesse um defunto l ia com um ripanso  igreja e punha-se a cantar como os padres. A tia Maria de Vilalva tinha inconscientemente este horror moderno, cientfico da hereditariedade; mas o que mais a impulsionava na sua resistncia aos rogos do filho era ter sido "m mulher" a me de Marta. "De m rvore ruim fruto" era toda a sua filosofia, que se encontra diluda modernamente nas exploraes fsicopsicolgicas de Janet, de Maucisley e no determinismo.

O Joaquim de Vilalva, muito instado pelo filho e pelo padre

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      143

Osrio, o de Caldelas, prometia fazer o que a sua companheira fizesse; mas dizia-lhe a ela em particular:

-Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que sim, ouviste? E ela:
- Deixa-me c, homem! Vm barrados. Credo! A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para no perder a sua missinha no Vero ao romper do dia, e garganteava com uma melopeia fanhosa a via-sacra na Quaresma,  volta da igreja; presenteava os santos dos altares com os mimos da sua lavoura que se leiloavam ao domingo no adro, dava cama e mesa untuosa aos missionrios, confessava-se todos os meses, e sentia pelas suas vizinhas menos beatas o inefvel prazer de afirmar que haviam de cair vestidas e caladas no inferno. O filho penetrou-se duma ideia trivial a respeito de sua me: que os sentimentos religiosos a levariam a dar o consentimento, se Marta cometesse um desses pecados que se remedeiam com o matrimnio. O padre Osrio dizia-lhe que a inteno era honesta,

mas o expediente mau. No lhe citou telogos nem preceitos de origem divina. Argumentou-lhe com a hiptese da pertinaz resistncia da me. Que no esperava nada da sua religio - um

hbito de trejeitos de mos e de beios, o automatismo idlatra dos selvagens da Amrica que davam guinchos mecnicos, prostrando-se por terra, quando ouviram a primeira missa; que a

religio das aldeias, sobre a dos indianos da catequese dos Jesutas, as vantagens que tinha era a hipocrisia em uns, e o fanatismo em outros, quando no se ajuntavam ambas as cousas nos

mesmos fiis. O padre Osrio paroquiava e conhecia o seu rebanho, joeirando-o pelos crivos do confessionrio. No conhecia menos a tia Maria de Vilalva. Afirmava que a fragilidade de Marta seria para a velha mais um motivo de dio e desprezo; porque, na sua cartilha e nos ditames dos seus directores espirituais, no se lia nem ouvia que a me devia encobrir a desonra de uma rapariga casando-a com o seu filho, sedutor dela.

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As reflexes do vigrio de Caldelas eram ptimas, mas extemporneas.

Um oficial de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre Zeferino, contou-lhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando que era dia nado, se levantara para ir para a obra; mas que ao passar por diante da casa do Simeo ouvira duas horas no relgio, e vira luz pelas frestas de uma janela. Que se pusera  coca debaixo de um carvalho, a desconfiar que a luz quela hora no era cousa boa, e estivera, "vai no vai,  pernas pra que te quero", lembrando-se se seria bruxedo ou alma penada, porque se dizia que a Genoveva do Simeo, a que se deitara ao rio, no podia entrar no purgatrio, e morrera com o diabo no corpo, salvo seja. Estava nisto quando a luz se sumiu, e se coou pelas frestas doutra janela, e logo depois noutra mais baixa, onde um homem podia chegar com o cabo dum machado. Nisto apagou-se a luz e abriu-se a janela de portadas sem vidros. Dava-lhe a chapada do luar -era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabea e depois meio corpo de homem que se ps s cavaleiras do peitoril da janela, quedou-se a olhar e a escutar a um lado e outro; depois desmontou-se muito devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se cair, ficando em p. A janela fechou-se, e o Jos Dias, que o operrio conheceu como se o visse ao meio-dia, meteu-se ao caminho de Vilalva, por sinal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao luar

como um espelho.

O oratoriano Manuel Bernardes, como  notrio, escreveu um livro edificante, muito piedoso, chamado Armas da Castidade. O mstico filho de S. Filipe Nery, com duas palavras ss, dum realismo serfico, cabalmente explicou a situao doutro Jos Dias a respeito doutra Marta. "Conhecia-lhe o leito", dizia ele.  o mais que se pode dizer sem escandalizar ningum. Conhecia~lhe  leito.

Mas o Zeferino  que sentiu em cheio no peito amante a facada do escndalo. O oficial viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava esquadriando, e, com o rosto entre as mos, desfazer-

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      145

-se em pranto. Ele tinha amado aquela rapariga desde que a vira aos treze anos. Trabalhara e roubara como galego para a poder comprar ao pai por um conto e quinhentos e pico. Meteu-se na

poltica; fez-se sargento-mor a ver se se levantava a uma altura em que a Marta o achasse digno dela e superior ao estudante. Desabadas as esperanas com a priso do patife de Calvos, cismava ainda em voltar de novo ao campo quando viesse o D. Miguel autntico, porque o tenente-coronel de Quadros lhe dizia que ei-rei chegava a Portugal na Primavera do ano seguinte - afirmava~lho o padre Rocha, para o consolar juntamente com as bebedeiras quotidianas. Tudo acabado, perdido, como

se lhe morresse a Eva do seu paraso! E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas trados, como Cames, como Tasso, como Alfred de Musset. As lgrimas na cara tostada daquele operrio tinham o travo das que a poesia cristalizou no panteo dos mrtires do amor.

Depois, levantou-se, limpou as faces  manga da camisa, pegou da esquadria e continuou a trabalhar, assobiando a msica triste duma cantiga desse tempo:

 mar, se queres, Tem d de mim.

Estes assobios eram o silvo da serpente da vingana; mas o

seu rancor no punha a pontaria em Marta. Se deixava de cinzelar a pedra, e fitava os olhos extticos num imenso vcuo, via passar lucilante a imagem da pequena, pura, angelical como a

vira aos treze anos. Um grande romntico-uma exploso de ideias que florejavam daquele pedreiro como um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia destas transigncias

com os anjos despenhados. Dir-se-ia que ele tinha lido As Confisses de Um Filho do Sculo, aquela torrente de lgrimas ignbeis que lava os ps de uma dissoluta ilustrada.

Ele, desde essa hora funesta, pensou em matar o Jos Dias; mas, nas ricas protuberncias sseas do seu grande crnio, a

bossa do homicdio era muito rudimentar. Tinha tido vrias oca-

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sies de poder-se gabar dessa perfeio. Haviam-lhe batido dois estudantes num pinhal, por causa das denncias ao padre-mestre Roque; e, quando o co do Dias lhe rasgou a cala num stio melindroso, o Zeferino desconfiou que, se fosse capaz de matar um homem, deveria ter atirado com o machado  cabea do caador. Ele queria espezinhar o cadver de Jos Dias, espostej-lo, trinc-lo, masc-lo, esmo-lo, devor-lo, mas  maneira dos devoristas inclumes que compram um porco j morto na Ribeira Velha, e o esquartejam com um grande regozijo antropfago, com as mos ensopadas nas banhas da vtima.

O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a descoberta que fizera naquela noite em que se enganara com o luar. A Marta estava desacreditada na freguesia; as mulheres que sachavam os milharais faziam comentrios perptuos ao texto do pedreiro, recordavam as faanhas da Genoveva, contadas pelas velhas, e as mais antigas diziam que a Brgida Galinheira, av da Marta, j tinha dado o exemplo  filha. "Uma gerao de marafonas do alto", dizia a tia Rosa de Carude, cuspindo no cho, e pondo a soca em cima. Riam-se do Zeferino, que andava como a cobra que perdeu a peonha, muito escamado; que lhe tinham sado dois casamentos com boas lavradeiras, e ele diz que havia de ir morrer solteiro s Pedras Negras, depois de matar um homem; e houve quem afirmasse que o vira com um bacamarte debaixo dos carvalhos, por essa noite fora, defronte da casa do Simeo. Uma calnia.

Avisaram a me do Jos Dias da espera do pedreiro, e ela fez dormir o filho em uma trapeira que no tinha janela por onde saltasse, e fechava-o de noite por fora, rogando pragas  seresma

de Prazins -que um raio a partisse e o diabo a levasse para as profundas do abismo! Depois ia rezar a coroa com os criados, e

rogava a Deus pelos que andavam sobre as guas do mar e pelas de todos os seus parentes e vizinhos, com uma intonao chorada que fazia devoo.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       147

O Jos Dias vivia amargurado. Tinha sido criado num grande respeito aos pais, e sentia-se inbil para lhes reagir. A doena de peito que principiava a desvigorizar-lhe o corpo, implicava-lhe com a atonia da alma. Sentia o egosmo indolente dos enfermos minados pela consumpo lenta. Invejava a robustez do irmo, um trabalhador forte que dormia dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o gado com uma

grande alegria de assobios remedando as requintas das chulas. Passava muitas horas com o seu confidente, o padre Osrio. Pedia-lhe conselhos-que arranjasse modo de ele poder casar

com a Marta.

- Que eu - dizia com desalento - no vou longe; mas queria remediar o mal que fiz.

A Marta escrevia-lhe para Caldelas, porque a tia Maria de Vilalva, uma vez que l viu um garoto com carta para o filho, deu sobre ele com um engao, que por pouco o no apanha pela cabea com os dentes do instrumento. As cartas eram desconfianas, receio do abandono, lgrimas. O pai no a mortificava. Pelo contrrio, dizia-lhe a mido:

-Se o Z de Vilalva no casar contigo, talvez seja a tua fortuna, porque pode ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais ms menos ms ele rebenta por essa porta dentro rico como um

porco. O brasileiro da Rita Chasca, que chegou agora, diz que ele tem quatrocentos contos fortes, pra riba, que no pra baixo.

A Marta escondia-se a chorar; e, s vezes, lembrava-se do fim da me - o suicdio; e punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido cavo de uma levada que parecia trazer-lhe os gemidos agonizantes de muitos afogados.

O Dias falava-lhe na sua doena, no desfalecimento de foras que j o no deixavam caar, da tristeza que o consumia, do desamor com que a famlia o via padecer, do dio que comeava a

ter  me, e das saudades dilacerantes que sentia pela sua querida Marta. Que o seu amigo padre Osrio trabalhava para obter o consentimento do pai; mas que, se o no obtivesse, estava resolvido a fugir com ela, mesmo sem recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe podia emprestar.

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De tempo a tempo ia v-Ia de dia; mas a me trazia-o muito espreitado, e ralava-o: que a tal croia havia de dar cabo dele. O cirurgio tinha-lhe dito delicadamente que o Jos abusava do sexto. Ela, como sabia os mandamentos de cor e salteado, entendeu logo, e dizia a toda a gente que o seu Z andava assim um pilharengo por causa do sexto. Era o resultado de saber a doutrina crist esta decncia no explicar-se por nmeros. As vizinhas entendiam-na e diziam-lhe que o Jos andava "forgado".        Ih ,que e metesse uma enxada nas unhas e o pusesse a roar mato oito dias, que ele perdia o cio.

Decorreram alguns meses. Com a Primavera a sade de Jos Dias pareceu restaurar-se. Ele atribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai, que era regedor, a pedido do governador civil que o mandou chamar a Braga, por interveno do padre Osrio, dava o consentimento; mas a me recalcitrava. Esperava-se, porm, a vinda dos missionrios a Requio, para a reduzirem ao dever de catlica. O vigrio de Caldelas j tinha prevenido um egresso do Varatojo, Fr. Joo de Borba da Montanha, das terras de Celorico de Basto, duma fora prodigiosa em empresas mais difceis.

Marta recobrava alegres esperanas, e o Zeferino das Lamelas digeria a sua dor, assobiando a msica da melanclica balada:

 mar, se queres, Tem d de mim,

Para seu desafogo, ia a mido a Quadros saber quando chegaria o Sr. D. Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formara-se a juno dos dois partidos hostis aos Cabrais, aproximados pelas eleies sanguinrias de 1845. O tenente-coronel reunia espingardas em Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuxame no concelho da Pvoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimares. O padre Rocha comunicava-lhe as

notcias enviadas de Londres pelo Saraiva, e conseguiu que ele fosse ao Porto receber o grau de comendador da Ordem de

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S. Miguel da Ala a casa do Joo de Albuquerque, da Insua, que representava nas provncias do Norte o gro-mestrado. O Zeferino sentia momentos de jbilo de tigre que se agacha a medir o salto  presa. Tinha um riso que era um ranger de dentes. Parecia-lhe que estava a mastigar os fgados do Jos Dias.

XIV

Em Maro daquele ano, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os motins populares 6 concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na Cmara. dos Comuns, Lord Bentinck explicou tragicamente, em frases pomposas, a origem dessa revoluo, que um desdm indgena chamou "rebelio da canalha". Ele disse "que os Cabrais mandaram construir cemitrios; mas no os muraram; de modo que entravam neles ces, gatos e porcos bravos em tamanha quantidade que chegaram a desenterrar os cadveres" 1. As naes e os naturalistas deviam formar uma ideia assaz agigantada do tamanho dos gatos portugueses que desenterravam cadveres, e das boas avenas dos nossos ces com os referidos gatos na obra da exumao dos mortos, e no menos se espantariam da familiaridade dos javalis que vinham do Gers colaborar com os ces e gatos naquela minerao das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreio nacional de 1846 est definida nos fastos da Europa revolucionria. Foi uma reaco, uma batalha social  canzoada e gataria confederadas com o focinho profanador do porco~monts. E da procedeu escreverem os jornalistas da Alemanha, um pas srio, que a revoluo do Minho era o "tipo da legalidade". Os cadveres servidos nos banquetes ilegais e nocturnos dos javalis, com a convivncia de gatarres a rosnarem com o lombo eriado, e

1 Carta dirigida ao cavalheiro Jos Hume. Verso de Antnio Pereira dos Reis, 1847, pg. 99.

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molossos de colmilhos ensanguentados foi caso que impressionou grandemente as raas tudescas, por ser um acto proibido pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas de Braga, quer a alcateia das feras coligadas, o certo  que a insurreio do Alto Minho talou esta provncia e a transmontana, devastando as papeletas impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos gatos e seus cmplices fez sofrer ao capital do pas uma diminuio de setenta e sete milhes e meio de cruzados, segundo o clculo do ministro da Fazenda, Franzini, muito retrgrado, mas um gnio no algarismo.

O Zeferino das Lamelas, s primeiras comoes do vulco popular, nos arredores de Guimares, preparou-se; e assim que ouviu repicar a rebate em Ronfe, cheio de cimes como o sineiro de Notre-Dame, agarrou-se  corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de trs freguesias, e pegou a dar "morras" aos Cabrais com aplauso universal. Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este expediente estatstico com "canastro": que os Cabrais e os seus empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal  Inglaterra; que esses

ris estavam nos cartrios das administraes e em casa dos regedores; que era preciso queimar as "papeletas" e matar os cabralistas.

Em seguida, invadiram a administrao de Santo Tirso, quebraram as vidraas dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos papis acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalico. Zeferino nomeara-se "chefre" da gentalha embriagada nas adegas arrombadas dos cabralistas, e, alvitrou que se prendessem os regedores que topassem. Dizia que o Joaquim de Vilalva, nas eleies do ano, anterior, muito socadas, cascara no povo e mais os cabos, na assembleia de Landim, cacetada brava. A bebedeira dos ouvintes dera  prfida aleivosia do pedreiro vingativo o valor de facto histrico. O plano de Zeferino era abrir oportunidade a que Jos Dias fosse assassinado ou, pelo menos, preso e degredado como cabralista.

Vilalva ficava-lhes a jeito, no caminho de Famalico. O amante de Marta ouvira grande alarido e vira ao longe a multi-

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do que galgava um outeiro turbulentamente. Via-se desfraldado no ar, em oscilaes largas, o pano escarlate de uma bandeira:

era um pedao do velho estandarte que servia nas procisses de Santa Maria de Abade. Jos pediu ao pai que fugisse. O regedor disse que no -que nunca tinha feito mal a ningum, nem sequer prendera um refractrio: que o mais que podiam fazer era

tirar-lhe o governo.

Jos Dias tinha medo s covardes ameaas do Zeferino; diziam-lhe que o pedreiro jurara mat-lo, e j constava que era

ele o chefe da guerrilha, em que se alistaram todos os ladres e assassinos conhecidos na comarca. A me empurrava-o pela porta fora -que fugisse para Caldelas; que no fosse o diabo armar-lhe alguma trempe por causa da Marta, da tal bebedinha que no dera cavaco ao pedreiro. Ele deitou o selote  egua e fugiu a galope; mas o regedor, com a sua conscincia ilibada, esperou os

revoltosos com o Zeferino  frente, brandindo a espada do pai, que no se desembainhara desde o ataque a Santo Tirso.

-Est voc preso por cabralista! -intimou o pedreiro, deitando-lhe a mo  lapela da vstia; e voltado para a turba: - Rapazes, cercaide a casa; tudo que estiver, preso!

- Os meus filhos saram; mas entrem, busquem  vontade -disse o regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente: - Ah, seu Zeferino, seu Zeferino, voc no veio aqui pra me prender a mim...  outra histria que voc l sabe. Isto de mulheres so os nossos pecados, mestre Zeferino...

-No me cante! -bradou o das Lamelas com furiosos arremessos. -Est preso, e mexa-se j para a cadeia.

-Voc no pode prender-me, mestre Zeferino -contrariou a autoridade dentro da lei. -V buscar primeiro uma ordem do meu administrador ou do governador civil.

-j no h governador civil! -explicou o caudilho. Agora so outros governos, seu asno! Quem reina  o senhor Dom Miguel. E voc no me esteja a a fanfar, que eu j o no enxergo. Ande l pr cadeia, com dez milhes de diabos!

O regedor entrou em Vila Nova de Famalico na onda de alguns milhares de homens e rapazes que davam "vivas" a D. Mi-

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guel, s leis novas,  santa religio e "morras" aos cabralistas. Quando queimavam os papis, um brasileiro setembrista, o S Miranda, disse ao comandante que no convinha por enquanto aclamar D. Miguel; que dessem "morras" ao Governo, e "vivas"  religio. Nesta barafunda, o regedor preso entre meia dzia de jornaleiros que discutiam as leis velhas e as novas na taverna do Folipo, compreendera um aceno do taverneiro e fugira pelos quintais. Meteu-se ao caminho de Braga, onde estava o general conde das Antas. O Jos Dias, receando que o perseguissem em Caldelas, refugiara-se tambm em Braga e alistou-se no batalho dos Serezinos, comandado pelo cnego Montalverrie.

Neste meio tempo, chegou da Amrica o Feliciano Rodrigues Prazins, tio de Marta. Demorou-se poucos dias. Ganhara medo que o roubassem as guerrilhas. Foi para o Porto pr em

segurana s suas letras e voltou quando a queda dos Cabrais garantia o sossego dos capitalistas. Na volta a Prazins, olhou mais atentamente para a sobrinha, deu-lhe alguns cordes, e disse ao irmo que no se lhe dava de casar com ela. O Simeo afirmou logo com um descaramento perdovel: que no se fosse sem resposta o mano que a moa dava o cavaco por ele.

Feliciano tinha quarenta e sete anos. No se parecia com a

maioria dos nossos patrcios que regressam do Brasil com uma

opulncia de formas almofadadas de carnes sucadas. Era magro esqueleticamente, um organismo de poeta sugado pelos vampiros do spken. Dizia, porm, que tinha febras de ao e nunca

tomara remdios de botica. Muito mope, usava de monculo redondo num aro de bfalo barato. Como era econmico at  misria, dizia-se em Pernambuco que o Feliciano usava um vidro s para no comprar dois; e que, se pudesse, venderia um

olho como cousa intil. Com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta anos arredondara trezentos contos. Chegara aos quarenta e sete, ao outono da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcara nos patbulos da Vnus vagabunda. A sua virgindade era admirada e notria; depunham a favor dela os seus caixeiros, os feitores e -o que mais  - as suas escravas. Os seus patrcios devassos chamavam-lhe o Feliciano Pudickio. Ele no

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se envergonhava de confessar a sua castidade ao proco de Caldelas. Tinha vivido como um dessexuado; que trabalhava muito nos seus armazns, que dormia poucas horas, e no dava folga ao corpo nem pega aos vcios. Originalssimo. Que lhe saram casamentos ricos; mas que ele para ser rico no tinha preciso de mulher; que vira algumas meninas pobres a namor-lo; mas que desconfiara que lhe namorassem o seu dinheiro. No tinha queda para o sexo, que ele dizia "seixo". Numa palavra, estava virgem. Ele podia dizer como Hanilet: "No me deleitam os homens nem to-pouco as mulheres. "

A sobrinha reformara aquela natureza aleijada. Talvez o desdm com que Marta o tratava na crise da sua paixo fosse grande parte no amor do brasileiro. Alm disto, a moa, muito parecida com ele na delgadeza das formas, tinha encantos que dispensavam a esquivana para se fazer amar de um homem de quarenta e sete anos -intacto de mais a mais. O presente que lhe fez de uma meada de cordes de ouro significava uma desordem, pelo menos interina, na sua condio sovina. Marta aceitou a ddiva sem entusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai a prevenira da possibilidade de ser mulher de seu tio, "se adregasse gostar dela". Quando o tio lhe deu os cordes, teve- _lhe uma nusea, um quase dio, suspeitando-lhe os projectos; e quando ele fugiu para o Porto, com medo s guerrilhas, sentiu ela uma satisfao incomparvel. Entretanto, apesar das ms informaes do brasileiro da Rita Chasca, o Feliciano sentia filtrar-se-lhe nas clulas impolutas do corao o veneno doce de uma paixo cheia de condescendncias, pouco superciliosa em pontos de honra, como quem pensa que no tlamo conjugal no se faz mister a virgindade em duplicado. Mas no era assim que ele pensava. Ningum lhe desdourara a honra da sobrinha, nem o derrio com o Jos Dias fazia implicncia  sua honestidade. Ele no tinha os rudimentos de malcia necessria para desconfiar que uma menina de dezasseis anos, criada nos seios da natureza imaculada de uma aldeia do Minho, pudesse abrir de noite uma janela, debruar-se no peitoril e ajudar a subir um homem. O

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oficial do pedreiro  que sabia casos, anomalias, desde aquela noite em que o luar o enganou.

Marta ouvira aterrada a notcia que o pai lhe deu da vontade do tio. Irritou-se. Tinha sido criada com muito mimo, sem me, voluntariosa, e com uns ares senhoris que desautorizavam o respeito que o pai, rstico lavrador, no sabia incutir. Em vez de chorar como as filhas desgraadas e humildes, respondeu desabridamente que no casava com o tio; que o desenganasse, se

quisesse; e, se no quisesse, ela o desenganaria. A terrvel nova golpeara-lhe o corao cheio de saudades de Jos Dias, que lhe escrevera de Braga, por interveno do padre Osrio, dando-lhe coragem e esperana no casamento logo que cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando ele instava com ela a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem mais rico de Portugal, abaixo do rei- Marta replicava com trejeitos de tdio desdenhoso; e, exaltada pela boal insistncia do pai, protestava, se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua me.

O Simeo perdeu a vontade de comer; andava atordoado numa tristeza estpida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido na serra. A pequena j no queria ir  mesa, metia-se na cama e fingia-se doente para no encontrar o

tio Feliciano.

Jos Dias e o pai permaneciam em Braga, porque em diferentes pontos da provncia continuavam as agitaes miguelistas; o novo ministrio no tinha fora, e o Zeferino das Lamelas nunca depusera as armas. Os seresinos faziam excurses e batiam os realistas ou prendiam os agitadores. Jos Dias, em uma

dessas surtidas a Vila Verde, a p e com pouca sade, ganhara uma bronquite que o teve de cama largo tempo. Quando se levantou, numa aparente convalescena, a tsica tuberculosa recrudescia pessimamente caracterizada. O padre Osrio fora visit-lo, ouvira o mdico e sabia que o seu amigo estava perdido. Falou ao pai, em particular, no estado do filho. Lembrou-lhe a sua promessa de consentir no casamento com a pobre Marta, que se perdera confiada nos compromissos do Jos. O lavrador mostrou no perceber a convenincia de Marta em casar, se o

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seu filho tinha de morrer cedo -que a viva, dizia, nada ganhava com isso, porque os herdeiros de Jos eram seus pais. No compreendeu a questo por outra face. Mas, apertado pela palavra que dera, repetiu que ele pela sua parte concedia a licena, se a me a desse; e justificava-se deste respeito  mulher, alegando que a casa de Vilalva era toda da sua companheira, e o que ele levara para o casal no valia dois caracis:

- Enfim - conclua -, se o rapaz arrijar, casa, querendo a

me; mas, enquanto ele assim estiver, faa favor de lhe no falar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal... E um homem que est doente deveras no deve pensar em mulheres,  na salvao da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osrio.

- O vigrio aprende o padre-nosso - dizia o de Caldelas. Entretanto, o doente, muito animado, no sentia aqueles desalentos e pressgios de morte que meses antes o afligiam. Habituara-se ao sofrimento; j no tinha memria das perfeitas delcias da sade. Quando expectorava sem violncia, e a dispneia cedia aos xaropes e ao pez de Borgonha, julgava-se em uma

quase completa restaurao. Escrevia ao Osrio e a Marta com muita alegria e devotos agradecimentos a Deus e a Maria Santssima com quem se apegara fervorosamente desde que padecia, e

tambm com o leo de fgado de bacalhau.

A repugnncia de Marta, face a face do tio Feliciano, seria um afrontoso desengano para o milionrio, se no interviesse o implacvel e engenhoso cime do Zeferino. Este chefe de guerrilha em armistcio soube que o brasileiro queria casar com a sobrinha e que o Jos Dias estava em Braga muito acabado, a dar a casca. O pedreiro chamou os bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brasileiro de Prazins pedira para Famalico um regimento da diviso do Antas para deitar cerco s casas dos realistas, e sujeitara-se a sustentar o regimento  sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prend-lo como cabralista, e faz-lo pr  m cara o dinheiro que havia de dar  tropa. Um dos da malta, vizinho do brasileiro, o Melro, tinha-o convi-

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dado para padrinho de um filho. Procurou-o s escondidas e avisou-o que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a pressa. Queria que a sobrinha tambm fosse. Escrevia-lhe que, se quisesse ir, compraria casa no Porto. Marta respondia que estava muito doente, que no podia sair da cama. O pai chegava a

descomp-la: que no tinha molstia nenhuma, que era por causa do Z Dias; mas que perdesse da a ideia porque estivera com

o doutor Pedrosa, de Santo Tirso, que o vira em Braga, e lhe dissera que o Dias estava "tego" e mais ms menos ms esticava a canela.

Marta respondia com serenidade de alma forte, e escorada numa resoluo suicida:

-Se no casar com ele neste mundo, casarei no outro. -Que te leve o diabo! -resmungava o Simeo, riando freneticamente as suas. Depois voltava manso e velhaco  beira do leito:-Olha, menina, teu tio est velho e esmagriado. Aquilo no pode ir longe. Tu ficas pra podre de rica, e podes casar depois com um fidalgo, se quiseres...

- Valha-me Nossa Senhora! -murmurava Marta, pondo os olhos na litografia da Me de Jesus traspassada das sete espadas. -Quem me dera morrer...

A tsica do Jos Dias com as frialdades hmidas de Novembro entrou no segundo perodo. Recrudesceram as dores de peito

e a dispneia, com acessos febris nocturnos. Expectorao esverdeada com istrias amarelas, e extrema magreza com repugnncia a todo o alimento. Pela auscultao ouvia-se-lhe o som

gargarejado do fervor cavernoso. Os mdicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incomodidades da estalagem, e o levasse para casa, onde lhe seria mais suave a morte na sua cama

com a assistncia da famlia. Foi para Vilalva transportado numa

liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais desafogado; e que, se h mais tempo tivessem sado de Braga, j ele estaria rijo.

A me, quando o viu entrar to acabado, to desfigurado, fez um berreiro descomunal, e no teve mo em si que no rogasse

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pragas  Marta, que lhe matara o seu querido filhinho. As vizinhas concordavam: que diabos levasse a mulher que o tolhera!

O doente afligia-se, chorava corno criana, e pedia ao pai que o deixasse ir para Caldelas, para casa do seu amigo; que no podia ver a me; que lha tirasse de diante dos olhos; e que, se ele tivesse de morrer, que lha no deixassem ir  beira da sua cama.

E fazia trejeitos furiosos, com os olhos a estalar das rbitas escavadas, incendido pela febre.

Chegou o padre Osrio, e o doente aplacou-se sob as consolaes calmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia seguinte para Caldelas; mas nunca mais se levantou, nem fez inteis esforos.

Osrio no o desamparou. Ia  sua igreja dizer a missa dominical e voltava para Vilalva com as respostas de Marta aos bilhetes que Jos lhe escrevia -poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam alegres esperanas.

Toda a influncia de Osrio no conseguiu que o enfermo recebesse a me no seu quarto. No lhe podia perdoar o dio que ela tinha a Marta; e bradava que a fazia responsvel perante Deus da desonra da desgraada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos para a eternidade, e dizia de si consigo, a beata: "Bem me fio eu nisso. "

Por fim, j no podia escrever, nem levantar a cabea do travesseiro; mas perguntava ao Osrio se tinha notcias de Marta; que pedisse ao irm o que fosse l, e lhe dissesse que ele estava mais doente, e no podia escrever.

Um desses recados motivou o bilhete que se copiou na "Introduo" deste livro, e que o moribundo j no pde ler. Desde que a me lhe meteu  fora dentro do quarto o vigrio com a extrema-uno, um homem de opa com a campainha, outro

com a gua benta na caldeirinha, mais dois com tochas, e outros com a sua devota curiosidade, o moribundo caiu na modorra comatosa, e apenas, com longos espaos, tinha uns acessos sibilantes de ligeira tosse seca. Abria ento os olhos que fitava no

rosto de Osrio, e s vezes circunvagava-os espavoridos como

A BRASILEIRA DE PRAZINS                159

em busca da viso espectral da me que o vigrio de Caldelas cuidadosamente e com doloroso constrangimento defendia de entrar  alcova.

Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Vilalva. Marta perguntou ao pai quem tinha morrido.

Ele respondeu serenamente: - Dizem que foi o Dias que est com Deus. Reza-lhe por alma que  o que ele precisa agora.

Marta deu um grande grito, e com as mos na cabea, a correr, deitou a fugir pelos campos. Ela sabia onde era o remanso

fundo do rio Ave em que a me se suicidara. O pai correu atrs dela, a gritar, que lhe acudissem. Fora da aldeia, andava uma

roa de mato, com muitos jornaleiros que correram todos atrs de Marta, e a levavam quase apanhada quando ela caiu, a

estrebuchar, em convulses. Conduziram-na para casa com os

sentidos perdidos, e puseram mulheres a vigi~la na cama. Esta nova chegou a Caldelas. D. Teresa, a irm do padre Osrio, foi com o irmo a Prazins, e convenceram o Simeo a deixar ir a filha para a companhia deles algum tempo.

Marta chorava muito, abraando-se no amigo de Jos Dias; e

ele, quando o lavrador com impertinncia dizia  filha "est bom, est bom", observava-lhe com azedumes:

Deixe-a chorar, deixe-a chorar! -E voltando-se para a irma: - A estupidez  cruel!

XV

O Simeo de Prazins tinha sido antigamente regedor um

ano; depois, cado o ministrio e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder o Joaquim de Vilalva, cartista puritano, com a restaurao da Carta. Duas restauraes boas. O Simeo lembrava-se com saudades da sua importncia no ano em que governara a freguesia-o respeito dos rapazes recrutados, as

consideraes dos taverneiros que davam jogo em casa, das raparigas solteiras que andavam grvidas, a autoridade do seu funcionalismo na junta de parquia, etc. Ora, como o Joaquim de Vivalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a

demisso, o administrador nomeou a regedoria no de Prazins.
O brasileiro achou que era bom ter de casa a autoridade para maior segurana dos seus cabedais e pessoa. Foi uma desgraa.

Depois do Convnio de Gramido, Zeferino recolhera s Lamelas com alguns dos seus primitivos legionrios. Ele tinha passado transes amargos. Ajuntara-se ao aventureiro Reinaldo Mac Donell, em Guimares, quando o escocs descia do Marco de Canaveses para Braga; esteve nas barricadas da Cruz da Pedra quando o baro do Casal espatifou a resistncia daqueles desgraados iludidos pelo caudilho estrangeiro; foi dos primeiros a fugir por Carvalho de Este, ao compreender a inutilidade da defesa, e por montes e vales deu consigo em Porto de Ave, e daqui foi para Guimares onde se aquartelaram o Mac Donell com o seu estado-maior. Logo que chegou, foi procurar o tenente-coronel Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general.

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Mandaram-no ao palacete do visconde da Azenha, onde o escocs se tinha aquartelado com o seu estado-maior. O Cerveira Lobo estava a beberricar conhaque velho copiosamente sobre uma ceia farta, comida sem sobressaltos.  mesa, onde faiscavam os cristais dos licores, avultavam, cintilando os metais das suas fardas, o quartel-mestre-general Vitorino Tavares, de Fagilde, Jos Maria de Abreu, ajudante de ordens, o morgado de P de Moura, o Cerveira Lobo e o Sebastio de Castro, do Covo, comandante do batalho de voluntrios realistas de Oliveira de Azemis, que arredondava quarenta e duas praas, e seu irmo Antnio Carlos de Castro, ajudante de ordens do general -dois homens gentilmente valorosos-, o coronel Abreu Freire, morgado de Avanca, e o Bandeira, de Estarreja, que  hoje padre.

A noite era de 27 de Dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A garrafeira da casa do Arco era um calorfico. O Mac Donell, muito rubro, naquela bebedeira crnica que lhe assistiu na vida e na morte, esmoia a ceia passeando num vasto salo, de brao dado com uma formosa senhora da casa, D. Emlia Correia Leite de Almada. Dir-se-ia que o bravo septuagenrio tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos drages de Chaves com gestos blicos e as pernas desviadas como se apertasse nas coxas a sela de um cavalo empinado no fragor da peleja. Nisto entrou um camarada, s onze da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre-general, que o procurava com muita urgncia um capito de atiradores do batalho do Ppulo.

O Vitorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capito Pinho Leal 1, um robusto e jovialssimo rapaz, de trinta anos, com uma f poltica antpoda da sua forte inteligncia -- uma espcie de poeta medieval, com um grande amor romntico s catedrais e s instituio obsoletas e extintas. Ele tinha muitos

1 Era o meu actual e prezado amigo Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal, autor do Portugal Antigo e Moderno.

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destes camaradas visionrios e respeitveis na sua falange da Madre Silva...

-Que h? -perguntou o quartel~general.
- H que estamos cercados pelos Cabrais. Os nossos piquetes de Santa Luzia e do Castelo j foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em outros pontos. Veja l o que quer que eu faa.

O Vitorino ficou passado de terror, e levou o capito  sala em que o Mac Donell passeava pelo brao de D. Emlia Correia, e o visconde, o hospedeiro fidalgo, palestrava com numerosos hspedes, cnegos, abades, capites-mores, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escocs o que dissera ao seu quartel-Mestre. "0 alma do diabo", escreve o Sr. Pinho Leal, "ficou com a mesma cara imperturbvel, e disse-me: "Isso no vale nada. Tenho tudo prevenido. Mande recolher a gente a quartis. " " Mas a dama, assustada, desprendeu-se do brao do general, e foi preparar os bas para a fuga; e os do estado-maior compeliram o general a fugir tambm. Era uma hora da noite quando o exrcito realista abandonou Guimares e entrou na estrada de Amarante.

Pinho Leal inventara o ataque dos cabralistas para salvar-se a

si e aos outros da camiceria inevitvel; porque, ao romper a manh do dia seguinte, entraram em Guimares seiscentos soldados do Casal ainda embriagados da sangueira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu estilo militarmente pitoresco os veracssimos esclarecimentos de Pinho Leal:

... A besta do escocs continuava na sua ptria sem se importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua "corte", Eu, vendo que de um momento para outro, podamos ser surpreendidos e trucidados pelos Cabrais, aproveitando a circunstncia de estar "superior do **dk " e tendo na casa, cmara um suporte de cem homens, comandados pelo alferes Jos Maria (o morgado do Diste), dei-lhe a ele somente parte do que ia pr em

execuo. Escolhi da gente do suporte um sargento e quatro soldados da mesma companhia, de todo o segredo e confiana, Sa com eles por um beco e fui com eles pela frente dar uma des-

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carga no nosso piquete de Santa Luzia, e outra no piquete do Castelo. Ao mesmo tempo, no sei quem  que estava em um

monte ao norte de Guimares que deu uns poucos de tiros que muito ajudaram o meu plano. O Diste, em vista da nossa prvia combinao, mandou tocar a reunir e formou o suporte debaixo dos Arcos da Cmara. Eu e os meus cinco homens viemos surrateiramente metermo-nos na vila, Fui passar revista ao suporte a tempo em que j na Praa da Oliveira estava muita gente armada 1.

E dali, Pinho Leal ^foi  casa do Arco, a fim de salvar aqueles homens que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificao de idiotas, e retardar alguns dias a benemrita morte do general escocs assalariado por Guizot com credenciais de Costa Cabral.

O Cerveira Lobo, quando soube que a fora marchava  uma

hora daquela noite frigidssima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma botija de genebra da fina, Fockink legtima. Tinha um frasco empalhado que punha a tiracolo nas marchas nocturnas. Encheu-o com ajuda do pedreiro. O tenente-coronel, num

grande desequilbrio, no acertava a despejar a botija no frasco.
O Zeferino dizia depois que o vira to borracho que logo desconfiou que malhava a baixo do cavalo. O Cerveira afirmava que se sentia com os seus trinta anos; que andara a trote largo do seu cavalo treze lguas e no estava cansado. O Zeferino perguntou--lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu, iracundo, que o general era um asno, e que ele estava resolvido, e mais o Vitorino, mat-lo como traidor ao Sr. D. Miguel.

Moveu-se o exrcito em direitura  Lixa. O Cerveira ia no grupo do quartel-general. Mac Donell, de vez em quando, regougava monosslabos em espanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se s vezes um pouco e emborcava o cantil, gorgo' Carta de 10 de Junho de 1877.

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lejando e despegando pigarros teimosos. O Vitorino notava-lhe que ele bebia de mais -que o calor da genebra no se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabea - que era um perigo. O Cerveira dizia que estava afeito; mas queixava-se de dores nas fontes e zunidos nas orelhas; que no se podia lamber com sono, e que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama.

E abaixando a voz tartamuda:

- Este ladro deste ingls meto-lhe a espada at aos copos! Palavra de honra que o mato amanh!

O Vitorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas atribuiu  embriaguez o embarao na fala. Entrou a queixar-se o Cerveira de que estava tonto da cabea, que se queria apear, porque no podia agarrar as rdeas; e chamava com ansiedade o Zeferino, que vinha muito  retaguarda. O quartel-mestre~general chamou um ajudante de ordens, e pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo dobrava o

tronco ao longo do pescoo do cavalo que estranhava o peso e o sacudia, sentindo-se livre da presso do freio.

O apoplctico ia resvalar, quando os dois oficiais o ampararam nos braos, numa sncope. Um deles acendeu um palito fosfrico no lume do charuto., e disse que o tenente-coronel tinha o rosto inchado e muito vermelho. Chamavam-no, sacudiam-no; no dava sinal de vida; nem um ronquido estertoroso. Inclinaram-no sobre um combro de mato molhado; no lhe acharam pulso; a boca entortara-se, e os olhos muito abertos com umas istrias sanguneas. Estava morto, fulminado pela apoplexia alcolica.

A respeito deste desastroso remate do brio ilustre, escreve

Pinho Leal:

Nesta retirada pelas duas ou trs horas da noite, morreu em marcha com uma apoplexia fulminante o F.. ' Coitado., quando me lembra isto ainda tenho c meus remorsos de conscincia.

1 Quando Pinho Leal publicar as suas memrias, ento se saber o verdadeiro nome do morto.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      165

Quem sabe se seria eu a causa da morte daquele pobre diabo? Consola-me porm a certeza de que -mesmo que eu fosse a

causa indirecta da morte do fidalgote - poupei muitas vidas de gente moa (e a minha, que era o principal para mim); e o morto j poucos anos podia durar, pois estava no calado velho 1.

Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da noite  beira do cadver do fidalgo de Quadros.  claridade fusca da manh invernosa viram-lhe o semblante, que metia pavor. Quiseram cerrar-lhe as plpebras que resistiam  disteno, coriceas, num retesamento orgstico. A maxila inferior parecia deslocada e torta, repuxando a comissura direita dos lbios num esgar de escrnio ou de angstia dilacerante. A cor

do rosto era agora duma amarelido de barro, molhado pelo orvalho que se filtrara atravs do leno com que lho cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexveis e uma das mos afincada como garra nas correias da pasta.

O Zeferino disse que o seu tenente~coronel devia trazer um cinturo com dinheiro em ouro; mas ningum ousou desabotoar a farda do morto, defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinelas, intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que foi dia claro, o Zeferino desceu  igreja prxima, a Margaride, avisar o proco que tinha morrido na estrada um fidalgo do exrcito do Sr. D. Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que no era coveiro; que se dirigisse ao regedor. A autoridade, sem as delongas dos processos legais, depositou o cinturo com as peas na mo do administrador, e mandou abrir uma cova no adro da igreja, onde o

baldearam com um responso econmico. Passavam jornaleiros para as roas. Punham as enxadas no cho e encostavam s mos calosas as caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto de ris em ouro.

-Toma! -disse um dos jornaleiros -, um conto de ris!

1 Carta citada.

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-E inclinando-se  orelha doutro jornaleiro: -  Tnio, se ternos ido mais cedo para o monte... e topamos o morto...

- Que pechincha! ... Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idlio em prosa,

O Zeferino acompanhou a guerrilha at que mataram o general em Trs-os-Montes os soldados do Vinhais; depois passou com alguns chefes realistas para a junta do Porto; e, acabada a

luta, foi para casa, e entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas carcias:

- Eu sempre te disse que eras uma cavalgadura! Que te no fiasses no bbedo de Quadros; que no sasses a campo sem l ver o morgado de Barrimau. Agora, pedao de asno, toma a

comear com as paredes, e tem cuidado que te no deitem a

unha. Lembra-te que prendeste o regedor de Vilalva, e quiseste agarrar o brasileiro de Prazins, que tem agora de mais a mais o irmo regedor. Olha se te lembras... A me do Jos Dias anda por a a berrar que a Marta e mais tu lhe mataste o filho. Lume no olho, homem, lume no olho!

- Se algum embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta! -protestava o pedreiro, cortando com o brao e punho fechado punhaladas areas. -Se me matarem... at lho agradeo! -E com desalento: -Sou o maior infeliz e desgraado que cobre a rosa do Sol! Veja voc; h trs anos que no tenho uma

migalha de "estifao", cum raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lho eu! Voc ver, sor pai, que ou me matam ou eu acabo numa forca por amor daquela rapariga que foi o' diabo que me apareceu, e no me passa daqui! -e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos corno quem apanha uma pulga.

Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. Para as cabeas dos distritos ramificaram-se

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      167

destacamentos a fim de coadjuvarem a autoridade. Simeo de Prazins, como regedor, foi chamado a Famalico e incumbido de dirigir a diligncia militar que devia dar um assalto a Lamelas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as condies estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor compreendeu o perigo da empresa; pediu que o demitissem, mas a

autoridade imps-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a demisso.

Quando o Zeferino, sucumbido  carga dos reveses, indiferente  vida e  morte, se chamava "infeliz" e "desgraado", o

destino implacvel preparava-lhe novo desastre. Ele, ao romper da manh, depois de uma insnia febril, sonhava que era

sargento-mor das Lamelas e assistia  formatura do regimento de milcias de Barcelos debaixo do solar de D. Maria Pinheiro. Na janela gtica do velho edifcio da poca de D. Afonso IV estava D. Miguel assistindo ao desfilar do seu exrcito vencedor, em que havia muitas msicas marciais, de fulgurantes trompas, tocando o Rei Chegou; e o abade de Calvos, dentro de um carroo e vestido de pontifical, borrifava o povo com hissopadas de gua benta, cantando o Bendito. As tropas estendiam-se at Barcelinhos, e pelo Cvado a baixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes com as bandas musicais de Santiago de Antas e de Ruives tocando a Cana Verde e gua Leva o

Regadinho. Em um desses bergantins com pavilho de colchas vermelhas vinha sentada a irm do padre Roque, mestre de latim, com os seus culos, a fazer meia; e ao lado dela, vestida de cetim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabelos soltos, vestida como os anjos da procisso da Senhora da Burrinha em Braga, a Marta de Prazins. Ele estava na ponte, absorto na viso da noiva que chegava pelo Cvado para se casar quando um vizinho lhe bateu com o cabo da sachola na janela trs pancadas. Saltou da cama atordoado: que fugisse pelo quintal, que j estavam soldados a entrar nas Lamelas com o regedor.

Zeferino ganhou de pronto os desvios dum pinhal, e por detrs dum socalco enxergou o Simeo ao lado do sargento da

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escolta parar em frente da sua casa e apontar para as janelas. Ouviu bater estrondosas coronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e entrarem pela porta da cozinha, que ficara aberta. Depois, avistou a escolta a retirar-se com dois homens carregados de armas.

O velho alferes, entrevado, estava muito aflito quando o filho entrou. O sargento quisera levar-lhe a sua espada; e compadecera-se dele quando o vira a chorar e a dizer-lhe que era um alferes do antigo exrcito, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, j que ele no podia defend-la porque estava tolhido.

O Zeferino perguntou pacificamente: -E o Simeo que dizia? -No dizia nada. Eu  que lhe disse... "Arrieiros somos, na estrada andamos, vizinho Simeo. "

O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mos afincadas na cabea: olhava para o canto em que tivera duas dzias de espingardas compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignao contrafeita:

-Elas assim com assim j no serviam de nada... A guerra acabou... Que leve o diabo tudo... -E, passados alguns segundos de recolhida angstia: -Veja voc, sor pai! O Simeo d-me a filha, depois diz que ma no d; isto no se fazia a um

homem que pe navalha na cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, voc bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da minha paixo, fiquei areado do juzo, deixei a arte, andei por esse mundo a gastar  minha custa, ao frio e ao calor, em trminos de me levar o diabo com uma bala; e vai agora o Simeo entra-me pela porta dentro, leva-me as armas e, se me pilha, metia-me uma baioneta

no corpo...

-Homem -atalhou o pai com juzo -, no fosses tu l a

Prazins embirrar com o brasileiro...

-Eu tenho a minha paixo -objectou o filho com transporte -, tinha c dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e ele... que mal lhe fiz eu pra me querer mal?... Sabe voc que mais?... Assim comassim, estou perdido...

A BRASILEIRA DE PRAZINS                     169

Saiu arrebatadamente e foi para o Monte Crdova conversar com o Patarro, um velho celerado que se batera em Braga com a cavalaria do Casal e pudera salvar-se com o sacrifcio de trs dedos e do nariz acutilados.

Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalico. O regedor tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta solarenga, torreada, com o braso dos Brandes, que o brasileiro comprara a um fidalgo de Afife. O negcio deitara a tarde. Simeo sara ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dois lavradores doutra freguesia que montavam guas andadeiras de muitos brios. O Simeo cavalgava a sua velha rua, duma pachorra mansa, invulnervel  espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e andando para trs. Ela no podia manifestar de um modo mais sensvel a sua repugnncia pelas pressas. O dono gabava-se de s ter cado juntamente com ela poucas vezes. Saram da feira conversando a respeito de Marta. Constava aos outros que ela se quisera matar  conta do Jos Dias. O Simeo achava que sim, que ela quisera atirar-se ao rio; mas que estava quase boa em Caldelas; que o vigrio e mais a irm lhe tinham dado um jeito ao miolo; e logo que ela estivesse fina, casava com o tio.

-E ele quere-a ? -perguntou o Bento de Penso. -Pois ento! ... Tomara-a ele j.
- Enfim - tomou o Bento -, voc h-de perdoar que eu

lhe diga o que tenho c no sentido. O povo diz que o Dias entrava l de noite. Eu no vi, mas  o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com mulher de maus cretos. O seu brasileiro pelos modos  de b comer...

-Tem b estmago,  o que -confirmou o Belchior da Rechousa.

O Simeo no estranhava estas franquezas muito triviais nas

aldeias ainda imaculadas do resguardo das convenincias; mas

defendia a honra da filha, atribuindo ao Zeferino as calnias que espalhava para se vingar.

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-Enfim-disse o Belchior-, voc tinha-lha dado por quinze centos.  o que diz o povo, e palavra de home no toma a trs.

-Isso c da minha parte foi chalaa... - defendia-se o Simeo, quando trs homens, mascarados com lenos, ficando as

argolas dos paus no caminho, saltaram de uma ribanceira,  frente das trs guas, que caminhavam a passo. Um dos trs jogou uma paulada  cabea do Simeo e derrubou-o.

Os dois lavradores das guas travadas deram de calcanhares e

pareciam dois duendes de comdia mgica vistos  luz crepuscular. O caseiro abandonou as sogas dos bois, galgou paredes e

searas em desapoderada fuga at Famalico, e  entrada da vila gritou: " Aqui d'el-rei, ladres! " Contou o sucesso ao povo alvorotado, acudiu a autoridade, encheu-se a estrada de gente em

cata de Simeo e da malta dos ladres. Acharam-no prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de sangue que borbotava empoando-se dos dois lados da cabea. A gua rilhava entre os dentes e o freio umas vergnteas tenras de tojo, e de vez em quando tossia a sua pultnoeira com os ilhais enfolipados. O Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabea do ferido, e disse que tinha o miolo  vista; no podia durar muito, que lhe dessem a santa-uno. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais prximo e levaram-o para Prazins prometendo duas de doze a dois jornaleiros. O caseiro montou a gua para ir a Santo Tirso chamar o Baptista, o cirurgio da casa; mas a burra, estranhando as esporas dos tamancos, levantou-se com o cavaleiro, deixou-se cair sobre os jarretes traseiros, voltou-se de lado como quem se ajeita para dormir: foi necessrio levant-la. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro puxava debaixo do ventre da gua a perna entalada, muito cabeluda; e ali perto estava a padiola com um velho gemente, agonizante, a pedir a confisso.

Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso  Marta que o pai estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladres de estrada. D. Teresa e o prior acompanharam-na. Quan-

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do chegaram, saa o proco de o confessar e tocava o sino ao vitico. Havia uma agitao de angustiosa curiosidade no povo que conflua  igreja chamado pelo sinal. Dizia-se que eram ladres que saram ao lavrador em Santiago de Antas; havia opinies mais individualistas; segredava-se o nome do pedreiro; um pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamelas o Patarro de Monte Crdova e mais outro mal-encarado; mas todos  uma diziam que no tinham visto nada, nem queriam saber de desgraas, com medo  malta do Zeferino.

O Simeo estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a cama, resfolegando com muita ansiedade, gemendo com dores, e a cabea um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em trs pelo vigrio. Esperava-se o cirurgio. A filha teve um desmaio quando viu a cara ensanguentada do pai,  luz mortia de uma vela de sebo numa placa de lata. D. Teresa, com a Marta nos braos, disse ao irmo:

- Que misria de casa! Pede luzes e gua para se lavar aquele sangue.

E, assim que Marta voltou a si, levou-a para o seu quarto-que a viria chamar quando o pai a pudesse ver. Queria retir-la do espectculo dos paroxismos.

Quando chegou a extrema-uno com o prstito clamoroso do Bendito e o tilintar espacejado da campainha, Marta carpia-se em altos gritos, e pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.

Ela tinha ouvido dizer a uma das vizinhas que lhe invadiram a alcova:

-Quem lhe bateu,  mulheres, no foi outro seno o Zeferino das Lamelas. Juro que no foi outro.

Esta afirmativa cravou-lhe no corao o remorso de ser ela a causa da morte do pai. Queria ir pedir-lhe perdo; rogava  sua

amiga que pelas chagas de Cristo a deixasse ir ajoelhar-se  beira de seu desgraado pai. D. Teresa conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse o curativo; que o cirurgio no queria no quarto seno o barbeiro que lhe estava a

rapar a cabea.

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Pouco depois chegava o tio Feliciano da Quinta da Retorta, onde residia assistindo s obras. Vinha aterrado. Disse ao Osrio que j estava arrependido de comprar a quinta; que Portugal era

uma ladroeira e um bando de facnoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai.

O cirurgio saiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara um pedao de tegumento, deixando descoberto o crnio que o ferrador da Terra Negra chamara o miolo. A hemorragia era grande, e havia receio de comoo cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe pr panos molhados na

cabea, de quarto em quarto de hora, Marta e Teresa no abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osrio passou a noite na saleta atendendo o brasileiro que lhe falava muito na sobrinha, na paixo que ela tivera pelo Jos Dias, e no lho levava a mal, pelo contrrio.

A pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabea, bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lgrimas. O padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que ele estivesse agonizando. Depois aquela agitao esmoreceu

num dormitar sobressaltado com a cabea no regao de Marta, que brandamente lhe compunha o pacho na ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repeliu-a. Falou no

pedreiro que o matara, e recaiu no estado comatoso. O padre Osrio atribua aquela sonolncia a derramamento de sangue no

crnio, um sintoma de morte provvel. O cirurgio veio de madrugada, mandou-lhe deitar sanguessugas atrs das orelhas, e

disse ao vigrio de Caldelas que estava mal-encarado o negcio; que aquele diabo de sono lhe parecia de mau agouro. Que ia ver

uns doentes e voltava logo.

Marta fazia muitas promessas  Senhora da Sade; dez voltas de joelhos ao redor da sua capela, um resplendor de prata, jejuar a po e gua seis meses a fio, no comer carne durante um ano,

A BRASILEIRA DE PRAZINS                         173

ir descala  romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas sentia-se menos oprimida do seu remorso; o pai estava ali a

morrer por causa dela, e a Maria de Vilalva j dizia tambm que fora ela a causa da morte do seu filho. Uma desgraada, que vinha assim a causar a morte do noivo e do pai.

O ferido teve uma intermitncia de repousada viglia. Olhou para a filha, e disse-lhe que morria, que a deixava sem pai nem

me. O Feliciano acudiu:

-Isso no lhe d cuidado, mano Simeo. Nada lhe h-de faltar.  minha sobrinha; no tenho mais ningum neste mundo.

- Eu morria contente - balbuciou o Simeo lacrimoso se ela fosse sua mulher...

Fez-se um silncio esquisito. Marta abaixou os olhos; a D. Teresa olhou para o irmo a ver o que ele dizia; o padre Osrio olhava para o brasileiro a ver corno se expressavam as suas ideias; o Feliciano esperava que os outros dissessem alguma coisa. E ento o pai de Marta, aconchegando-a de si, com muita ternura:

-Casas com o teu tio, minha filha?  o ltimo pedido que te fao...

Marta fez um gesto afirmativo, e caiu de joelhos, curvada sobre o leito, a soluar; depois, deu um grito e escorregou para o cho, em convulses, com o rosto muito escarlate e a boca a espumar. D. Teresa e o irmo conduziram-na ao seu quarto. Deitaram-a j sossegada, mas numa rigidez insensvel, com a

boca ligeiramente torta.

O cirurgio chegava nesta conjuntura e disse que a rapariga herdara a molstia da me, que eram ataques epilpticos; e ao

tio Feliciano disse-lhe particularmente que o pior da herana no

era a epilepsia; era a demncia que levou a me ao suicdio. Que a rapariga era fraca, e tinha sido criada com umas mimalhices de menina da cidade, que estragam o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado com ela, no a afligir, distrai-Ia, cas-la, enfim, que seria bom cas-la, e dar-lhe vinagre a cheirar, quando

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viesse outro ataque, e ter cuidado que ela no apanhasse a lngua entre os dentes; que lhe metessem um pano dobrado entre os dois queixos, quando lhe desse outro ataque.

-Ele disse que o melhor era cas-la -lembrou o Feliciano ao padre Osrio.

XVI

Relatava o vigrio de Caldelas: -0 crebro do Simeo, se era refractrio aos golpes da dignidade, no era mais sensvel s comoes das pauladas. Duas vezes feliz quanto  cabea: nem honra nem predisposies inflamatrias. Cicatrizou a ferida; comeou a comer galinhas com a

fome de um canibal e com o prazer carnvoro duma raposa. Dera tacitamente Marta o consentimento de casar com o tio; esperava em soturno abatimento que a casassem; e, se minha irm lhe tocava nesse assunto, dizia: "Faam de mim o que quiserem... Para o que eu hei-de viver... Tanto me faz ... " Quanto ao casamento -prosseguiu o padre Osrio-, eu cismava se a primeira noite nupcial seria a vspera de escandalosas desavenas, arrependimentos, choradeiras, divrcio, vergonhas, cousas; mas ocorria-me que Feliciano me confessara repetidamente que sara da sua aldeia aos doze anos e tomara casto e puro como

sara. E eu ento, atendendo a que a castidade, alm de ser em si e virtualmente uma cousa boa, tem urnas ignorncias anatmicas e umas inconscientes condescendncias com as impurezas alheias, descansava, tranquilizava o meu esprito escrupuloso. Uma falsa compreenso da honra alheia s vezes me aconselhava que mandasse o brasileiro conversar sobre o assunto com o operrio que o luar enganara em certa noite; mas a honra, como a conscincia, no so quantidades constantes no geral das pessoas; so condies da alma to variveis como a matria exposta s mudanas climatricas. Ora as condies

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mentais e morais de Feliciano Prazins eram as melhores e as mais garantidas para a sua felicidade. Com que direito ia eu estragar aquele excelente organismo?

At aqui o padre Osrio, com a sua grande prtica etnolgica dos usos e costumes dos maridos sertanejos do Minho.

O mano lavrador no era mais apontado em melindres de pundonor. Assim como curara em silncio o corao, golpeado pelas deslealdades da defunta Genoveva, do mesmo modo se acomodara com os estragos sofridos nos tegumentos da cabea. Dizia-lhe o administrador que querelasse contra o Zeferino, porque havia testemunhas indcativas que faziam prova. No quis.

- Depois  que me do cabo do canastro -- dizia com um dom proftico, e circunspeco admirvel em um homem sem instruo primria,

No entanto, Zeferino debatia-se num azedume de desesperado, muito m-lngua, insano de paixo, a degenerar para facnora em teorias de escavacar meio mundo. Comeou a superar-lhe nas entranhas o vcio do pai com sedes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia alvios, consolaes inefveis, quando se

embebedava; rejuvenescia; a vida encarava-se-lhe melhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas onde se jogava esquineta e monte. Trocava na mesa da tavolagem peas de duas caras que comprara no tempo em que amealhara dez mil cruzados com dez anos de trabalho. Os parceiros roubavam-no. Vinham de noite de Famalico a Landim, perto das Lamelas, jogadores professos, armar a forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pego. Depois das perdas, quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira, embriagava-se de novo, e

nessas alucinaes ia a Prazins, de clavina ao ombro, com o Patarro de Monte Crdova, e falava alto, com petulncia, para que Marta o ouvisse. O brasileiro e o Simeo tinham~lhe medo e no abriam as janelas depois do sol-posto.

Espalhou-se ento a notcia de que o brasileiro ia efectivamente casar com a sobrinha.

O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta annima, que

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      177

era um traslado aumentado do depoimento do pedreiro que vira o Jos Dias saltar da janela. E por fim ameaava-o: "Que se casasse com a Marta, no a havia de gozar muito tempo. " O Feliciano mostrou a carta ao irmo. Concordaram que era o pedreiro com a sua paixo, danado de raiva. O brasileiro entrou a cismar que o celerado era capaz de levar a vingana ao cabo bater~lhe, mat-lo. Os tiros desfechados  sua honra de marido de Marta resvalavam-lhe na couraa da conscincia: "Eu sei o

que fao", dizia ele; mas a ideia de um tiro ao seu fsico, inquietava-o deveras. " preciso dar cabo deste ladro", dizia o

brasileiro ao mano, num grande mistrio.

Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro, da Pena, um taverneiro de olhos estrbicos, de alcunha o Alma Negra, um que o tinha avisado, quando a malta da Patuleia tencionava agarr-lo. O Melro rompera relaes com o Zeferino, por causa

da partilha de uns dinheiros apanhados na mala do correio de Guimares, e dizia hiperbolicamente ao seu compadre que o Zeferino, quando andara na Patuleia, era ladro como rato.

O Melro era m bisca. Estivera trs anos na Relao como cmplice em um homicdio que se fizera na sua tasca. Vivia apertadamente com mulher e quatro filhos, e no cessava de pedir emprstimo ao compadre desde que o avisara. Quando o

Sirrico foi espancado, o Melro logo lhe disse em segredo que quem lhe batera fora o Zeferino, com as costas guardadas por dois pimpes do Monte Crdova. E acrescentou: @ Ele bem sabe a quem as faz. Havia de ser comigo ou com

pessoa que me doesse...

O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o compadre. Disse-lhe que ia ver a Quinta da Comenda que se vendia; que lha fosse mostrar. Conversaram; e, no regresso, pararam em frente de uma casa com trs janelas e um quintal espaoso.

--  aqui - disse o Melro.

178              CAMILO CASTELO BRANCO

O brasileiro ps o monculo e leu um bilhete pregado na

porta com quatro tachas:

Domingo, s dez da manh, depois da missa, vai  praa a

quem mais der sobre a avaliao judicial de quinhentos mil ris esta casa, dzima a Deus, para partilhas.

O Feliciano leu, retirou-se apressado para que o no vissem, murmurando quaisquer palavras a que o compadre Melro respondeu:

- Vossoria ento est a ler! To certo tivesse eu o cu como tenho a casa...

Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos fregueses da taverna que o seu compadre ia comprar a Quinta da Comenda, e que estivera a ler o escrito da casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez a comprasse para a dar a um afilhado...

- Ao teu pequeno?! -perguntavam.
- Pois a quem h~de ser! Aquilo  que  um homem s direitas!

-Ele no sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa como a mim pagar-te um quarteiro de aguardente encareceu um pedreiro. -Ando agora a trabalhar no palcio da Retorta. Que riqueza! Parece um mosteiro. Pelos modos vai para l viver logo que case com a Marta. L o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos! Isso diz que d cada arranco...

- O Zeferino, a falar a verdade, tem razo - disse o Melro. - O Simeo tinha-lha prometido. Gente sem palavra que a leve o diabo! Eu, se fosse comigo'... Mas, enfim,  irmo do meu compadre... no devo dizer nada. Que se governem.

O Melro, s oito da noite, quando os fregueses desalojaram, fechou a taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse  mulher:

- A casa do Cambado  nossa, mas  preciso vindimar o Zeferino...

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      179

-Credo! -exclamou a mulher com as            mos na cabea. -Nossa Senhora nos acuda!

-Leva rumor! -e punha o dedo no nariz. - Joaquim,  marido da minha alma, alembra-te dos trs anos que penaste na cadeia! Olha para aqueles quatro filhos! ...

-j te disse que me no cantes -e relanava-lhe o seu formidvel olhar vesgo incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo de pau. Depois@ foi tirar dentre a

cama de bancos e a parede uma velha clavina. Sentou-se  lareira e disse  mulher que tivesse mo na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e descarregou a arma, tirando primeiro a buxa de musgo, e depois, voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mo.

-  Jos, v l o que vais fazer! -insistia a mulher, limpando os olhos com a estopa da camisa. E ele, assobiando o hino da Maria da Fonte, despejava a plvora da escova, desaparafusava a culatra e tirava as duas braadeiras. A mulher soluava, e

ele, cantando numa surdina rouca:

Leva avante, portugueses, Leva avante, e no temer...

Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra~te dos nossos pequenos.

E o Melro numa distraco lrica:

Pela santa liberdade, Triunfar ou padecer...

Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da culatra para sentir a presso do sopro, que fazia um frmito spero impedido pelas escrias nitrosas. Pediu  mulher umas febras de algodo em rama, enroscou-as numa agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do cano.

- Est suja - disse ele. - D c um tudo nada de aguardente.

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-Joaquim, vamo-nos deitar, pelas almas. No te desgraces! -Traz aguardente e cala-te, j to disse, mulher, com dez diabos! -E ps-se a assobiar a Luisinha. Enroscou algodo embebido em aguardente no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o

interior do cano at sarem brancas e secas as ltimas farripas da zaracoteia. Soprou novamente e o ar saa sem estorvo pelo ouvido com um sibilo igual. Parecia satisfeito, e cantarolava, mezza voce:

Agora, agora, agora, Luisinha, agora.

Armou a clavina, aparafusou as braadeiras, a culatra e a fecharia, introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o co repetidas vezes, acompanhando o movimento com o dedo polegar, para certificar-se de que o desarinador, a caxeta e o fradete trabalhavam harinonicamente. Levantou o fuzil de ao, que fez um som rijo na mola, e friccionou-o com plvora fina; e, com o bordo de um navalho de cabo de chifre, lascou a aresta da pederneira que faiscava.

Valha~me a Virgem!, valha-me a Virgem! -soluava a mulher.

E ele, zangado com as lstimas da mulher, com expanso raivosa, num sfogato:

E viva a nossa rainha,

Luisinha, Que  uma linda capitoa...

-Vai  loja atrs da ceira dos figos e traz o mao dos cartuxos e uma cabacinha de plvora de escorvar que est ao canto.

A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocaes ao

Bom Jesus de Braga, e s almas santas benditas. Ele encarou-a de esconso, e regougou:

-Mau!... mau! ... Carregou a clavina com a plvora de um cartuxo; bateu com

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      181

a coronha no sobrado, e deu algumas palmadas na recmara para fazer descer a plvora ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartuxo, bateu-as com a vareta ligeiramente, uma sobre a plvora e a outra sobre a bala.

Agora, agora, agora, Luisinha, agora.

Depois, pegou da clavina pela guarda-mata, e ps-se a fazer pontarias vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.

A mulher fora sentar-se no sobrado,  beira da enxerga de trs filhos a chorar; o mais novo espemeava, dava vagidos na

cama a procur-la. O Alma Negra fora dentro beber uns tragos de aguardente, voltou enroupado num capote de militar, despojo das batalhas da Maria da Fonte.

- Ora agora - disse ele -, ouvistes ? Porta da cozinha e a

cancela da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.

-Vai com Nossa Senhora -disse a mulher, e ps-se de joelhos a uma estampa do Bom Jesus a rezar muitos padre-nossos, a fio.

Era uma noite de Fevereiro, de nvoa cerrada, um cu de carvo pulverizado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrela. No se agitava um galho de rvore nua movido pelo ar nem ondulava uma erva. Era a serenidade negra e

imota das catacumbas. s vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no cho esponjoso das carvalheiras a fuga rpida das hardas, dos toires e das raposas que se avizinhavam do povoamento a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar dum gato bravo, o pio da coruja no campanrio distante punham arrepios de medo na espinha daquele homem que ia matar outro - cham-lo  janela e

var-lo  traio com uma bala. Era o traado.

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-Que raio de escuro! -dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.

Em noites assim, o universo seria o imenso vcuo precedente ofiat genesaco, se os viandantes no esbarrassem com as rvores e no escorregassem nos silvedos das ribanceiras. O noctvago sente na sua individualidade, nos seus calos e no seu nariz, a doce impresso pantesta das rvores e dos calhaus. Que este globo est muito bem feito. Os transgressores do descanso que Deus estatuiu nas horas tenebrosas, os celerados das aldeias que larapiam o presunto do vizinho, que fisgam a moa incauta ou empunham o trabuco homicida, se no temem encontrar as patrulhas cvicas das grandes municipalidades, encontram os troncos hostilmente nodosos das rvores que so as patrulhas de Deus. Alguns, porm, protegidos pelo Mefisto a quem venderam a alma pelo preo da conscincia eleitoral, ou mais barata, chegam inclumes ao delito, passando ilesos como o lobo e o javali por entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a esbracejarem retorcidos numa agonia patibular.

O Melro, como o porco-monts e o lobo cerval, embrenhara-se por pinhais e carvalheiras; s vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos galos tresnoitados e latir dos ces. Ao fundo das bouas ladeirentas, rugia o rio Pele nos audes das azenhas e nas

guardas dos pontilhes. Lamelas era da parte dalm. Mas o rio, de monte a monte, rugia intransitvel nas pequenas pontes. Foi  de Landim, uma aldeia engravatada, onde ainda se avistavam clares de luz nas vidraas das famlias distintas que jogavam a

bisca em ricos saraus do Faubourg Saint-Honor, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijes.

Havia tambm um rumorejo de vozes que altercavam na

taverna do Chasco. Tinia dinheiro l dentro. Jogava~se o monte.

O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, p ante p, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro. Era ele quem reclamava um quartinho que pusera "de porta", e o banqueiro recolhera com as paradas que estavam "dentro", quando tirou a contrria "de cara". Que no admitia ladro&as!

A BRASILEIRA DE PRAZINS                     183

E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaas a respeito de ladroeiras; que todos os que estavam daquela porta para dentro eram cavalheiros. O Zeferino replicava que no queria saber de cavalheiros; que queria o seu quartinho ou

que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar que fosse para a Terra Negra.

A aluso era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Fasca, na Terra Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a luta a soco e pau; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas molas; o Patarro de Monte Crdova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois galhos do baralho com

um murro hercleo fenomenal. O taberneiro abriu a porta para escoar o turbilho. Eles saram de roldo; e, quando entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como num antro de caverna. Um, porm, dos que estavam, no saiu; encostara-se ao

mostrador com as mos no baixo-ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, num escabujar angustioso, caiu de bruos, quando o taberneiro e o Patarro o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.

Quando,  meia-noite, o Alma Negra entrava em casa pela porta do quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do Monte. Ao lado dela estavam duas filhas a rezar tambm, a tiritar, embrulhadas em uma manta

esburacada, aquecendo as mos com o bafo.

O Melro mandou deitar as filhas, e foi  loja contar  mulher, lvida e trmula, como o Zeferino morreu sem ele pr para isso prego nem estopa. Ela ps as mos com transporte e disse que fora milagre do Bom Jesus; que estivera trs horas de joelhos diante da sua divina imagem. O marido objectava contra o milagre-que o compadre no lhe dava a casa, visto que no fora ele quem vindimara o Zeferino; e a mulher -que levasse o

demo a casa; que eles tinham vivido at ento na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.

184            CAMILO CASTELO BRANCO

Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:

-Enfim, voc ganha a casa, compadre, porque matava Zeferino, se os outros no matam ele, hem?

XVII

Celebrou-se o casamento na capela da Quinta da Retorta. Foi o vigrio de Caldeias o ministro do sacramento, D. Teresa madrinha, e o padrinho veio do Porto, o baro do Rabaal, um gordo, casado com as brancas carnes veludosas da filha do Eusbio Macrio. O padrinho, muito faceiro, dizia ao Feliciano:

-Mi perdoe, amigo Prazins, voc si casa com minina magrita, muito seca di encontros. A mi mi d na tineta para gostar das redondinhas, hem?  minha filosofia. A mulher si quer rolia, de maneras que a gente ache nos braos ela.

O devasso fazia corar o casto noivo. A Marta,  sobremesa, no lhe percebia umas graolas obrigatrias em bodas canalhas, que faziam nuseas  aristocrtica D. Teresa, muito pontilhosa em no admitir equvocos. O vigrio achava no baro a salobra brutalidade que faz nos inteligentes a ccega do riso que o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o portugus Sr. Lus de Arajo nem sempre conseguem quando querem.

A Marta, numa tristeza inaltervel, desde que saiu da igreja. Ao fim da tarde, fechou-se com D. Teresa no seu quarto, abriu o ba, e tirou do fundo o pacotinho das cartas do Jos Dias, e disse-lhe:

-A senhora h-de guard-las; e, quando eu morrer, queime-as, sim?

- E se eu morrer adiante de ti ? - perguntou D. Teresa risonha.

- Diga ento ao senhor padre Osrio que as queime; por-

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que, olhe-e abraou-se nela a chorar, a soluar-, eu... ou

morro, ou endoideo. Cheguei a esta desgraa; estou casada para fazer a vontade a meu pai, cuidando que ele morria; no sei como hei-de sair disto seno acabando de vez ou perdendo o juzo como a minha me... bem sabe como ela acabou.

D. Teresa Osrio banalmente a consolava com o vulgarismo das cousas que se dizem ao comum das meninas casadas, com maridos repugnantes e ricos. Que se havia de afazer, que tudo esquecia com o tempo. Ela, um pouco aristocrata por bastardia, no acreditava em melindres de sentimentalidade na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida airada. O apaixonar-se pelo Dias, um bonito rapaz da aldeia, parecia-lhe trivial; tentar suicidar-se quando ele morreu, para uma senhora lida em novelas romnticas era um caso ordinrio e pouco significativo; porm, condescender com a vontade do pai, casando com o tio, pareceu-lhe um acto de condio plebeia, a natureza reles da filha do Simeo que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestaes de uma ndole artificialmente delicada.

O padre compreendia mais humanamente Marta, dizendo  irm: -Ela quando consentiu em casar com o tio j estava doente da molstia nervosa que a h-de levar ao suicdio.

D. Teresa, com o seu critrio um pouco adulterado pelas excntricas heronas de Sue e Dumas, no podia entroncar aquela rapariga duma aldeia minhota na genealogia dessas parisienses naufragadas em romanescas tempestades. E de mais, se Marta, como o irmo dizia, estava sob a influncia da loucura, a sua

desgraa parecia-lhe uma doena e no uma tragdia, segundo as

exigncias de uma senhora que tinha lido o mais selecto da biblioteca romntica francesa desde 1835 a 1845 -tudo o que h de mais falso e tolo na literatura da Europa. D. Teresa queria mais drama na desgraa de Marta; porque, se alguma poesia elegaca lhe concedera pela tentativa de matar-se, toda se resolvia em chilra prosa pelo facto de a imaginar no tlamo conjugal com

o arganaz do tio.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      187

Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldelas a fim de dizer a missa de madrugada, e deixara a irm a pedido de Marta; o baro do Rabaal escancarava a boca nuns bocejos ruidosos e levantava uma perna espreguiando-se; o noivo olhava para o mostrador do relgio colado aos olhos; e Marta, muito aconchegada de D. Teresa, queixava-se de cibras; que lhe zuniam cousas nos ouvidos, que via fascas no ar, e tinha muito calor na cabea. D. Teresa dizia-lhe que se fosse deitar, que precisava de recolher-se. Marta pedia-lhe que a deixasse ir dormir ao p dela, pedia-lho pela alma de sua me, pela vida de seu irmo.

A hspeda compreendia, compadecia-se, receava o ataque epilptico, precedido sempre das fascas e cibras de que se queixava a noiva; mas no sabia como dirigir-se ao marido de Marta a pedir-lhe que se fosse deitar sozinho. Nos seus numerosos romances no achara um episdio desta espcie. Interveio na crtica conjuntura o Simeo, dizendo  filha:

- So horas de ir  deita. O teu marido est a cair com

sono.

Marta fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de clera, num arremesso de cabea erguida, e com os lbios a crisparem. Era a nevrose epilptica. Seguiram-se as convulses, o espumar da boca, um paroxismo longo de vinte minutos. D. Teresa pediu que a ajudassem a lev-la para a sua cama, e disse com fidalga impertinncia ao Simeo que a deixassem com ela, e no lhe falassem no marido. Simeo coava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao baro que a sua sobrinha era atreita queles ataques; mas que o cirurgio lhe dissera que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaal notou que o remdio ento bom era, e seria bom come-lo quanto antes. Disse mais chalaas ao propsito e foi-se deitar. Feliciano ainda foi saber como estava a esposa; mas j no havia luz no quarto de D. Teresa. Recolheu-se  cama, e continuou mais uma noite no seu leito solitrio, virginalmente.

D. Teresa sentia-se 'mal, num embarao quase ridculo, naquele meio. Marta no a largava, parecia uma criana espavori-

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da, agarrada ao vestido da me, assim que ouvia os passos do tio. Ele, muito carinhoso, com o monculo no olho direito, a

oferecer-lhe castanhas de ovos, toucinho-do-cu, a pegar-lhe da mo e a fazer-lhe festas no rosto, muito corado de pudor. D. Teresa discretamente deixou-os sozinhos. A Marta ficou a olhar para a porta por onde a amiga se evadira, e fazia uns gestos de quem meditava raspar-se; mas o marido tinha-a segura pelas mos mimosas, beijando-lhas ambas com uma sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito comedida, estendendo os

beijos quentes e hmidos at aos pulsos lcteos e redondinhos. Marta, numa impassibilidade, no se recusava s carcias, e pareceu mesmo inclinar um pouco o rosto quando o esposo com um bom sorriso do amor dos quinze anos lhe pediu um beijinho, que foi mais demorado do que era de esperar da sua candura e da inexperinda de tais delcias. Estavam ambos rosados; mas o rubor de Marta era carminado de mais e nos seus olhos havia uma rutilao vaga pela extenso da grande sala. Ela via a

sombra de Jos Dias: era o Jos Dias em pessoa, dizia ela depois a D. Teresa, quando recuperou os sentidos e no sabia como a transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de que o tio, depois que a beijara no rosto, a levara pelo brao e

entrara com ela no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braos com muita fora, no a deixando fugir, e sufocando-lhe os suspiros com os beijos. No se lembrava de mais nada. E D. Teresa, quanto cabia na sua alada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto , que o marido a fora chamar ao laranjal, um pouco aflito, dizendo que a sua esposa estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz.

Padre Osrio veio jantar e buscar a irm. Observou no aspecto do brasileiro uma irradiao de felicidade, o jbilo de um

homem que se sentia impavidamente completo, na integridade da sua misso fignia. Foi ento que o padre assentou as suas
teorias um pouco flutuantes acerca das vantagens da castidade em beneficio das impurezas alheias.

O Feliciano, quando o cirurgio chegou  tarde, contou-lhe com pouco recato de pudiccia conjugal as circunstncias, parti~

A BRASILEIRA DE PRAZINS                      189

cularidades ocorridas no "fanico da sua esposa", dizia ele. O facultativo, um velho patusco, disse que no se admirava, porque a Sr.a D. Marta era muito nervosa, imperfeita ainda na sua organizao, e que as impresses desconhecidas e um pouco violentas nas constituies fracas produziam extraordinrias perturbaes; mas que no se assustasse, que no era nada; que as

segundas naturezas se faziam com o hbito.

-Banhos de mar -aconselhava-, bife na grelha e vinho do Porto, quanto mais choco melhor. O que se quer c fora  um rapaz; no h como um filho para fortalecer a compleio duma mulher dbil; um filho, quando sai do ventre da me, traz consigo para fora os maus nervos, e acabam os chiliques. Ande-me com um rapago pr frente!

Na ausncia de D. Teresa, a melancolia de Marta cerrava-se de dia para dia. O governo da casa era-lhe de todo indiferente, como se fosse hspeda. O marido no a compelia a interessar-se nesses arranjos de que, dizia o Simeo, ela nunca quisera saber em Prazins. O baro do Rabaal mandara-lhe do Porto cozinheira e governante, Marta saa raras vezes de urna saleta onde tinha um oratrio que trouxera de casa. Confessava-se mensalmente a Fr. Roque, o irmo da sua mestra, e professor do de Vilalva, e

demorava-se no confessionrio com perguntas desvairadas a respeito da alma de Jos Dias, porque dizia ela ao padre-mestre que o via muitas vezes em corpo e alma, e at o ouvia falar e lhe sentia as mos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo da confisso, dizia  irm que a Marta dava em doida como a me.

O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, num dos paroxismos epilpticos, se ps a rir para ele com os olhos espasmdicos e a chamar-lhe "Jos, seu Josezinho". Passada a nevrose, quando ela imergia num torpor fsico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe chamar "Josezinho". Ela parecia esforar-se muito para recordar-se, e dizia que no se lembrava de nada. Vinha o cirurgio a mido: que era histerismo, e consolava o marido com a esperana no tal rapago, esperanas bem

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fundadas, segundo as confidncias do pai; mas, consultado pelo padre Osrio, o Pedrosa, um grande clnico, dizia que'a brasileira no tinha simplesmente a gota coral; que havia ali epilepsia complicada com delrio, alienao mental intermitente, um estado de inconscincia ou conscincia anormal, e que verdadeiramente se no podiam determinar bem quais eram os seus actos de lucidez intercorrente.

-Ela est grvida -observou o vigrio de Caldelas. Parece que este facto denota uma tal qual normalidade de conscincia, uma concepo racional dos deveres de esposa...

- No denota nada - refutou o mdico. - Faa de conta que  uma sonmbula. E, como a sua demncia  funcional e no orgnica, no h desorganizaes fsicas que a estorvem de ser me. O meu colega que lhe assistiu  ltima vertigem disse-me que, alguns minutos antes do ataque, ela, numa grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para Vilalva, que queria ver o

Jos Dias... O marido felizmente fora nessa ocasio prover-se de vinagre  dispensa. Eu considero-a perdida, a menos que se lhe no d uma pronta e completa diverso ao esprito, e nem assim se consegue seno temporariamente deserdar os desgraados que tiveram me e av como esta Marta. Eu assisti ao primeiro e ao

ltimo perodo da Genoveva. Repetiram-se as vertigens, veio-a decadncia gradual da razo, delrios, ideias confusas, concepo difcil, nevroses vesnicas, e por fim suicidou-se j num estado de demncia epilptica, que os especialistas consideram a mais incurvel. Este me parece o itinerrio da Marta, e o cas-la com o tio deixou de ser um acto imoral para ser um estpido arranjo de fortuna por lado do pai e de luxria por parte do marido. Esta pequena tinha de vir a isto, e h-de ir  demncia, mesmo sem drama nem paixo. Tem o crebro defeituoso assim como podia ter a espinha vertebral raqutica. Como se faz a perda da vista? Pela paralisia dos nervos pticos; pois a perda da vista normal da alma  tambm a paralisia duma poro de massa enceflica. Bem sei que isto embaraa um pouco os senhores telogos-metafsicos, mas l se avenham: a verdade  esta.

XVIII 
Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requio, os to almejados missionrios, interrompidos no seu estril apostolado pela revoluo da Maria da Fonte. Marta ouviu a

notcia com alvoroo, e disse que queria seguir os sermes -que precisava de salvar a sua alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco a respeito de religio; mas

respeitava as crenas alheias, e no contrariava as devoes da sobrinha. O padre Roque era de parecer que se no deixasse Marta entrar muito pela mstica; aconselhava o marido que fosse viajar com a mulher, que a tirasse daquela terra, porque as suas enfermidades no podiam cur-las os sermes nem as hstias. O egresso conhecia a farmcia do varatojano de Borba da Montanha, e sabia que a primeira receita de Fr. Joo era

exorcism-la como demonaca.

- Do cabo dela, vocs vero, do cabo dela - dizia o padre-mestre.

Eram quatro os missionrios que assentaram o vestbulo do paraso em Requio.

O padre Jos da Fraga, ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes sacerdotais, grave e semblante inteligente. Tinha-se ordenado em Brancanes com o propsito de ir propagar o

cristianismo na China; depois, interesses e rogos de famlia determinaram-no a ficar na ptria, sem abrir mo da vocao

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apostlica. Lera e percebera Raulica, Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osrio dizia-lhe que guardasse as suas prolas para outro auditrio menos suno. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no plpito, aconchegavam-se umas das outras para comodamente tosque~ nejareni o seu sono da manh; e os homens diziam que no o

chamava Deus por aquele caminho -que "no calhava pr predega".

O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia-idade, autor da Escada do Cu pelas Escarpas do Glgota e da Via Serfica para o Reino dos Querubins, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exrcito realista, e ordenara-se para herdar uns bens de uma parenta beata que tinha horror  tropa. Lera as novelas do Prevost e Madame de Genfis, quando era furriel. Ficou-lhe dessas leituras uma linguagem amelaada, com interjeies trgicas, e um jeito especial de tocar as mos com imagens ternas tiradas das cousas infantis. Por exemplo: "E o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia dos anjos, quando l do cu te v pecar, estende para ti os seus bracinhos, e diz: "Me,  me!, no peques; me, no peques! Pelas lgrimas que por mim choraste, no caias na tentao, porque, se te perdes, se te afundas no abismo eterno, no tornars a ver o teu filhinho que te chama do cu, me,  me! " " E infantilizava o timbre da voz, inclinava a um lado a cabea num

langor menineiro, estendia os braos do plpito a baixo com as mos abertas, alongava os beios no jeito da boquinha de criana, e muito mavioso, num trmulo de voz e braos: "Me!,  me!" E todas as que tinham perdido filhinhos desatavam num berreiro.

O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, duma porcaria de sotaina digna dos hagiologas, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era forte na topografia do inferno e nas genealogias, usos e costumes dos diversos diabos. Afirmava que a legio deles se dividia em esquadras, capitaneadas por Lcifer, prncipe da luxria, por Asmodeu, Satans, Belzebu e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus competentes vcios.

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       193

Dava notcia de um caudilho de esquadra, chamado Beemote, cujo empenho era bestializar os fiis -verdadeira superfluidade. Leviat capitaneava o esquadro da soberba; e o ministro e secretrio de estado encarregado da pasta da avareza chamava-se Mamona. A cincia moderna matou este diabo, extraiu-lhe o

leo, e p-lo ao servio dos intestinos dos pecadores -leo de Mamona. Explicava o padre s mulheres o que era a corja dos "demnios, incubos". Contava casos de algumas que ficaram grvidas desses devassos, e dizia em latim que tais demnios fecundos podiam, mesmo contra a vontade da mulher, rem habere cum illa. E as mulheres, sem pr mais na carta, farejavam o latim e murmuravam indignadas:

-Tarrenego! Catixa! Cruzes, canhoto!-e benziam-se, cuspinhando nos calcanhares umas das outras.

Fr. Joo de Borba da Montanha, conquanto no frequentasse o plpito, era o vulto mais proeminente da misso. Sara j velho do Varatojo, peito fraco, um pigarro crnico de catarro pituitoso, com poucos dentes, por onde as palavras lhe saam assobiadas que nem melro nos cinceirais de Julho. Por isso o confessionrio era a sua faina de prosprrimas colheitas para o cu, e os exorcismos a sua famosa glria cheia de triunfos sobre todas as esquadras dos demnios conhecidos do seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de mos dadas, o terror do inferno:

um a explorar diabos no planeta, o outro a enxot-los.  omnipotncia deste varatojano  que o vigrio de Caldelas confiara a

reduo da me de Jos Dias.

Este egresso tinha feito  sua custa a terceira edio do Peca- dor Convertido ao Caminho da Verdade, obra do seu conventual varatojano Fr. Manuel de Deus. Vendia o livro por setecentos e vinte, meia encadernao. Chamava-lhe ele "o seu balde de tirar almas do profundo poo do enxofre infernal". Todas as beatas se consideravam mais ou menos empoadas, e por setecentos e vinte metiam-se no balde de Fr. Joo. Barato.

Foi este o missionrio escolhido por Simeo, de harmonia com o genro. Marta lembrava-se que o seu Jos Dias lhe falara nele com muita esperana em que desfizesse os obstculos do

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casamento. Quis confessar-se ao varatojano, e revelou para esse

acto uma expectativa serfica, grande deliberao ansiosa, um

sobressalto jubiloso em que parecia influir a cooperao sobrenatural do seu querido morto. O padre Osrio, entrevia preldios de loucura nas alegres disposies com que Marta, num recolhimento contemplativo, desde o apontar da aurora, esperava  porta da igreja que chegassem os missionrios com o cortejo das mulheres encapuchadas, muito ramelosas, estralejando os seus tamancos ferrados na grade do adro que vedava a passagem aos porcos.

Enquanto na igreja, depois da misso, se depunha a hstia nas lnguas saburrentas e gretadas das beatas -que engoliam aquela farinha triga corno quem devora sevamente um Deus-, c fora armavam-se no adro dois tabuleiros, assentes em tripeas de engonos, com seus pavilhes de guarda-sis de paninho azul. Algumas mulheres de aspectos repelentes, sujas da pojeira das jornadas, com os canelos calosos e encodeados, expunham nos tabuleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas  conta de subornarem freguesas com caramunhas e palavreados. No silncio do templo, ouvia-se c de fora:

- Arre, bbeda! -Cala-te a, calhamao! A exposio bibliogrfica, feita nos tabuleiros, alm das obras em brochura e encadernadas dos missionrios, constava da Regra de S. Bento, da Misso Aumentada, da Misso Abreviada, das Piedosas meditaes das Horas do Cristo, do Ms de Maria, do Ms de Jesus e do Livro de Santa Brbara, Havia tambm novenas, vias-sacras com estampas dum horror sacrlego, uns Cristos que pareciam manipansos do Bi, Seguia-se a camada dos escapulrios: uns eram de Nossa Senhora do Carmo, de Nossa Senhora das Dores, da Conceio; outros do preciosssimo sangue de Jesus, do corao do mesmo, da Santssima Trindade e de So Francisco. Tinham grande sada os cordes do mesmo santo, e as correias de Santo Agostinho, com um boto de osso, a apertar na cintura: arns impenetrvel ao diabo, por

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       195

causa do boto, que, posto na correia, tem virtudes para osso

muito admirveis, quase como as da carne, mas no sentido inverso-ela atraindo o co tinhoso, e ele repulsando-o. De Santo Agostinho e do Anjo-da-Guarda tambm havia rezas enfiadas em metal, ou em cordo simplesmente, mais baratinhas. Na espcie medalheiro, grande profuso: as medalhas mais procuradas eram as do Corao de Maria, do Corao de Jesus, do Anjo-da-Guarda e de Santa Teresa, a dez ris.

As coroas, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram diversas no tamanho e na nomenclatura: as serficas com sete mistrios, e cada mistrio com dez ave-marias; as da Senhora da Conceio com doze aves e trs mistrios - uma certa

conta que os missionrios l graduavam com a gafaria espiritual das confessadas. Havia algumas que se aguentavam com os rosrios de quinze mistrios, e a coroa dos nove coros dos anjos, e a

do preciosssimo sangue e corao de Jesus. Mas o grande consumo era de contas de azeviche, refractrias aos maus olhados; de modo e maneira que, se o azeviche  legitimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio a meio.

Marta, a beata, a senhora "brasileira de Prazins", como lhe chamavam as regateiras das drogas da salvao, fornecera-se de tudo em duplicado; mas sobre todos os devocionrios o da sua leitura dilecta era o Pecador Convertido ao Caminho da Verdade, edio do seu confessor varatojano, Fr. Joo de Borba da Montanha.

So impenetrveis os segredos revelados no tribunal da penitncia por Marta ao seu director espiritual. O padre Osrio, no obstante, suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa conscincia, solicitada por midas averiguaes do missionrio, saudades, reminiscncias sensualistas, carnalidades, que se lhe formalizavam no esprito dementado, enfim, vises e sonhos com o Jos Dias. Inferia o padre a sua conjectura, sabendo que Fr. Joo lhe mandara ler no Pecador Convertido, trs vezes por dia, o captulo trinta e trs, intitulado "Resistncia s Tentaes contra a Castidade". Fortalecia esta hiptese ter dito Marta a

D. Teresa que a alma de Jos Dias lhe aparecia em sonhos; e s

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vezes, mesmo acordada, lhe parecia senti-la na cama  sua beira; e ento mordia o travesseiro para que o tio a no ouvisse chorar. Pode ser que estas revelaes, comunicadas ao confessor, um simplrio incapaz de destrinar entre doena e pecado, fossem acompanhadas de particularidades sensitivas que Marta por vergonha no contava  sua amiga.  certo que a

confessada do varatojano lia, declamando, diante do seu oratrio, trs vezes por dia, a "Resistncia s Tentaes contra a Castidade".

A orao dizia assim:

Senhor amorosssimo, no vos escondais, no me deixeis sozinha, que me cerca o leo para me devorar; os seus rugidos me

atormentam para que no goste das suaviddes do vosso amor.

Cercarei todo o mundo, subirei aos cus, no descansarei enquanto no achar o meu amor. Conjuro-vos, filhas de Jerusalm, criaturas da terra que, se encontrares o meu amado, lhe digais que morro de amor. E, se quereis os sinais para conhec-lo, ouvi. O meu amado  cndido e rubicundo, escolhido entre milhares, cndido por divino, e rubicundo por humano, cndido porque inocente, e rubicundo por chagado. Ai!, doce amor, onde vos escondestes? Tende compaixo de quem vos busca. Estes sinais que de vs tenho s servem de avivar-me a saudade, so setas que me ferem; morro, desfaleo, se vos no acho.

Os cabelos da sua cabea so como o ouro mais puro e mais precioso, so como palmitos e pretos como o corvo. Se no entendeis, filhas de Jerusalm, nem eu vo-lo saberei explicar; o que vos digo  que os seus cabelos so fortes laos que bastam para prender a lodo o mundo, bastam para abrasar tudo 4 amor.

Ai, amado do meu corao, se as admiraes do que sois abrasam a alma, que vos v por enigmas, que ser quando vos vir claramente! Os seus olhos so como pombas sobre correntes de guas, mansos, puros, suaves, benignos, amorosos. Que majestosos, que graves, que serenos, que doces, que suaves Oh, dulcssimo amor, j que tanto fechais os olhos para no

A BRASILEIRA DE PRAZINS                        197

serem vistos, ao menos no os fecheis para me no verem! As suas faces so como canteiros de flores aromticas, sempre belas, sempre cheirosas; passam os dias, os meses e os anos, e os sculos, e as faces do meu amor sempre so flores, nem o sol as murcha nem o frio as corta, nem a gua as corrompe, nem o vento as desfolha; so rosas, so aucenas, so brancas e encarnadas. Oh!, quem me dera uma gota do gua que as rega, um grau de calor que as vivifica; quem me dera que o jardineiro que as compe me quisera semear umas flores no meu jardim e tomar  sua conta comp-las e reg-las, que o meu amado gosta muito de flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo, peixes do mar, viventes da terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro. Mas que digo, se este mesmo  o amado a quem busco e no mereo achar!  saudade ardente,  sede matadora,  seta penetrante,  amor escondido! Que fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho  ser amado, porque a minha ventura est em vos ter amor, como escondeis o mesmo que me havia de enamorar? Os seus lbios so lrios, que destilam mirra excelente, lrios de pureza donde saem palavras que esvaziam no amor da mortificao. Oh! se fora to ditosa minha alma que recebera alguma parte da mirra que destilam teus lrios! Ob@ se foram to felizes meus olhos que viram a engraada cor de tais lbios! Aonde estais escondido, amado do meu corao? No saem por esses lbios as palavras com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da cidade: "Se algum  pequenino venha para mim ";@ Logo, como vos escondeis desta pequenina pobre e necessitada que com tanto empenho vos busca? Suas mos so como de ouro feitas a o torno e cheias de jacintos, todas perfeitas, todas preciosas; mas reparai, filhas de Jerusalm, e por aqui vos ser mais fcil conhec-lo, que, no meio do ouro e jacintos, tem em cada mo um precioso rubi que a passa de uma para a outra. O seu peito e entranhas so de marfim ornadas de safiras, dando a conhecer a cor celeste da safira, a branca do marfim e sua dureza, que os seus afectos so puros, cndidos, castos, virginais, fortes, celestiais e divinos, sinceros, compostos, slidos e constantes.  peito de amor, entranhas de piedade, como assim vos fechais

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para quem vos ama? Aqui deve de haver mistrio! Gostais talvez, de me ver aflita para provar se sou amante! Quereis que me

custe muito o que muito vale, porque, se o lograr apouco custo, farei talvez pouco caso do que no tem preo. Mas ai, amado meu, que, se me no dizeis aonde passais a sesta ao meio-dia, temo que, andando vagabunda, venha a cair nas mos dos vossos contrrios! A sua aparncia  como a do Lbano, a sua composio como a do cedro; em judeia o monte mais formoso  o Lbano, no Lbano a rvore mais excelente  o cedro: assim  o meu amado entre os filhos dos homens. A sua garganta  suavssima, porque saem por ela as vozes, as respiraes do peito, que  arquivo de amores e suavidades; enfim, todo  formoso, todo perfeito, todo amvel. Tal  o meu amado, este  o meu amigo, filhas de jerusalm, criaturas da terra; se o achardes, dizei-lhe que morro de amor...

Marta dizia a orao em voz alta, em modulaes cantadas, num arroubamento de **pregbiera. Aqueles dizeres, alinhavados pelo varatojano, s o extractos e imitaes das escandecncias erticas do poema dramtico da "Sulamita" no Cntico dos Cnticos -os trechos mais liricamente sensuais da antiguidade hebraica. Eles deram o tom de todas as exaltaes nevrticas, desde os xtases histricos de Teresa de Jesus at s alucinaes da beata Maria Alacoque e da portuguesa madre Maria do Cu, a cantora dos passarinhos de Vilar de Frades. Desta peonha doce, enlanguescente, vibrtil e enervante, cheia de meiguices epidrmicas de um corpo nu em frouxis de arminhos,  que se fizeram uns manuais modernos em Frana por onde as adolescentes principiam a conversar com Jesus e a compreend-lo em linhas correctas, sob plsticas macias, a esper-lo, a desej-lo, como lho figuram com todas as pulsaes, redondezas e flexibilidades da carne.

Marta, entre o Deus incompreensvel e o Cristo homem, via

um ser tangvel, o seu nico termo de comparao -o Jos Dias, esposo da sua alma e dominador dos seus nervos reacen-

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didos e abraseados pela saudade. Nas apstrofes a Jesus        ' palpitavam-lhe ntidas as curvas do amante que a ouvia de entre as nuvens, numa clareira azul, com a sua lividez marmrea e os anis dos cabelos louros esparsos como nas cabeas dos querubins. Tinha aquele namoro no cu quando abria a pgina do livro com que o confessor lhe dissera que havia de exorcizar as

tentaes voluptuosas da sua alma e do seu corpo.

XIX

Fr. Joo j no se entendia com a sua confessada. Deviam ser grandemente disparatadas as revelaes de Marta para que o

varatojano desconfiasse que ela estava obsessa e que as suas vises deviam ser malfeitorias de demnio incubo, Feliciano discordava da opinio do inexorvel exorcista, quando ele o interrogava sobre miudezas de alcova. O marido contava singelamente que sua mulher passava a maior parte do dia a rezar pelo livro no oratrio; que tinha dias de comer bem e outros dias de no comer nada; que no dava palavra s criadas, nem se metia no governo da casa; que com ele tambm falava pouco, e no desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama com ele. Verdade era que s vezes ele acordava e a via sentada com os olhos posto no tecto.

-Pois  isso... -atalhava o varatojano. - isso qu, senhor frei Joo? -perguntava o marido.
O confessor no podia explicar-se. O seu praxista Brognolo, ampliado pelo padre-mestre arrbido Fr. Jos de Jesus Maria, admoestava-o a ocultar de terceiras pessoas os sinais evidentes da obsesso de uma alma, sem estar devidamente aparelhado para o combate e na presena do inimigo. O aparelho, neste caso, era a estola, a gua benta, o latim -uma lngua familiar ao diabo. Alm dos preceitos da arte, havia a inviolabilidade do segredo da confisso; e uma caridade decente aconselhava que Feliciano ignorasse as tentativas adlteras do demnio in~ cubo, figurado na pessoa espectral do Jos Dias. Com o vigrio

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de Caldelas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a brasileira de Prazins estava possessa, muito gravemente energmena. O padre Osrio abriu um sorriso importuno, destes que vm de dentro em golfos involuntrios como a nusea dum embarcadio enjoado. O egresso reparou no trejeito hertico da boca do padre, e perguntou-lhe se tinha alguma dvida a pr.

-Uma pequena dvida, senhor frei Joo-respondeu intemeratamente o vigrio. -No posso aceitar que o diabo, sendo filho de Deus, seja o ente perverso que faz sofrer a pobre Marta...

-  O diabo, filho de Deus! -interrompeu o varatojano, levando as mos enclavinhadas  testa. -Padre Osrio, o senhor disse uma blasfmia enorme... Santo nome de Jesus! O diabo filho de Deus! Antema!

-Antema  lgica, ao raciocnio, portanto! - contraveio sereno e risonho o outro.

- A lgica? A lgica de Calvino, de Voltaire. -No, senhor, a lgica do professor que ma ensinou no seminrio bracarense. Criador no  pai?

-, sim, e da? -Deus  pai de todas as suas criaturas; ora o diabo  criatura de Deus; logo: Deus  pai do diabo.

- Distinguo! -contrariou o varatojano. E o vigrio, sem atender  interrupo escolstica: -Se Deus  bom, as suas criaturas no podem ser ms; ora, o demnio  mau: logo, o demnio no pode ser criatura de Deus; mas, se o diabo no  criatura de Deus, pergunto eu o mesmo que um negro da frica perguntava ao missionrio: quem  o pai do diabo?

-Distinguo! -insistiu o varatojano apoiado nas velhas frmulas da dialctica esmagadora. -Deus criou os anjos; destes houve alguns que se rebelaram contra o seu criador, e foram precipitados do cu: so os espritos infernais. Alguns desses anjos no desceram s trevas inferiores, e permanecem para flagelo do gnero humano no ar caliginoso. Aer caliginosus est quasi carcer doemonibus usque in diem judicii, diz Santo Agostinho.

202              CAMILO CASTELO BRANCO

Deus permite que os demnios vexem as criaturas, pelo bem que pode resultar s criaturas desse vexame.  o que se colhe do Evangelho de S o Joo: omnia per ipsum facta sunt, Portanto, Deus permite o mal? Logo este mal  bom, porque Deus  o

Sumo Bem. Verdade  que os males no so bens.. .

- Ia eu dizer... -atalhou o padre Osrio; ao que o missionrio acudiu prestes e vitoriosamente:

- Mas Deus tira os bens desses mesmos males, como diz So Toms: bonum invenre potest sine malo, sed malum non

potest nvenire sine bono. Logo: Deus permite o mal corno causa do bem; id est, permite o demnio como exercitao saudvel do gnero humano. Metius judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere, diz Santo Agostinho; e So Toms ainda  mais claro e persuasivo: "A divina sabedoria permite que os demnios faam mal pelo bem que da resulta. " Divina sapienti4 permittit afiqua rw14 fiei@ per malos Aizaelos propter bona quae ex eis eficit. So doze as causas por que Deus permite que os demnios atormentem as criaturas humanas. Primeira: para que o homem obstinado na culpa seja neste mundo e no outro atormentado; segunda...

- Estou convencido, senhor frei Joo - atalhou o vigrio. - Vossa Reverncia j esclareceu a minha dvida.  o caso

que Deus permite demnios flagelantes para depurar com eles os pecadores, uns e outros criaturas da sua divina justia.

- isso mesmo, -0 esprito do mau homem, do pecador que  em si um demnio interno, depura-se pela aco de outro demnio externo, ambos criaturas do seu divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus  como um pai que azorraga o seu filho querido a

ver se ele recebe as mortificaes como carcias. Rico pai! -E acrescentou com amargura: - Ah!, meu frei Joo, receio muito que as supersties venham a desabar o catolicismo, que deve a

sua existncia  vitria que alcanou sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade. Ego sum veritas.

Fr. Joo ia fulminar segunda vez a argumentao do padre

A BRASILEIRA DE PRAZINS                     203

Osrio, quando os outros missionrios chegavam, para assistirem ao jantar de despedida em casa da brasileira.

Fechara-se a misso; os padres iam dali para Barcelos; mas

Fr. Joo, empenhado em desendemoninhar a pobre Marta, hospedou-se na Quinta da Retorta, em cuja capela celebrava missa e confessava as suas filhas espirituais insaciveis do po dos anjos, que digeriam numa vadiagem dorminhoca, amesendadas nos adros das igrejas e nos soalheiros, catando as prprias pulgas e as vidas alheias.

Fr. Joo andava apercebido com todos os utenslios infestos ao diabo. Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energmena das mais provadas armas nos seus triunfos sobre o inferno. Lanou-lhe ao pescoo um santo lenho, um breve da Marca, a vernica de S. Bento, o smbolo de Santo Atansio, cruzinhas de Jerusalm, vernica com a cabea de Santo Anastcio, relquias de vrias santos, umas esqurolas de ossos grudadas em farrapinhos, oraes manuscritas da lavra do varatojano, metidas em saquinhos surrados da transpirao doutras obsessas.

Marta devia jejuar, como preparatrio. Parece que o demnio se compraz de habitar estmagos confortados na quentura do bolo alimentcio. O exorcista jejuava tambm conforme o

preceito dos praxistas, e aconselhava ao Feliciano, que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus que dissera pela boca de S. Mateus que "tais diabos, sem jejum nem orao, no saam do corpo" (boc genus demoniorum in nullo potest exire nisi oratione etjejunio), O Feliciano dizia que sim, que jejuava; mas, s escondidas do frade, comia bifes de presunto com ovos; comeava a revelar ideias egostas, um cuidado da sua alimentao e do seu repouso, certo desprezo cnico pela parte que o diabo tomara na sua famlia.

Fr. Joo de Borba da Montanha expendeu ao vigrio de Caldelas os fortes sintomas que Marta apresentava de estar possessa. Eram muitos, e bastava-lhe citar os seguintes:

Ouvir a voz de Jos Dias que a chamava, no sonho e na viglia. E mostrava o texto: quando patiens audit quasaam voces se

vocantes. Porque aborrecia a carne e o po, e tinha grande fas-

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tio. O Osrio lembrava-lhe que seriam inojos peculiares da gravidez; mas o varatojano confundia-o com o latim: quando quis non potuit gustare panem aut carnem. Ela digeria com muita dificuldade os alimentos. Era obra do diabo, porque o livro dizia - bem v -, mostrava Fr. Joo ao padre Osrio: quando quis sanus cibum digerere non potest in stomacho. Chorava e no dizia porque chorava. Diabrura com toda a certeza: quando lacrymas plorat et nescit quid ploret, Havia um artigo que acentuava as -mais fortes presunes da obsesso incuba de Marta. Parece que ela no confessionrio se acusava de repugnncia, de concesses violentas, de resistncia s carcias do esposo; e talvez revelasse que a imagem de Jos Dias intervinha nessas lutas da alcova.  o que se depreende do sinal dcimo terceiro que Fr. Joo mostrava com o dedo no seu Brognolo, e vai era latim, como l est, para que poucas pessoas possam alegar inteligncia: quando vir uxori et uxor viro apropinquare non potest, quia videi aflud corpus intermedium, aut sibi videtur esse.

-Aqui  onde bate o ponto! -dizia Fr. Joo martelando com o dedo indicador na pgina indecente.

-  Mas no ser essa viso o intrito de uma alienao mental ? - perguntava o de Caldeias. - No v, padre Joo, que esta rapariga est abatida por uma grande amargura que prende com actos da sua vida passada? No a v to cada, to melanclica...

-Os melanclicos so os mais vexados pelo demnio -replicou o egresso. -Veja Galeno e Avicena, que aqui vm citados.-E folheou o Brognolo, at encontrar o texto triunfal. -Aqui tem; leia, ver que a demncia pode ser obra do demnio.

O padre Osrio leu com uma grande ignorncia curiosa:

Os demnios acometem mais os melanclicos. Primeiro, porque o humor melanclico com dificuldade se tira e  de sua natureza inobediente e rebelde. Segundo, porque o humor melanclico  mais apto para gerar diversas enfermidades incurveis, porque, se  muito enxuto, ofende as membranas do crebro e

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faz ao homem doido; se ofende os ventrculos causa apoplexia, e

gera raivas, frenesis e dios; e estes efeitos de melancolia muitas vezes os costuma causar o demnio, etc.

-0 padre Osrio est-se a rir?! - invectivou Fr. Joo abespinhado. -Sabe o senhor que mais? Eu j tinha ouvido dizer ao

abade de Santiago de Antas que o senhor padre vigrio de CaldeIas no era muito seguro em matria de f; que tinha um bocado de-fedor hertico nas suas prdicas, e que dava mais importncia  quina do que aos santos milagrosos na cura das maleitas.

- Se isso fede a heresia, ento, senhor frei Joo, estou de todo podre - obtemperou Osrio, e continuou deixando mpar de espantada indignao o missionrio. - A respeito da enfermidade de Marta, sou a dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem banhos de chuva, calmantes, distraces; e, baldados estes recursos, que a internassem num hospital de alienadas, porque esta mulher  filha de uma doida,  neta de outros doidos, e pouco h de viver quem a no vir de todo mentecapta. Alm de herege sou profeta, meu caro senhor frei Joo. A sua energmena tem infelizmente o demnio que raras vezes a cincia vence: o demnio da demncia hereditria que a no se curar com a gua em chuveiro, tambm se no

cura com gua benta. Seria bom que Vossa Reverncia, antes de pr  prova os exorcismos, ouvisse a opinio dos mdicos.

-Eu sei o que dizem os mdicos -e sorria com menosprezo da pobre medicina.-Eu, aqui onde me v, com os exorcismos, com este remdio que no inventei, mas que a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo me deixou, e que ele mesmo, o Divino Mestre, usou, como o senhor padre Osrio deve ter lido nos seus Evangelhos... ou nega a autoridade dos Evangelhos? Nega que Jesus Cristo expulsava demnios?

-No senhor, eu sei a histria da legio que se meteu nos porcos...

-E outras; os livros sagrados esto cheios desses "factos" a

que o padre Osrio chama "histrias"; no so histrias, so factos.

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-Ah!, senhor frei Joo! Jesus Cristo, a sua vida e os seus milagres no so histria? No pertencem  histria? Mau  isso ento!

A polmica prolongou-se um tanto azeda; Osrio escandalizava os pios ouvidos do egresso que, pondo as mos no peito e os olhos no cu, exclamava com S. Paulo que era necessrio que houvesse escndalos. Interrompera-os o brasileiro dizendo que a sua sobrinha estava com um ataque e que lhe dera no jardim. Fr. Joo entrou na alcova para onde a tinham levado em braos,

e o padre Osrio ficou ouvindo a revelao da governante, que lhe dizia:

- A desgraadinha est de todo varrida! Eu estava no tanque a passar uns lenos por gua quando ela entrou no pomar sem fazer caso de mim, como se ali no estivesse vivalma. E vai depois ps-se a cortar rosas e a dizer que eram para o seu amado Jos Alves, para o seu esposo Jos Alves, Vossa Senhoria no me dir quem diacho, Deus me perdoe,  este Jos Alves?

- E depois? -Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das rosas muito chegado  cara e da a pouco caiu para o lado a dar aos braos e a espernear. Eu ento chamei a cozinheira e levmo-la para o quarto com os sentidos perdidos! O Jos Alves, quanto a mim, acho que foi derrio que ela teve em solteira. j ouvi dizer que a casaram com o arenque do tio contra vontade...  o que tm estes casamentos...

O padre Osrio no elucidou a governante. Assim que o Feliciano lhe disse que se iam ler os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres paroquiais, e observou-lhe:

-No deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos, senhor Prazins. O demnio que ela tem  a doena. Faa o que lhe disse o padre-mestre Roque, que  um velho ilustrado e virtuoso. V dar um giro com ela. Leve~a  capital; demore-se por l; e, quando a vir distrada, contente e com bom apetite, volte para sua casa.

O brasileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram cherinolas; mas que o frade se lhe metera em casa, e dizia que

A BRASILEIRA DE PRAZINS                       207

no se ia embora sem curar ela. Acrescentou que no podia agora sair do Minho porque estava  espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na batota do Porto a sua parte de alguns contos de ris, que acharam por morte do pai; que lhe convinha muito comprar a Quinta da Ermida que partia com a dele, e havia outro brasileiro que a trazia de olho, Que a respeito da sobrinha tencionava lev-la a banhos do mar, e havia de comprar o Manual do Raspail, a ver o que ele dizia da molsia, porque em Pernambuco toda a casta de doena se curava pelo Raspail, e que levasse o diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos.

Que sim, que comprasse o Manual do Raspail, concordou o padre Osrio, e saiu muito cansado - dizia ele  irm - de lidar com as duas cavalgaduras.

XX

Marta estava no quarto, onde tinha o seu oratrio de pau-preto com frisos dourados, e dentro uma antiga escultura em

marfim dum Cristo dignamente representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia uma vela de cera benzida. Fr. Joo entrara de sobrepeliz e estola; seguiam-no o Feliciano, com uma vela de arrtel acesa, e o Simeo, com a caldeirinha da gua benta, Marta, com um pavor na vista, tremia, de p, encostada  cmoda. O exorcista sentou-se, e chamou a energmena com um gesto imperativo de cabea. Ela aproximou-se hesitante e ajoelhou. Fr. Joo comps o semblante e deu  voz uma toada, lgubre em conformidade com a rubrica de Brognolo: "Com grave aspecto e voz horrvel", diz o dernonmano. Comeou por exercitar o "Preceito Provativo", a ver se havia efectivamente demnio. E ento bradou, fazendo estremecer Marta: In nomine Jesu Chtisti. Ego Joannes est minister Christ... Vinha a dizer, em vulgar, ao demnio ou aos espritos imundos, vel vobis spritis immundis, que, se estavam no corpo daquela criatura, dessem logo um sinal evidente, ou vexando-a, ou movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus lhe fosse permitido, eo modo quod a Deo fuerit permissum. Marta estava retransida dum sagrado horror, posto que no percebesse do latim do padre seno "demnio" e "espritos imundos". Nunca lhe tinham dito que ela estava endemoninhada, e  sua mentalidade faltava-lhe neste lance a fora convincente e a energia da palavra para com-

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bater o engano do seu confessor. No tinha vigor de carcter nem rudimentos de inteligncia para reagir. Educada em melhores condies, sucumbiria com a mesma vontade inerte sob a violncia do confessor. H condescendentes humildades mais vergonhosas sem o diagnstico da demncia que as desculpe. Ela estava de joelhos; mas, no podendo suster-se, sentou-se num
arfar de suspiros, ansiada, at que as lgrimas lhe explodiram numa torrente.

Fr. Joo fez um trejeito de satisfao, um agouro de vitria, e ps-lhe o "Preceito Lenitivo": "Que a vexao cessasse imediatamente", impunha ele aos demnios malditos, "e toda a aflio causada por eles" (et omnia afflktio a vobis causata). E atacou logo os demnios com o "Preceito Instrutivo": "Que imediatamente a prostrassem na presena dele, se ela estava possessa" (et statim coram me illam prosternatis). Marta, com efeito, estava prostrada, com a face no pavimento, estirando os braos no paroxismo epilptico, e o colo e o tronco hirtos numa inflexibilidade tetnica.

-No h que duvidar -disse o exorcista ao marido e ao pai da obsessa. - Levem-na daqui e depois continuaremos.

Marta, passado o letargo, disse ao tio que mal se lembrava do que passara no oratrio com o Sr. Fr. Joo; mas que lhe tinha medo, que no queria mais confessar-se com ele.

- Cada vez mais provado que est obsessa. J no  ela quem fala,  o demnio que me teme! -exclamou o exorcista com uma santa bazfia, refutando as vacilaes um pouco cpticas do brasileiro; ao passo que o Simeo asseverava que a filha tinha o demnio; porque a sua defunta mulher tambm o tinha, e se deitara ao rio porque nunca quisera que lhe fizessem as rezas.

Ao outro dia, vencidas as repugnncias de Marta, continuou o exorcista, carranqueando cada vez mais e pondo vibraes horrorosas na laringe. Deu-lhe a ela o seu Brognolo para que lesse em voz alta os "Preceitos que a Criatura Vexada Pode Pr ao Demnio". Marta, de joelhos, diante do oratrio, leu:

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Demnio maldito, eu como racional criatura de Deus, redimido com o seu precioso sangue, depois que para me salvar se humanou, chefe de f, te mando em virtude do santssimo nome de Jesus que logo me obedeas e me atormentes levemente, ou

fazendo tremer o meu corpo ou tanando-o em terra, deixando-me em meu juzo.

O corpo de Marta visivelmente tremia; ela deu o livro ao exorcista com um arremesso impaciente, e murmurou soluante:

- Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Cristo! Fr. Joo sorriu-se e resmoneou  orelha do Feliciano: -0 maldito serve-se do nome de Cristo para me afastar! Eu vou escangalhar-te, Satans!

E lanou mo do gldio das "Objurgaes". As objurgaes so perguntas feitas ao diabo,  m cara, e latinamente.

Dize, maldito demnio, serpente insidiosa, conheces que existe Deus? Conheces que foste criado anjo alumiado de muitas prendas, e que pela tua soberba te perdeste? Sabes que, repulso do paraso, perdeste para sempre a graa de Deus?

Pergunta-lhe afinal, depois de muitas injrias, se reconhece nele um ministro de Deus, e como ousar a no manifestar-se? Quomodo igitur poters contra estimulum cakitrare ?

O demnio no respondeu ainda; mas o frade ia apert-lo, mandando que se ajoelhassem todos. Ele ento, numa postura serfica, braos cruzados no peito e olhos no Cristo, declarou:

- Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores i# eis ignem accende.

Pedia ao Esprito Santo que descesse a encher os coraes dos seus fiis, e abras-los no fogo do seu amor. Depois: Dominus vobiscum.

-E de co esprituo -respondeu o Sinieo, que sabia ajudar  missa.

Seguiram-se vrios oremus e deprecaes, e a ladainha de

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Nossa Senhora; mais outros oremus, e a "detestao" da energmena, uma estirada que principiava: "E tu, demnio maldito, com que autoridade intentas possuir jamais meu corpo ou molestar-me por modo algum?" Marta rejeitou o livro, e disse que no podia ler nem estar de joelhos; que tinha vgados e que se queria ir deitar. Mas o exorcista, severo e formidvel no seu ministrio -que no, que no se ia deitar, que no lhe fugia, que se pusesse de joelhos a seus ps! Ele ento, segundo a rubrica do livro director, sentou-se, cobriu-se, "voz grave e horrvel, virado contra o demnio, como juiz para tal ru j convencido", aspergiu a possessa de gua benta, ululando: Asperge me, Domine... e recomendou aos circunstantes que apagassem duas velas, e no dessem palavra. Profundo silncio. Ouvia-se apenas o

zumbido das moscas que se esvoaavam do tecto atradas pelo calor da luz nica, e pousavam na fronte chagada do Cristo. O recinto era espaoso e quase em trevas, A vela, encoberta pelas curvas laterais do oratrio, no alumiava seno o curto espao da projeco em que Marta, retrada num terror, tinha os dedos das mos postas, chegadas aos lbios, como se quisesse abafar os suspiros.

Passados minutos, o exorcista comeou a conjurar e ligar o

demnio em nome do Padre e do Filho e do Esprito Santo, tratando-o de "imundo", afrontando-o bravamente com eptetos que deviam ofender o mais desbragado patife. Marta fez um movimento, de aflitivo desabrimento; parecia querer fugir; mas o

padre prendeu-a com a estola, em harmonia com o Brognolo: "Se no estiver quieta, pode-a prender com uma estola." Feitas novas e mais terrveis conjuraes, o exorcista levantou-se com pavorosa solenidade, e exclamou: Exurge, Chrste@ adjuva nos! Levanta-te, Cristo, e auxlia-nos!

O egresso continuava as evocaes ao Cristo, quando Marta caiu sem acordo.

- Vitria! - exclamou o exorcista -, vitria! - E, mostrando ao brasileiro uma pgina do livro: -Oua l, senhor Feliciano: "0 sinal mais certo de que o demnio obedeceu e se retirou de todo  o que a Sagrada Escritura nos expe no

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captulo nono de So Marcos: deixar a criatura por terra algum tempo como morta. Isto se viu no endemonnhado surdo e mudo que Cristo nosso bem curou, e do qual diz o texto: Etfactus est skut mortuus. "

Depois, com jbilo, limpando o suor: -Podem lev-la, deitem-na, ponham-lhe as relquias todas debaixo do travesseiro.

Os dois no podiam facilmente levant-la; na rigidez, como empedernda do corpo, parecia colada ao pavimento. O brasileiro pedia ao exorcista que a amparasse por um dos braos; mas o

frade, artista austero, respondeu -que lhe era defeso pr mos nas possessas. E, de feito, Carlos Baucio, na Arte do Exorcista, legisla: "Que os exorcistas no ponham as mos fisicamente sobre a criatura, principalmente sendo mulher (propter periculum), pois que as mulheres nem com o sinal-da-cruz se devem tocar (mulres nec signo crucist sunt tangendx). "

Marta passara a noite muito agitada, febril, com delrio; dava risadinhas muito argentinas, falava no Jos Alves; sacudia a roupa com frenesi, e, quando emergia do torpor, sentava-se no leito a olhar para o tio, com uma fixidez repelente, Feliciano no se deitara, e de madrugada disse ao irmo que fosse chamar o mdico, que a Marta estava com um febro; e que levasse o diabo o frade para as profundas do inferno e mais os exorcismos,

j quando era dia, o brasileiro foi descansar um pouco na cama de D. Teresa, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. s nove horas, a governante foi acord-lo, muito alvoroada, para lhe dizer que a Sr.- D. Marta tinha sado sozinha ao nascer do Sol e que uma mulher a encontrara j perto da casa do vigrio de Caldelas, a correr, que parecia uma doidinha. Fr. Joo recebeu tambm a nova da fuga, quando acabava de dizer missa em aco de graas pelo triunfo obtido sobre o demnio. O mdico chegava ao mesmo tempo, e, informado das cenas dos exorcismos, disse ao varatojano injrias que o frade no tinha dito ao diabo; chamou ao brasileiro e ao irmo corja de estpidos, e partiu para Caldelas com o Feliciano. O frade, insultado pelo mdico, e pelos modos bruscos e desabridos do brasileiro, citou umas

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palavras de Jesus que manda sacudir o p das sandlias no limiar da casa dos mpios, e foi-se embora. Seguiram-no, algumas beatas num alto choro por longo espao; e, quando ele desapareceu no cotovelo da estrada, houve delas que arrancavam cabelos, cheios de lndias; outras davam-se bofetadas, e as mais histricas guinchavam uivos estridentes.

O Melro, o taverneiro, compadre do Feliciano, quando elas lhe passaram  porta a chorar, atrs do missionrio, saiu fora, e disse-lhes com um racionalismo brutal:

- Ah, grandes coiras 1

CONCLUSO

Marta regressou com D. Teresa, alguns dias depois. O brasileiro conveio no tratamento hidroptico da esposa; e a compadecida irm do vigrio ofereceu-se como enfermeira da pobre senhora, que se abraava nela com um medo imbecil, a pedir-lhe que a no deixasse, que a defendesse do missionrio.

D. Teresa assistiu ao nascimento da primeira filha de Marta. Imaginava a irm do vigrio que no esprito da me se havia de operar uma benigna mudana; que o amor  filha seria diverso  saudade de Jos Alves; mas a medicina no esperava alterao sensvel, porque era matria corrente nos tratados alienistas que um crebro lesado no se restaura sob a impresso do amor maternal, que s actua nas organizaes normais. Porm, D. Teresa no podia crer que Marta estivesse confirmadamente louca, posto que nas suas conversaes, em que, raras vezes, se interessava, disparatasse, afirmando que via a alma de Jos Alves, como quem conta um caso trivial.

Quando lhe mostraram a filha recm-nascida, contemplou-a alguns segundos; mas nem balbuciou urna palavra carinhosa, nem fez gesto algum de contentamento. A amiga dizia-lhe cousas muito meigas da filhinha, a ver se lhe espertava o corao. Punha-lha nos braos, dava-lha a beijar. Marta cedia com tristeza e constrangimento, beijando a filha como se fora uma criana alheia. A ama ia dizer s criadas que a brasileira era uma cafra, que no podia ver o anjinho do cu.

Os paroxismos eram menos frequentes; mas, trs dias antes

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do ataque, a turvao de Marta manifestava-se com extravagncias, delrios. Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava no sobrado, corno se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Teresa,  madrinha de sua filha, que arranjara aquele caminho de rosas, porque o seu Jos Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim em Vilalva quando casassem, e ela fizera aquele jardim para passearem juntos quando ele viesse  noite. D. Teresa encarou-a com uma grande piedade, porque se convenceu ento que estava perdida.

O Feliciano, quando ela se fechava no quarto, j sabia que estava a preparar-se o ataque; ia dormir noutra cama; necessitava do seu repouso, dizia ele; tinha de erguer-se cedo para ver o que faziam os jornaleiros, e no podia perder as noites. Corno o arrependimento de se casar j o mortificava, evadia-se s irremediveis apoquentaes, olhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se s vezes que, tendo uma mulher assim doente, no lhe seria muito desagradvel ficar vivo. No obstante, corno, passado o ataque epilptico, a esposa recaa numa serena indolncia, numa impassibilidade mansa e tranquila, o tio ia dormir com ela, tendo sempre em vista as condies do seu bem-estar, as necessidades imperiosas da sua fisiologia. Assim se explica a fecundidade de Marta, que deu em sete anos cinco filhos a seu marido. O mdico j tinha explicado satisfatoriamente ao padre Osrio que a demncia de Marta era funcional, e as faculdades reprodutoras no tinham que ver com as anormalidades cerebrais. A Providncia no teve a bondade de fazer estreis as dementes.

Entretanto, nos trs dias precedentes s crises epilpticas, parece que o marido lhe era repulsivo. Dava-se ento a revivncia de Jos Alves, o seu amado saa do sepulcro, e transportava-a nas suas asas de anjo ao paraso de Praziris. D. Teresa, colando o ouvido  fechadura da porta, ouvia-a conversar

como em dilogo, ficar silenciosa, depois duma interrogao, por largo espao de tempo; vinha de mansinho  porta espreitar que a no escutassem. Dizia palavras confusas, abafadas, cariciosamente proferidas, corno se tivesse os lbios postos

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em contacto de um rosto amado, O nome de "Jos" realava com uma nitidez jubilosa, com um timbre de meiguice infantil; e s vezes, um grito em esforado desespero como se ele se lhe desatasse dos braos para lhe fugir. Um espiritista da escola de Kardet tiraria desta loucura um argumento a favor das "manifestaes visveis", em que o fluido, o "perispirito" se

apresenta semimaterial, com as formas vagas do corpo, quase tangvel ao mdium.

O Feliciano ignorava estas cenas extranaturais. Ele, ao sexto ano de casado, encouraara-se num impenetrvel egosmo de avarento, cortando fundamente por todas as despesas que em vista da sua grande fortuna se reputavam sovinaria. A medicina j o considerava luntico, mais ou menos inficcionado da alienao da mulher. E a loucura que  se no a exagerao do carcter? Porque o viam s vezes atravessar os seus pinhais, com o

monculo, gesticulando e falando sozinho, chamavam-lhe doido. Errada hiptese do vulgo ignorante.. Ele fazia operaes aritmticas em voz alta como os velhos poetas inspirados faziam madrigais numa declamao rtmica ao ar livre e ao luar. O certo  que **nffigurn o apanhava em intervalo escuro para o defraudar num vintm. Comprou, urnas aps outras, todas as quintas que foram do Vasco Cerveira Lobo, de Quadros; umas  viva, e outras aos filhos. A D. Honorata Guio, casada em segundas npcias com o desembargador do ultramar Adolfo da Silveira, veio  metrpole assim que viuvou para se habilitar herdeira de metade do casal no vinculado do tenente-coronel. Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua me estava nos Pombais, com o marido e filhos, tentaram escorra~la com ameaas e insultos, atirando-lhe tiros s janelas. O magistrado fugiu com a sua famlia e acompanhou com fora armada os actos judiciais. Afinal, Honorata vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brasileiro Prazins; e o morgado, vendido o seu patrimnio desvinculado, e

mais o irmo, vergonhosamente casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existncia na tavolagem das tavernas. As filhas salvaram-se do naufrgio agarradas s pranchas dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam os seus ca-

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sais e as sovam de pontaps injustas e extemporneos, quando se lembram dos engenheiros do conde de Clarange Lucotte.

A brasileira de Prazins tem hoje cinquenta e trs anos. Os seus vizinhos que contam trinta anos nunca a viram, porque ela, desde que, em 1848, morreu D. Teresa, nunca mais saiu do seu quarto. J ningum a vai escutar; mas repete as mesmas palavras do seu amor de h quarenta anos, pede que lhe levem flores, tem as mesmas alucinaes, e -o que mais  - ainda tem lgrimas, quando, nos intervalos dos delrios, entra na angustiosa convico de que Jos Dias  morto. O padre Osrio ainda a

procura nesses perodos de razo bruxuleante e fala-lhe da irm por sentir a inefvel amargura doce de se ver acompanhado nas lgrimas, Mas o padre diz que nunca pudera ver nitidamente a linha divisria entre a razo e a insnia de Marta. Depois do delrio, sobrevm a monornania hipocondraca. A alma continuava a dormir sem sonhar, sem as alucinaes. Nessa segunda crise de torpor, ele e s ele  admitido ao seu quarto, depois de esperar que desa da cama ou se embrulhe num xaile para encobrir a sordidez do corpete dos vestidos. Este xaile  urna cintila resistente de instinto feminil que raras vezes se apaga no comum das dementes, excepto no maior nmero das histricas com erotismo.

Marta tem duas filhas casadas e j mes. s temporadas, vestem serenamente os seus trajes domingueiros e vo para casa dos pais, onde continuam na sfara dos campos a sua lida de solteiras. O pai educara-as na lavoura, de p descalo, e sachola nas unhas. Trabalham nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas. E os maridos, cheios de bom senso, j as no procuram. Quando regressam, recebem-nas sem as interrogarem; porque, se as afligem, do-lhe 's vagados e choram. Nos outros filhos intanguidos, escrufulosos, tristes e sem infncia, predomina a diatese da imbecilidade e a falta de senso moral que  uma espcie patolgica menos estudada dos alienistas. Entre estes filhos h um que estudou para clrigo. Passava por ser o mais escorreito, O pai achava-lhe talento. Estudou seis anos latim, em Braga, debaixo das mais rigorosas violn-

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cias  sua incapacidade; e quando Feliciano, prdigo de dinheiro para este filho, e desenganado pelo professor, o mandou buscar com trs reprovaes, ele trazia em uma caixa de lata cinco mil e tantas hstias com que se prevenira para as suas consagraes de sacerdote. E o pai foi to feliz que pde vender as hstias com o pequeno prejuzo de dez por cento.

- A tem o brasileiro de Prazins, se nunca o viu - dizia-me h trs meses o padre Osrio mostrando-me no mercado de Famalico um velho escanifrado, muito escanhoado, direito, com o monculo fixo, vestido de cotim, com um guarda-p sujo, esfarpelado na abotoadura, e uma chibata de marmeleiro com que sacudia a poeira das calas arregaadas. -Tem oitenta e quatro anos - continuou o vigrio de Caldelas -, veio a p de sua casa, que dista daqui lgua e meia, janta um vintm de arroz, bebe outro vintm de vinho, tem quinhentos contos, e volta para sua casa a p, atravs ou pouco menos das suas catorze quintas. Com a frugalidade, com o exerccio e corno seu egosmo srdido viver ainda muito tempo, porque o velho Alexandre Dumas disse que os egostas e os papagaios viviam cento e cinquenta anos.

P.S.

Com os subsdios ministrados pelo cura de Caldeias compus esta narrativa, espraiando-me por acessrios de duvidoso bom senso, cuja responsabilidade declino dos ombros daquele discreto sacerdote. Tudo que neste livro tem bafio de velhas chalaas, ironias e stiras  meu; e, se algum por isso me arguir de pouco respeitador do vcio e da tolice, retiro tudo.

Se o meu condescendente informador me permite, ouso

dizer-lhe -para nos esquivarmos ambos s insdias da crtica portuguesa - que a demncia de Marta no  extremamente original nem o meu romance uma singularidade incontroversa.
O que, sem disputa,  original,  duvidar eu de que o sou.

Em um Conto de Charles Nodier, autor remoto que se perde no crepsculo da literatura arqueolgica, h uma Ldia que endoideceu quando o marido, um barqueiro de limpo nascimento e

generosa ndole, pereceu num incndio salvando trs crianas e

sua me.

Ldia enlouquece e cuida que seu esposo est no cu de dia e a visita de noite. Ela, desde o repontar da aurora, sai ao jardim, e colhe flores para o brindar quando ele desce do azul com asas

de penas de ouro. Ao cabo de seis anos deste sonhar delicioso, a

ditosa doida, quando andava a escolher as flores dilectas para o

bouquet das npcias com o anjo de cada noite, sentou-se em

dulcssima sonolncia e expirou.

As analogias de Ldia e Marta frisam pela viso dominante na demncia de ambas - urna espcie de ressurreio do amado.

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No que elas diversificam essencialmente  que uma sonhou seis anos e a outra vai no trigsimo stimo da sua demncia; Ldia sonhou absorvida na sua ideal aliana com um celcola, um

bem-aventurado com asas de ouro; Marta, quando emerge alucinada no seu letargo,  a paixo leal ao amado sempre vivo na

terra e no seu corao. Ldia passa as noites em amplexos do marido celestial; Marta, sem conscincia da sua vida orgnica, tem cinco filhos, como se arrancasse de si a poro ignbil do seu ser

e a rejeitasse ao cevo sensual do marido ressalvando a alma dessa inconsciente materialidade. Quer-me, portanto, parecer que no h ndoa de plagiato no meu livrinho - uma coisa original

como o pecado.

O leitor pergunta: qual  o intuito cientfico, disciplinar, moderno, deste romance? Que prova e conclui? Que h a proveitoso como elemento que reorganize o indivduo ou a espcie?

Respondo: nada, pela palavra, nada. O meu romance no pretende reorganizar cousa nenhuma. E o autor desta obra estril assevera, em nome do patriarca Voltaire, que "deixaremos este mundo tolo e mau, tal qual era quando c entrmos",

S. Miguel de Ceide, Dezembro de 1882


